sábado, 24 de outubro de 2015

Transcrições das Escutas da "Operação Marquês" - "As gajas andam cada vez mais exigentes, e um gajo tem de se pôr a pau..."






Imagem do Kaos




Do CD 12, da série "collector's prize" do procurador Rosário Teixeira

(2 da manhã, toca o telefone na Suite Rosa do "Sheraton Pine Cliffs")



C.S.S. - A gaja já está aí?...

Zé - Yep, ferradinha no sono. Nem os jeans tirou, virou-se logo para a parede e está a roncar. Queres ouvir?... Tadinha, parece uma porca... (risos)

C.S.S. - Deixa-te disso, pá... Olha, o Perna vai passar no monte, antes de ir para aí. Foi o que ele me disse.

Zé - E traz a carga?...

C.S.S. - Na boa, mano. É só livros.. (risos). Ele ainda não está certo de também virem alguns da estante da outra, da Fava. Mas parece que vais ter uma biblioteca toda só para ti, meu... (risos)

Zé - Tá-se bem (risos). Porreiro, pá... Eu nunca pensei que fosse gostar tanto de leituras (risos)

C.S.S. - Quando fores para França vais ser um "estrangeirado", ainda acabas a dar aulas ao pessoal, que a gente bem "precisamos" (risos)

Zé - Estudos é comigo. Estudos e livros... (risos)

C.S.S. - E comigo (risos) Sempre foi... (risos)

Zé - E já deste um toque para Paris?...

C.S.S. - Está tudo tratado, ou quase tudo. Os gajos dos... dos... (risos) "Negócios Traseiros" (risos) já falaram para a Embaixada, para o Seixas da Costa, mas a velha está esquisita, diz que fazer equivalências em Filosofia... pronto, não sei, parece que ela é daquelas ainda à antiga, que dão entrevistas na Antenne 5... Acho que ela acredita mesmo naquilo... Foi o que disseram

Zé - Na boa, mas o que o pessoal quer mesmo agora são gajas para dar crédito, gajas sérias, daquelas francesas, como nas séries, 'da-se, ando farto de jornalistas, gajas de pé descalço, até parece que vivem só para ser pagas à tarefa, como esta, que está para aqui esticada... No fundo, eu queria mesmo era uma Madame da Sorbonne, para fazer como na "Independente", mas com... sei lá, com estilo, com muito estilo... "glamour", estás a ver, "glamour". Se reparares, desde os calotes e as b'zanas de Coimbra, até... até Lisboa, o ISEL... Foda-se, que saudades, pá, a "Independente", tudo isso... mas um gajo tem de subir, acho que Paris até me assenta bem, não achas?... Parece que um gajo entra lá engenheiro e sai de lá doutor. Acho que a minha mãe ia gostar, vou fazer isto... é isso, vou fazer isto só por ela. Pronto está decidido... Agora, só falta convencerem a velha...

C.S.S. - Eu vou telefonar outra vez ao Seixas da Costa, mas o ideal era mesmo ires lá tu, pessoalmente, tipo, o gajo convida-a a ela, e... e... convida-te a ti, aquilo é serviço cultural, Paris é outra coisa, ele dá-lhe uns chás, sabes que essas gajas francesas gostam de ser bem tratadas (risos), não tomam banho, mas estão sempre a beber chá (risos)..., tu depois entras, como se fosse por acaso, ele apresenta-te, e diz à velha que é só para ela reconhecer umas equivalências... deixa cá ver... eu até tenho aqui uma cábula de umas merdas, de uns papéis, que trouxe... que trouxe... do teu processo na "Independente"...

Zé - Foda-se, afinal és tu que tens o meu processo?... As voltas que a velha já deu, lá em casa, para encontrar isso!... Tu queima-me já essa merda, por que se isso cai no "Sol", na "Sábado" ou no "Correio da Manhã" estamos lixados!... Não se arranja um Gago todos os dias para fechar uma merda de uma universidade!... As coisas agora estão muito piores, está tudo controlado, tudo apertado, um gajo tem de ter muito cuidado, senão ainda nos lixam a vida toda, e olha que eu já estou fodido com eles, os gajos são capazes de tudo, se pudessem, até nos prendiam, cabrões da merda... 

C.S.S - Não vou queimar nada, que isto tem de ir por fax, direitinho, para o Seixas da Costa, para ele mostrar à velha... Ou não queres fazer as coisas todas certinhas... (pausa) Deixa cá ver... que é isto de "Estruturas"?...

Zé - Não sei, mas se está aí no papel é por que devia ser do curso...

C.S.S. - ... tá bem visto, isto no fundo é como dizia o Godinho, os cursos são como os carros, a gente às vezes não percebe para que servem aquelas peças todas, mas se lá estão é por que são para alguma coisa..., portanto... "Estruturas"... Deixa cá ver... O Seixas disse para tu veres... Parece que a velha é mesmo troca por troca...

Zé- Mas é para trocar o quê?...

C.S.S. - Tanto quanto eu percebi, é para trocar os nomes que estão em português por nomes que vão estar em francês, e a tal velha assina por baixo e tu passas a ser filósofo... (risos) Grande filósofo que tu me saíste, meu cabrão... (risos) Ainda vais ser o Sócrates do séc. XXI, só sucesso e o passeio da fama, a dares autógrafos pelos Champs Elysées acima, para baixo e para cima, como um interruptor... que grande filósofo que tu me saíste, meu cabrão... (risos)

Zé - E que nomes é que é para a gente trocar?...

C.S.S. - Ó, Zé, isso já perguntei eu... já te disse... esta merda, "Estruturas".... "estruturas" diz-te alguma coisa?...

Zé - Pá, talvez, assim, de repente, não sei... Mas podes escolher uma francesa com um número parecido de letras...

C.S.S - Número de letras?... Só contando... "Logique"?... Não, é curto... "Ontologie"?...

Zé - Não, essa começa por "O"... Diz outra!...

C.S.S. - Não sei... Acho que vamos mesmo ter de nos encontrar, para ler isto em conjunto e depois mandar para o Seixas. Convinha mesmo tratar disto antes da velha morrer, não é, pá?... Vê lá... não sei... "Théorie de la Connaissance"?...

Zé - Ouve lá, isso é muito grande!... Arranja um curto e começado por "E", pá, é assim tão, tão, tão... difícil?...

C.S.S. - Não sei. Deixa ver... (pausa) Sei lá... "Épistémologie"... Tem muitas letras, mas começa por "E", não é?...

Zé - Isso, essa está boa, faz aí uma seta entre as duas, e diz-se depois à velha que é tradução portuguesa, ela também não deve pescar nada desse baralho, quando querem dar uma de intelectuais, o máximo que fazem é pôr a boca em bico e falar de "Saudade", a saudade que as pôs e mais um "zangado" atrás...

C.S.S. - E que vais fazer agora?...

Zé - Pá, vou ver um bocado a Teresa Guilherme e ficar à espera que o Perna apite. Ainda por cima esta gaja está para aqui deitada, a dormir... Acho que vou mesmo para o quarto ao lado... Fogo... Se não lhe estivesse a pagar... porra, às vezes só me apetece vingar disto, tirar umas fotos dela nesta posição e enviar tudo para a revista "Cristina", da outra gaja, no fundo elas deviam eram expor-se umas às outras, não valem um caralho, e nós temos de andar a reboque disto, só para as aparências, a ver se depois tiro a barriga de misérias em Paris...

(Fim da gravação)


(Quarteto do amanhã há mais, ah,pois há, no "Arrebenta-SOL", no "Democracia em Portugal", no "Klandestino" e em "The Braganza Mothers")

segunda-feira, 19 de outubro de 2015

Pequena ode campestre, para o nascimento de Eduardo IV







Dedicado ao Baby Boy Swin, e aos eduardos do futuro, com a estima do porvir, nos céus celestes



Outubro é o tempo de reinos sem roque, a pátria errante. No início vieram suões; para o fim, já reinava o vento forte. Lá pelo meio, Eduardo viu o Mundo e o Zodíaco da Balança. No zénite, reinava Úrano, solitário, o senhor do Aquário, a conjugar com o Sol a fremência dos progressos. Apostando fortes pujanças no Irracional, as turbulências de Vesta, em fogo, foram viradas para razões violentas e para o declínio da ordem do sistema antigo. Senhor de príncipes e princesas, a sua carta astral suporta-se na branca Canopus, e na azul Sírio e também na Procyon dos Dois Cães. Assim será, por natureza, idealista, e depois, pela adolescência, sonhador, por onde passará a seduzir com dons de Fomalhaut, e de Rigel, e da vermelha Aldebaran, a senhora alta dos Arcos do Touro. Não suportará que lhe contestem opiniões, e levará o fogo dos litígios a fundar em ordem tempos novos. O céu do nascimento pôs-lhe os astros plúmbeos bem abaixo do horizonte. Só a Lua se enxerga em crescente fino, e é parca arca d'Ísis a dotar-lhe oníricos e horas longas de contos maravilhados. Será sua a beleza natural, e a Justiça e o sentido do gosto apurado. É o que discretamente lhe dita o arcano último, de Achernar, Alpha Eridani, a senhora do "fim do rio". Hadward Frates, filadelfo, guardião das riquezas, senhor dos risos de ouro e dos galgos de prata dos céus e da terra, serás nascido num tempo ambíguo e sem senhor, e assim durarás além dos tempos, pois está escrito que também tu serás senhor.


(Quarteto em forma de zénite, no "Arrebenta-SOL", no "Democracia em Portugal", no "Klandestino" e em "The Braganza Mothers")

segunda-feira, 5 de outubro de 2015

As Legislativas de 2015, entre as Madrassas Balsemânicas e as Manas Mortágua








Para mim, homem do visual, que não assistiu a um único debate, toda a euforia da campanha se poderia resumir e assentar na riqueza dos cartazes. Como estou no nível mais básico de Parsons, todos os cartazes da campanha foram bons, e todos os cartazes da campanha foram iguais. Só depois desta seleção eu me ergui e fui votar. Eu sei este método pode ter parecido simples, mas também não é genuinamente verdadeiro, já que o toque final, na verdade, veio mesmo de um decisivo bouche/oreille, ou seja de um suspiro de última hora, apanhado num intervalo de duas caixas da Louis Vuitton: dizia um veterano para o outro se ele já tinha reparado nas Manas Mortágua, de onde fiquei a saber que as manas mortáguas eram aquelas damas esfíngicas dos cartazes do Bloco de Esquerda.

Eu gosto muito de esfinges, e sobretudo das do discurso subliminar que transportam. Se a PaF ganhou por fé, e foi fé até ao fim com o crucifixo -- e a dívida pública duplicada, creio... -- no bolso, já o Bloco de Esquerda teve uma forte ascensão sustentada pela líbido dos velhos babosos. Parece que as manas Mortágua não são as dos cartazes, mas isso também me é indiferente, posto que só votei nos cartazes, e apeteceu-me acreditar que aquele era um cartaz de manas, e o que é certo é que as manas dos cartazes fizeram tocar uma sineta qualquer do badalo da Terceira Idade. Por prolongamento e extensão, tudo aquilo que as gerações mais novas têm em si da terceira idade também acabou por se projetar no inconsciente baboso dos militantes de barba e cronologia menos definida: já que entre duas falsas manas e o lesbianismo o intervalo epistemológico é nulo, e onde o intervalo epistemológico é nulo há sempre lugar para uma enorme fantasia libidinosa, devem as Mortágua ter sido, por confusão, entendidas como as suas antepassadas Guardiolas, e o voto desvairado no Bloco de Esquerda obedecido assim a uma eufórica deriva de fressura. Não me atreveria a concluir, dada a literatura deste texto, que as grandes vencedoras da noite foram as fressureiras, mas para vocês fica esse sombrio tirar de ilações.

Numa perspetiva mais racional, da enorme degradação que foi a noite eleitoral, aparentemente, apenas um partido venceu o escrutínio, e venceu-o pelo mesma mesma métrica de fé e fidelização com que as velhas da Avenida de Roma foram todas votar na coligação que lhes tinha assaltado as reformas. Há um princípio genuinamente português, que se reveste de uma enorme universalidade, e que é traduzido na profunda espiritualidade da frase "podia ter sido pior", e esse é o verdadeiro epitáfio dos quatro anos catastróficos do Passosportismo. Tudo o resto são pormenores, e já foram esquecidos, já que tudo podia ter sido pior.

Há 900 anos que tudo podia ter sido pior, mas até não foi, e assim chegamos a esta imparidade insossa, de seu nome Portugal.

Dentro desta fatalidade, temos o timbre próprio do nosso infortúnio, que passa pela emoção própria do "ai, aguentam, aguentam", e do quanto pior, apesar de tudo, melhor. Há, neste permanente espírito do tripas à moda do porto, um implícito masoquismo histórico, com dupla face, já que, não sendo consensual, sempre que se estende ao masoquismo do parceiro se pode imediatamente revestir de uma forma particular de crueldade. Não será preciso reler Freud para encontrar o clássico par sadomasoquista, e toda a veia estrutural de um modo peculiar de estar, no qual, estranhamente, nos definimos como identidade histórica.

Não sei se o meu colega de academia, José Gil, quererá, nas suas reflexões sobre a idiossincrasia lusitana, desenvolver o tema, mas aqui fica o repto: particularmente libertos da responsabilidade de votar, dentro da flexão muito própria que foram as legislativas deste início de outubro, os Portugueses puderam finalmente dedicar-se ao exercício muito especial, de, em vez de mostrarem o que queriam, terem uma excelente oportunidade para mostrarem o que eram, e o que são é uma simples turba agachada, com pouco lugar para a imaginação.

Do ponto de vista dos grandes ciclos políticos, as Legislativas de 2015 também trouxeram uma alteração paradigmática, já que não incumbiram, como usual, o partido alternante de pagar as despesas do alternado. Para quem queira fazer algumas contas de cabeça, a tal coligação PaF, responsável por um dos períodos de maior desastre e atropelamento de valores, ficou assim incumbida, por um certo princípio de bonomia e crendice, de restabelecer a ternura da relação. Ignoro se, na célebre Síndroma de Estocolmo, estará incluído um princípio de redenção, no qual o carrasco se transforma no afagador. Tenho a minha opinião, mas prefiro guardá-la para de aqui a alguns meses, quando esta euforia toda se começar a deteriorar...

Esquecida a afetividade, fica a dureza própria dos ditames das Economia, e veremos se, depois das tempestades, das austeridades e das restrições assistiremos a um banho certo de realidade. A hipótese alternativa é mais adversa, já que poderia chegar à conclusão de que o caminho estava certo, e teríamos aqui uma receita para mais 40 anos de estabilidade...

A partir com isto tudo, assistimos a um dos mais perversos exercícios de contaminação da opinião pública, por parte das madrassas balsemânicas. Durante semanas, e com o apoio dos brilhantes publicitários que dinamizaram o Passosportismo, foram-nos substituindo a realidade por uma ficção tecida todos os dias. Na fase final, até já vinham as carochas do costume, na forma da voz etilizada das Manas Avillez, nas quais incluo o Júdice do Alto do Parque. Todos os esforços de Balsemão para que se chegasse a uma maioria absoluta forma gorados, sendo substituídos, como tanto ansiei, por um pesadelo para a Múmia de Boliqueime. Para o espectador de Lineu, ficaria, e ficará, sempre a incerteza de ter sido o que realmente aconteceu o acontecido, ou o produto de uma elaborada ficção. Mas, para não tornar indecente a ligeireza desta farpa, ficará para uma próxima.

Comecei por dizer que os Portugueses, libertos da responsabilidade de votar, se permitiram não escolher o que queriam, mas dizer o que eram. Estava a ser incorreto: ao escolherem o que escolheram, disseram o que eram, e o que somos impede-nos de qualquer modo de renovação, ou de ilusão da renovação, como na farsa grega. Na realidade, há uma claustrofobia coletiva que nos impede de ir mais além, e, mais grave do que isso, de estar permanentemente a deixar os outros ir. A recente morte do grande Vilhena, uma exceção num país de pantanosos saramagos, revela essa dura realidade: a Censura ficou por cá, em todas as suas formas, sem Estado que hoje lhe dê postura de estado, mas discretamente difusa por infinitos coios familiares, focinhos exaltados, fuinhas do ódio, hienas do mal, atrás dos seus pobres teclados manchados, numa longa e fracassada cruzada contra a expressão, liberta e una, como o artista a tivesse concebido. O lado interessante desta impossibilidade de diferença é a execução, no próprio ninho, das ascensão dos oportunismo epifenoménicos, como os ruis tavares e os marinhos pintos, e as próprias mamas penduradas e o golpe da barriga intentado pela outra.

Mais para escrever haveria, e ficará para uma próxima breve. De tudo isto só uma coisa generosa e certa emerge: depois de uma noite inteira de comentários, pode ver-se que o Professor Marcelo, o próximo Presidente, está num mesmo estado de tiques de boca do que o Vacão de Boliqueime: brevemente se afundarão ambos no mesmo pântano neurológico, o que explicaria, e apontaria, para um certo acordo pós eleitoral centrado em mais um Professor, desta vez, o neurologista Lobo Antunes. Um certo avanço, num país onde, como se sabe, se costuma ascender pela lógica própria dos desmanchos.


(Quarteto do bocejo, das mortáguas mortagueiras, no "Arrebenta-SOL", no "Democracia em Portugal", no "Klandestino" e em "The Braganza Mothers")

quinta-feira, 1 de outubro de 2015

As legislativas de outubro de 2015, como partido generalizado dos animais






Imagem do Kaos




Não tenho assistido a nada da campanha eleitoral, pelo que estou perfeitamente à vontade para dizer que não gostei, o que, creio, seria indiferente desta, ou de qualquer campanha, e até da estação. Hoje, todavia, entre duas gambas e uma flute do El Corte Ingles, vi um gajo sentado debaixo de uma árvore, e pensei que fosse o Armstrong a cantar What a wonderful world, mas não era, era um de uma coisa chamada Partido dos Animais. Depois de ter estado três segundos a descodificar a imagem e o subliminar dela, percebi por que não via qualquer campanha eleitoral, mas, mesmo assim, nunca gostava: pela razão pouco evidente de que, em vez de perceber a literalidade das mensagens, imediatamente era invariavelmente mergulhado numa insustentável metafísica, que me conduzia aos empíreos da mente. Sei que a frase pode ser confusa, mas, ao saber que existe um partido dos animais e da natureza, imediatamente me questionei sobre a sua justificação natural para ser o partido natural de, por exemplo, o Valentim Loureiro, e volto a explicar, o Valentim Loureiro, dependendo da hermenêutica utilizada, poderia desde logo entrar nesse partido, quer como pessoa, animal, ou simples hipóstase da Natureza, o que faria com que essa frente política imprevistamente se tornasse numa via, una e plural, para a ascensão do Vacão de Gondomar a uma tríade consensual.

Como poderão imaginar, desliguei aqui o plasma, e entrei numa divagação, sei lá, um êxtase teresa davílico, no qual, por indução, o partido dos homens, dos animais e da natureza também poderia ser o partido de Sócrates, e, se incluísse as nuvens, da própria Sofia Fava, e, se descesse um pouco aos infernos, poderia representar politicamente o Dias Loureiro, e se fosse o partido das sucatas, o do Godinho Sucateiro, e, pelo lado dos vampiros noturnos, o da "Nosferata" Nobre Guedes, mas ninguém iria votar no Partido dos Homens, dos Animais, da Natureza, das Nuvens, do Inferno e dos Vampiros, até por que as galholhas do Jornal da Noite teriam muita dificuldade em pronunciar a sigla PANNIV, uma espécie de Syriza do Barreiro, e os parasitas barbados que fabricam as sondagens telefónicas já se teriam muito antes enganado, e arrumado isso naquela confortável categoria dos "Outros".

A história poderia ter terminado aqui, se eu não me tivesse decidido tornar num eleitor consciente e consciencializado e ido à Comissão Nacional de Eleições, e ver que esta síndroma do universal se tinha espalhado por muitas mais formações políticas. Com o carinho com que nos mandam tratar os idosos, o meu voto do coração até iria para o PURP, uma coisa profundamente porfirogeneta, se não fosse no país de Barrancos, e votaria nos reformados, o mais volátil dos partidos, já que hoje, quinta, não sabe quantos estarão vivos, para votar no domingo, quantos assistirão às projeções, na madrugada de segunda, e, mais grave do que isso, quantos dos eleitos poderão ficar pelo caminho, e ocupar os seus lugares, nos alvores da nova legislatura. Creio ser este o Partido de Heraclito, e seria o meu, se algum tivesse, mais pelo lado de estar reformado, do que de ter enturmado nalguma filiação da pata que me pôs.

Todavia, os pequenos transportam consigo muito do carinho que devemos à infância, o Agir, que nos dita a posição das mamas e do útero, o PNR, que anuncia a burka como momento seguinte da praga das barbas, e lá deverá andar perto da razão, o MRPP, que queria matar todos os traidores, ou seja, esvaziar o país ainda mais do que já está; o Deus nos Livre, e o da Terra, que deveria fazer uma coligação pré eleitoral, meu deus tantos outros, mas, para evitar que este texto se eternize, vamos já ao centro da questão: contrariamente, ou talvez em consonância com muitos portugueses, o meu guião político não se prende com tendências, ou oscilações políticas, mas antes com a qualidade dos estragos que os sobressaltos deste escrutínio possam provocar na pessoa que mais execro no cenário português, Aníbal de Boliqueime. Na generalidade, dizem-me, de imediato, que esse já não conta e está acabado, mas justement, este é o último momento em que lhe podemos dar um carinho, e aqui entra a análise fina, já que impera saber o que lhe será, dos cenários possíveis, o mais nocivo. Uma resposta, na generalidade, aponta para aquilo que ele não quer, a maioria relativa, pelo que lhe devemos dar, de qualquer das formas possíveis, uma maioria relativa, seja ela a do casalinho do rosário, ou a do lobby dos galambistas. Deixo aos comentadores de bancada a aferição dos pormenores, o saber o que lhe será de maior desgosto, um Costa, com as bainhas curtas, ou um Coelho, vencedor só por um pouco. Para mim, que anseio para que ambos percam, a tesão é a mesma, sendo que, pelo lado das minudências, a coisa já não é tão elementar, e, embora ache que a última fatia de ruína de Portugal deveria ser penalizada, muito mais me custa imaginar a vozinha do Galamba, ao telemóvel, a anunciar, "pai, já sou ministro de estado!..."

Pelas ruas, afirma-se uma atmosfera pesada, com muitas cabeças bem pensantes a irem votar, por fé e militância, na PaF, o tal ruído que a coisa tanto pode fazer, ao cair para baixo, como ao cair para cima, ou pior ainda, a cair para a frente, ou para trás. Creio que esta substituição do preceito lógico pelo irracional da crença deva ser a grande invenção desta miserável campanha, mas dada a degradação do cenário, tal motor torna-se tão irrelevante como qualquer outro. Do ponto de vista dos grande ciclos políticos, esta vitória inesperada, regida, como já se disse, pela Síndroma de Estocolmo, corresponderia a uma inversão das alternâncias, as quais, desde que Aníbal de Boliqueime andou a arruinar, como primeiro ministro, o país, regeram as substituições, pela fuga, políticas. Do ponto de vista de um certo justicialismo, corresponderia a tornar pagador o mesmo consumidor, ou seja, corresponsabilizar pelo estado de ruína a que conduziram o país os cultores de uma política desastrosa. Os restantes cenários começam a tornar-se menos prováveis, mas igualmente justos, já que arrastariam para o beco sem saída da falta de horizontes políticos os galambistas do poder pelo poder, com "livres" e quejandos a reboque. O Marinho Pinto é mais sofisticado, e já anunciou estar recetivo a todas as coligações. O Bloco de Esquerda, depois da sua emasculação, sonha com tornar-se num partido do croché, restando que o Partido Comunista, para muitos, algures no fim do ciclo das ilusões, e no fim do ciclo das desilusões, poderá ter a sua derradeira prova, que é a de o empurrar para aquele célebre cenário em que quem sempre se recusou a alianças se visse na posição de finalmente ser fiel da balança, e dar o empurrãozinho, à justa, a quem precisa, PS ou PSD. Creio que a Câmara de Loures é um exemplo dessa perversidade, mas Estaline, tal como Saramago, certamente teriam uma justificação para tal anomalia. Ao contrário deles, eu, como intelectual, não tenho nem quero ter.

Longo é o texto, e inconclusiva a situação. Politicamente, o cenário é desinteressante, mas não são desinteressantes as conclusões. O que se deseja é, evidentemente, uma segunda feira extremamente difícil para Aníbal, o Carrasco de Portugal. Veremos se a iliteracia de quem vota a tal chega.




(Quarteto do, olha, pá, tanto me faz, mal por mal, já lá está o que não presta, no "Arrebenta-SOL", no "Democracia em Portugal", no "Klandestino" e no "The Braganza Mothers"

segunda-feira, 21 de setembro de 2015

Setembro de 2015: entre bárbaros e breiviks, a Europa, em guerra, vai syrizando os seus estertores






Imagem do Kaos




Setembro descobriu uma Europa totalmente pavlovizada. A Europa pavlovizada, que, afinal, não é uma descoberta de setembro, mas um estado endémico, no qual as estruturas anquilosadas salivam com dinheiro, sempre que soa a sineta do risco. Aparentemente, num mundo balofo, onde os grandes sobressaltos não passavam, em França e Bélgica, de manifestações de desperdício da batata e do tomate, onde logo uma gaja, com ar de tábua de engomar, passava um cheque, daqueles acabados em "liões", e a coisa imediatamente transitava para o orçamento seguinte.
Todavia, pela própria essência dos processos pavlovianos, todas as longas sessões de salivação ganham autonomia, e quando os sistemas, como o europeu, entram na sua fase barroca, a salivação torna-se automática e carece de estímulo.


Sendo a saliva metafórica, a verdade é que responder aos "migrantes" com cifrões é equivalente à rábula da Maria Antonieta Joana Joesefa com os brioches: mais tarde ou mais cedo, um curto circuito lógico acabará por guilhotinar a coisa, e a fome estender-se-á a ambos os campos, e começa aqui a dissecação.

No primeiro tomo, há uma guerra, e todas as guerras acarretam destruição, colapso dos nichos quotidianos dos povos, e desestabilização das vizinhanças. Quando a Europa aceitou mais uma das benesses obamianas -- esse gajo passou dois mandatos a fazer só merda... -- as "primaveras" árabes, estava, na verdade, a aplaudir a queda dos ditadores árabes, que mantinham um manto diáfano de repressão sobre as águas de uma insuportabilidade profunda. O resultado foi o que se viu, e um brutal emergir da realidade.

No segundo tomo, há uma Europa que detesta essa mesma realidade e a prefere sucessivamente substituir por diretivas comunitárias e verbas de manutenção pantanal dos sistemas. Essa mesma Europa preferiu ver em Obama o tal messias preto, sem perceber que o Obama não só não era preto, como não era messias, e muito menos vinha para nos salvar. Foi a primeira vez que um americano recebeu um mandato expresso para destruir a Europa, e o Continente adorou, pediu mais, e adaptou a sua ruína à marcha salvífica em que acreditava. A estupidez não tem fim.

No terceiro tomo, há redes mundiais de todas as coisas e das coisas todas misturadas, já não organizada por pés descalços, mas por consulesas francesas, cavalheiros das mafias e do Futebol, e os culpados do costume, com os senhores das armas à cabeça. Todos tinham lido Homero, e perceberam que o cavalo de tróia já não era de pau, mas de traumas ideológicos. De aí a porem ovos de cuco em tudo o que era a moralidade vigente, foi um passo.

O quarto tomo chama-se ignorância, e remete, enquanto causa e causalidade, para o terceiro, sendo que a ignorância, hoje em dia, é uma coisa difusa, com manifestações confusas. Passa, no que a nós interessa, por uma certa crença em que a cultura do hamburguer, e isso é verdade, se sobrepõe a muitas das clivagens tradicionais. O jornalista, um dos rostos canónicos da ignorância, pouco viajado, ou muito viajado e muito cego-- nunca fui lá e nunca vi, ou até fui lá mas nada vi -- esqueceu, completamente, as diferenças de trato entre o homem da rua do aculturamento cristão e o cidadão da medina islâmica. Entre um mundo de preços fixos, e um jogo de disputa de valores, entre lágrimas, lamentos e um empolamento dramatizado dos atos de transação, que tanto faz o encanto dos viajantes desses mundos, o gajo de serviço das câmaras preferiu a colagem à literalidade, e transpõe o discurso dos deslocados em massa para um testemunho típico da primeira pessoa. A coisa está toda estudada nas "Mil e uma Noites", mas crê-se fazer parte da ignorância que essa designação, desde Galland e da sua tradução, dedicada à Marquise de O, dama da corte da Senhora de Borgonha, respeite a uma magnífica coletânea de relatos, ao gosto persa, e não a mais uma merda cinematográfica homónima. De aqui deriva que tudo o que o deslocado encena para as câmaras deva ser tomado à letra. Muito choram as crianças "migradas" (esta também é certeira para os fundamentalistas) ...

O quinto tomo encaixa neste misto do estranho isomorfismo cultivado entre o jornalista e a realidade. A escola balsemânica, ensinada em muitas das madrassas contemporâneas, prega o primado do relato. Sempre que a realidade está em desacordo com o relato, corrige-se a realidade. Quando a realidade está completamente em desacordo com a notícia, passa-se para a novidade seguinte.

O sexto tomo é, e não é, mais complexo já que deveria ser regido pelo estrito rigor dos balancetes de contas, mas acaba por se espraiar pelo difuso dos estados de alma, e aqui tenho de explicar: até ao verão, a Europa, ou as europas, se preferirem, agonizavam, entre os pobres, que estavam em crise, e os ricos que exerciam o seu sadismo da severidade. No dia em que as redes de traficantes a bombardearam com mísseis humanos com balas ao colo, começaram a salivar, e mostraram que o pavlovianismo, à falta de melhor, estava vivo, e recomendava-se. Imediatamente apareceu dinheiro para tudo, e lugar para todos. Creio que o Syriza irá adorar.

O sétimo tomo é um mera nota cínica, de rodapé, fundada no anterior, em que se pergunta como é que estados que estavam em pré bancarrota, e outros, que tanto falavam em contenção e austeridade, subitamente abrem, para os filhos dos outros, os cordões à bolsa, depois de os terem fechado para os seus.

O oitavo tomo é aquele em que os que apontaram a mira aos cavalos de tróia misturaram tudo o anterior, e decidiram fazer uma simples guerra de efeitos, baseada na surpresa e na publicidade doentia dos órgãos de intoxicação social. Pavlovianamente, onde sabem que o jornalista saliva com crianças, encheram de crianças as televisões; onde a Europa saliva com fundos de emergência, despejaram os seus excedentes populacionais.

O nono tomo também não seria possível sem os anteriores, e fundamenta-se numa espécie de crise da culpa, que geriu os estados europeus pós coloniais. Aqui, já se fez a mistura entre os desgraçados a quem destruíram, com a guerra, a pátria, e os que foram enganados com a miragem do eldorado. Curiosamente, vendeu-se bem a versão daqueles que pouco tinham e iam em busca dos lugares onde havia mais, Cinicamente, esse "mais haver" é igualmente proporcional, e, na teoria, dar me ia direito a invadir as mansões de East Upper Side, só por ter ouvido dizer que lá se vivia melhor, e haver uma lei imediata de justiça universal, que me permitia só olhar para cima, chegar, agarrar e instalar.

O décimo tomo é o de um problema ao qual ninguém decide atribuir um nome, já que a história dos "migrantes", se retirarmos os que realmente tiveram de fugir, e não fugir para lugares pré definidos, mas tão só para onde podiam fugir, é uma espécie de história de uma cruel agência de viagens, que vendesse lugares apenas de ida, sem se preocupar com assegurar lugares e reservas no hotel de chegada. O corolário disto tudo é uma surpreendente paródia, que nem ao Solnado lembraria, em que alguém imprevistamente despeja, às portas da Europa, e às horas estudadas dos noticiários, milhares de bilhetes de ida, para um hotel que não foi avisado. Creio que esta versão desagrada profundamente às madrassas balsemânicas, pelo que a escarrapacho já aqui.

Por fim, vem o lado kafkiano da história, em que, postos em curto circuito circular, as fronteiras europeias empurram, de umas para as outras, o longo carrocel da paródia em que se tornou o "eldorado" dos mísseis humanos. No limite, a coisa deveria ter sido estendida a Praga, e os "migrantes" passariam o resto da existência a circular em comboios de trajetórias infinitas e fechadas, enquanto, também kafkianas, se multiplicariam cada vez mais altas muralhas da china. Excluída a literatura, esta situação aponta para o despertar, na Europa, do pior da Europa, das defesas nacionalistas e ultranacionalistas, e a gangrena do Totalitarismo, eventualmente, a única coisa que une, num só fôlego, Obama, Putin, ISIS, Bilderberg e traficantes, diferentes rostos de uma mesma idade das trevas.

O epílogo disto tudo não será dignificante. Se formos otimistas e excluirmos o previsível banho de sangue, entre polícias, milícias, protestos e populares -- a Sérvia ainda não esmagou, por que está à espera de integrar o marasmo europeu -- as verdadeiras defesas da fronteira comum só agora se irão posicionar: com o dia 23, entra em campo o batalhão Outono, que, entre ameaços e arrepios, anuncia o General Inverno, sempre grande e incontornável vencedor, pelo dizimar, destas deslocações, se bem estarão lembrados os nossos antepassados, Napoleão e Adolph de Áustria.


(Quarteto da estação fria, no "Arrebenta-SOL", no "Democracia em Portugal", no "Klandestino" e em "The Braganza Mothers")

quarta-feira, 16 de setembro de 2015