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sábado, 12 de fevereiro de 2011

As Múmias de Boliqueime: do alto deste palácio, quarenta anos de atraso vos contemplam





magem do Kaos

Há revoluções que são como os rios: começam por um simples fio de água e espraiam-se, depois, em infindáveis oceanos.
Creio que esse seja o espírito do Nilo, e, hoje, o Deus Serápis voltou a levantar os braços no Cairo e Alexandria. Para um cético, como eu, prefiro fixar-me nas imagens, e pelas massas que ondulam, em vez de me embrenhar pelos abismos da futurologia. De aqui a muitos anos, aconteça o que acontecer, serão essas imagens que guardarei comigo, como no dia em que o Muro de Berlim se desfez, e em muitos outros, raros, dias, da nossa memória finita.
O futuro das revoluções só é julgado muito tempo depois, pelos vindouros, para quem elas foram eventos de um distante passado.
Hoje é tão só o dia das marés de gente, das cores das bandeiras e dos civismos de multidões pelas quais passaram alguns dos mais altos momentos da História.

Hoje, no Cairo, dança nas ruas a memória do Unificador das Duas Terras, Ptah e Imoteph, a triologia de Gizeh, a impenetrável Abidos, a grande Hatschepsut e Tutmés, o Grande, o hermético Akhenaton, Nefertiti, o trono infantil de Tutankhamon, os Ramséssidas e os tesouros núbios de Tânis, a voz de Necao, que mandou os fenícios fazer o primeiro périplo de África, Nectnanebo II, que compunha cartas astrológicas para Olympia, a mãe de Alexandre, os Lágidas, César, António e Cleópatra VII, Cesárion e Ísis, Selene, o Farol, o Museu e a Biblioteca, Euclides, os tradutores gregos do Biblion, Hipatia, Justiniano e os homens do deserto, Heráclio, Saladino, os Mamelucos, os sultões escravos, Kavafis e um rio enorme e eterno, que desenha no Céu e na Terra, a monstruosa barragem de Assuão.

Hoje é hoje, e o hoje não é amanhã. O amanhã logo se verá, e vivamos, como as bacantes, as noites dos ardentes dias de hoje. Quando, pelas cinco da manhã, o sol escaldante do deserto voltar a recortar o eterno sorriso de Kéfren, grafado na Esfinge, deveremos questionar o futuro, porque o futuro será feito de coisas que aí vêm, muito breves, mas hoje não me interessam.

É bom saber que o Mundo, cansado da sua impenetrável idade, voltou a respirar uns quantos raros momentos de juventude, e que, mesmo eu, inveterado pagão, avesso aos credos do Livro e da chacina, estou agora a olhar, mudo e quedo, para o Nilo das gentes que ainda acreditam nas mudanças.

Nenhumas destas coisas são passíveis de comparação, mas, enquanto o Norte de África se liberta do seu bolor, sem saber o que lhe reservarão os dias próximos, nós, Portugueses, povo sem solução, mais uma vez deixámos que se arrastassem para o topo do Estado cadáveres adiados sem futuro, carregados do pior bafio.
O Tribunal Constitucional desta coisa agonizante, chamada "República Portuguesa", parece que relembrou que o cidadão Aníbal Cavaco Silva iria, a partir de Março, exercer uma lenta agonia no Palácio de Belém.

Confesso que, depois daquele dia aziago de janeiro, em que uma maioria absolutíssima de portugueses disse a esse homenzinho que o tempo dele tinha acabado, pensei, enquanto escritor, que estivéssemos a assistir a um mero roteiro e virar de página de jornal descartável do metro. Votavam no homenzinho, só para que ele pudesse escrever no currículo que tinha sido duas vezes presidente da vergonhosa coisa portuguesa, mas não foi assim: de facto, o disparate desse dia iria corresponder a uma longa indução em coma, com previsibilidade de duração de 5 anos. Quer isto dizer que, quando o Magreb do Sul, hoje, se começou a livrar das suas múmias, nós, Magreb do Norte, alçámos ao nosso pequeno teatro de revista mais um miserável número de "vaudeville", presépios e visitas a lares de mongolóides.
A preceito, esta enorme paralisia cerebral coletiva precisava da sua Praça Tahrir, aliás, precisava de várias, de marés de gente cheia de espontaneidade, que tirasse os sapatos e os mostrasse a esta corja, agora incarnada por uma mumificação algarvia.

Nada disto, aliás, não cheira nem bem, nem mal, porque já perdemos o olfato e nos deixámos anestesiar por uma ignominiosa rotina de passividade. Perdemos a História e o Tempo, e, enquanto os nossos vizinhos vêm para a rua cantar agora o rumor das massas esperançosas, nós veneramos o pão bolorento, endividados, até à Eternidade, por uma multidão de crimes sem castigo.

Essa... "coisa"... que o Magreb do Norte vai colocar no palácio presidencial português é a sombra de um dos maiores desfalques dos dinheiros públicos a que este país já assistiu, o BPN. Eu sei que não têm verdadeira ideia da dimensão disso, esse... BPN, mas eu vou traduzi-lo por palavras: o BPN é uma espécie de casa pia do freeport de entre os rios dos fundos sociais europeus, onde o apito dourado soava como a fundação hemofílica de um furacão da noite branca, a cobrir de modernas, independentes e lusófonas, a cortiçosa mancha do processo do parque de portucale, no meio de um som de ensurdecedoras sucatas de submarinos.
A fatura será um buraco sem fundo, até à morte dos nossos netos.

Se isto fosse um país, e não um ajuntamento de pessoas, quando as caricaturas de Boliqueime se dirigissem, em Março, a Belém, para nos envergonhar mais cinco anos, deveria haver umas milícias da renovação, que os agarrassem pelos braços, e os obrigassem a uma reclusão, para sempre, nas suas aberrações arquitetónicas do Quinta da Coelha, para tratar dos netos, lembrando que o povo que outrora dominou as Rotas da Pimenta não pode agora estar condenado a respirar pó de múmia para todo o resto da sua História.

(Quinteto de Alexandria, no "Arrebenta-SOL", no "Democracia em Portugal", no "Klandestino", no "Uma Aventura Sinistra" e em "The Braganza Mothers")

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

O Cabrão de Boliqueime VI, como doloroso epitáfio de Ernâni Lopes








O país é o que é, e nós somos o que somos, e a mais não aspiramos do que ter o que merecemos. Cansa-me remexer no passado, sobretudo quando o presente está no estado em que está, mas como só se morre uma vez, não quereria deixar em branco aqui o passamento de ernâni lopes, por muito pouco que me interessem, enquanto gastador, todos os exegetas da poupança.

Enfim, se for ao caixote do lixo, lá encontrarei um tempo em que o país, como agora, estava completamente falido, e os dois partidos do centrão, num soar de alarme do salve-se-quem-puder, resolveram deitar mão a tudo o que era artifício, para salvar a situação. Compete-me dizer que, com todos os defeitos, o palco da política ainda era ocupado por figuras de primeiro plano, e não pelas pendurezas da atualidade.

Se não me engano, andava por aí o FMI, o senhor mário soares apanhava nos cornos dos comunistas... não, isso acho que foi depois, mas pronto, isto é ficção, portanto, foi nesse tempo, e houve um luto, que foi morrer o dirigente do psd, mota pinto, uma figura apagada, mas que tinha percebido que, em tempo de vacas magrérrimas, mais haveria que esquecer as semelhanças e as diferenças, e apostar numa salvação nacional. Imperava nas finanças ernâni lopes, que resolveu trocar parte do subsídio de natal das velhinhas, das de meia idade e das novas por umas merdas chamadas títulos do tesouro, como se isto tivesse assumido, de vez, ser um navio de piratas, e haver uma arca de maravilhas, no final do arco íris.

Não havia.

Pelo que reza a história, ou as conveniências do revisionismo da história, a visita do fmi, pela mão de uma Teresa Ter-Minassian, que abria as pernas como um mealheiro, com uma audácia que nem a câncio com os rafeiros da rodrigues sampaio, conseguiu que este amontoado de gente equilibrasse as contas públicas. Deveu-se o facto à estatura com nível mundial de mário soares e às minúcias de equilibrista e brilhante técnico de ernâni lopes.

Para quem detesta futebol, aqui vai uma velha máxima, que era a de não se dever mexer em equipa ganhadora. Todavia, o psd, especialista em dar o cházinho da meia noite aos seus dirigentes, tinha acabado de apanhar com o luto de mota pinto, e o sr. soares, a mesma velha rata corrupta e manhosa que ainda hoje continua a ser, tentou assegurar o governo, pensando negociar um prolongamento do centrão com o possível líder seguinte do partido liberal, que, por cá, cá se intitula de "social democrata".

Esquecia-se ele de que somos um povo traiçoeiro, e de que trazemos sempre junto ao coração um pequeno grande salazar, e, quando o XII congresso se reuniu, com a expectativa da eleição de joão salgueiro, para acasalar com a mana gorda soarista, ainda ninguém imaginava que ali vinha a caminho um viralatas, ressentido e provinciano, desde a sua vila mariani, no algarve, com uma infância à antiga portuguesa, de porcos no andar de baixo, e uma família de bigode no andar de cima, trazer um bafo de boliqueime aos litorais da figueira. A novidade, parece, é, para além dos porcos, tinha uma bomba de gasolina estacionada à porta de casa, coisa que, como ainda hoje em dia, na jijajoga da especulação dos combustíveis dá jeito, permitiu ao aníbal pai, um saloio das feiras que deus nosso senhor, graças a deus, já levou para junto de si, amealhar um pequeno pé de meia.

Cavaco foi de citroen para a figueira, onde atraiçoou a obra de ernâni lopes, deu a facada no soares e na memória de mota pinto, e encheu a sala de perdigotos tais que convenceu, de vez, aquela matilha, que são os barões do psd, de que era o homem indicado para o lugar.

Não era, e assim se iniciou o presente ciclo de desgraça do país.

Usando uma linguagem muito típica da época, o aníbal tinha um "fascista" escondido dentro dele: tinha jurado à pide ser corno manso com o ancien régime, e que "estava integrado no salazarismo".

Esse, aliás, é um dos problemas que a futura cavaquística, a ciência do desastre nacional, deverá submeter a exegese, um pouco à moda de são tomás de aquino, através da questão "de que modo as expectativas goradas de uma mente estreita vir um dia a integrar a nomenklatura de um regime, que foi abalado por uma revolução, se refletirão em sucessivos solavancos de ressentimento e distorsão da personalidade, de um indivíduo que passará o resto da sua vida a fingir que, de facto, não preferia a comodidade da prateleira do totalitarismo a uma democracia?..."

Esta é a questão existencial do sr. aníbal, e dela nunca se livrará, por mais campanhas e branqueamentos que tente.

Quando o sr. aníbal atraiçoou o seu partido e o sr. soares, era uma criatura que não sabia que havia europa: a sua europa era um quintal em boliqueime e um estágio passado numa cidade de província inglesa, de onde tinha vindo acautelado com um canudo em obsolescências financeiras, dado pelos ingleses naquele espírito do "coitadinho, vem do terceiro mundo, vamos deixá-lo voltar para lá com alguma coisinha...", e ele lá voltou, arrogante, ignaro e ultrapassado, para mal dos nossos azares, de então, de agora, e de todos os futuros.

Ao contrário de soares, que, sempre que mentia, utilizava um tom internacional, o sr, aníbal, de cada vez que tentava ser moderno, abria a boca e saía-lhe um arroto de poço de boliqueime, babado aos cantos da boca, apesar dos esforços de educação da dicção, pela glória de matos, e sempre transpirado das mãos, como ser cobarde que era, e se fazia transportar numa viatura blindada, como se alguém se desse ao trabalho de gastar um cartuxo de caçadeira num pato bravo daqueles...

O resto da história já vocês sabem, e culmina nestes dias de desastre de dezembro de 2010, em que um dos grandes carrascos da nossa economia, cultura e finanças se arvora no avôzinho protetor do povinho apavorado.
Objetivamente... puta que o pariu, porque já lhe tirei o retrato há muito, talvez no dia em que traiu o esforço de ernâni lopes, e mostrou que a chico-espertice nacional vale todas as minúcias e sacrifícios de técnicos honestos e servidores da coisa pública.

Cavaco não era, nunca foi, um político, e, quando arribou, já vinha com uma enorme corte de milhafres, pronta para pilhar o património europeu dos portugueses. Se fôssemos um povo, e não um ajuntamento de pessoas, já lhe deveríamos ter escrito o epitáfio há muito, e identificado o programa do país ideal: está todo na galeria fotográfica de maria cavaco silva, um caso de estudo para os futuros cronistas e etnopsicanalistas do nosso tempo, em que se verá como um par de jarras fora de prazo sonhava com um país de mongolóides, enjeitadinhos, pobres, aleijadinhos, inválidos, mas sempre com um brilho de olhar e iluminação, de quem recebeu a benção de ter estado, por um instante que fosse, perante os kennedys de boliqueime, a epifania das epifanias, uma espécie de porteiros de província, que resolveram abancar à porta de um país de glorioso passado, para o travarem para sempre.

Para mim, enquanto esteta, o fotógrafo que criou aquele espaço de horror devia ser imediatamente demitido, mas isto é só um àparte.

Por fim, para que o texto desça da ficção à autópsia, eu diria que, no fenómeno cavaco há um misto de síndroma de peter pan, onde um povo, coletivamente, decide demitir-se das suas responsabilidades, e assumir ser, para sempre, estúpido e infantil, e sempre sob a tutela de um salazareco qualquer, a ter de ombrear com as consequências e custos da sua maturidade. Nós nunca somos culpados, porque a culpa é sempre dos outros, geralmente, dos "políticos", onde corremos a votar, logo a seguir à falsa lamentação.

A outra metade da síndroma é ainda mais sinistra: é claramente a síndroma de estocolmo, de que sofria aquela estúpida austríaca, que era comida e emprenhada pelo pai, no fundo de uma garagem, e que, quando foi libertada e se tornou celebridade nos focos de escândalo mundial, ainda veio dizer que até sentia uma certa ternura por ele (!)

A nossa história, só deus saberá desde quando, é uma espécie de enorme síndroma de estocolmo, que leva a que nos... (este "nos" não me inclui, nem aos meus leitores)... que, como "solução" para o dia seguinte, nos encostemos sempre ao carrasco da véspera mais próxima.

Quase 900 anos disto cansam, sobretudo, quando são incarnados por figuras de baixo coturno, como aníbal e sócrates.

Não queria deixar de terminar com uma palavrinha dedicada ao falecido, infelizmente para dizer que, também ele, talvez já não na plena posse das suas faculdade, se deixou apanhar no vórtice estocolmiano do sr. cavaco, integrando a comissão de honra (!) da sua candidatura presidencial, como se alguma honra houvesse no penoso penar do algarvio pela desonra nacional, sobretudo nesta fase terminal, em que nos arriscamos a ser vítimas de uma estrutura idiossincrática anómala, que talvez nos possa custar a independência, em todas as suas faces, facetas e prismas.

Paz à sua alma, já que a nossa muito pouca virá a ter, até que o cancro de boliqueime morra, ou degenere, de vez, neurologicamente.

(em tempo de trevas, no "arrebenta-sol", no "democracia em portugal", no "klandestino", no "uma aventura sinistra", e no desventurado "the braganza mothers")