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terça-feira, 9 de junho de 2015

Fátima, Futebol e Cristiano Ronaldo







Depois de Fátima, e com a sorte de o Fado já estar morto, tirando umas gajas que insistem em ganir, para arranjar uns cobres perdidos nos fundos do BES, do BPN e do BPP, vem a maior praga cultural do séc. XXI.

Evidentemente que estou a falar daquilo a que chamam "Futebol", como lhe poderiam chamar qualquer outra coisa. Na gíria técnica, jurídica, o nome correto é "branqueamento de capitais", ou "lavagem de dinheiro", sendo que esse branqueamento é apenas a epiderme de vários estratos dérmicos, cuja complexidade, por que o fenómeno apenas me interessa colateralmente, enquanto vertigem do nosso colapso civilizacional, desconheço na sua profundidade. Para ser ainda mais preciso, creio que os próprios envolvidos também já não estarão na posse completa das suas ramificações, ou, como corolário da Idade Cibernética, as sinapses tornaram-se automáticas, infinitas e auto replicativas.

Tenho a sorte de, desde pequenino, ter sido afastado do fenómeno, resultado de educação aristocrática e nietzschiana, muitas vezes resumida num imperativo, "não olhes, e sobretudo não toques". Nunca olhei, nem toquei, no Futebol, até o flagelo ter atingido uma tal enormidade que começou a colidir com a minha higiene quotidiana. Eu explico: é culturalmente inaceitável que, com o dinheiro dos meus impostos, eu ligue um plasma, para ser informado sobre o roteiro do Mundo e tenha de gramar, durante meias ou horas inteiras, com temas redundantes em redor de uma bola e uma quantidade de indivíduos de capacidades intelectuais limitadas, em estádio, bancada, ou poltrona de comentador, a impedirem-me de ter acesso à informação que pode ditar o meu conforto existencial imediato.

Eu sei que estariam a recomendar-me o clássico "zapping", mas o "zapping" torna-se inoperante, quanto os órgãos de intoxicação social criam um "cluster" e um verdadeiro "trust" que me impede de franquear a muralha de imbecilidade que é colocada à minha frente. Como diria o meu amigo Auretta, há muitas vezes mais felicidade em viajar para um canal remoto, do qual até desconhecemos a língua -- como uma televisão regional ucraniana ou chinesa -- do que estar a ser intoxicados com toda a poluição temática associada ao "Futebol".

A coisa é muito grave, e apenas faz lembrar os períodos radicais do Terror, na Revolução Francesa, em que os próprios dias da semana foram riscados das suas denominações tradicionais, para serem substituídos por neologismos republicanos, de barrete frígio, que hoje apenas interessam às gavetas da História. Passando à enumeração, na fase clássica, os epicentros da semana seriam a quarta e o domingo, passando a quarta a designar-se "derby" (ignoro completamente o sentido da palavra, mas aceito...) e o domingo, "final". Alicerçada a semana no derby e na final, teríamos o dia antes do derby, a antiga "terça", e o dia depois do "derby", a tradicional "quinta", ficando para o sábado a condição de "dia antes da final" e a designação de "day after", para a segunda. Se contar pelos dedos, está resolvida a questão de sábado, domingo, segunda, terça, quarta e quinta, apenas ficando em suspenso a sexta, o que se resolve rapidamente, já que tenho esse lado lógico e sucinto: "sexta" seria o dia antes da véspera da final, ou, recapitulando esta nova seman: dia antes da véspera da final, véspera da final, final, the day after, dia antes do derby, derby e dia depois do derby. As gordas  de bigode passariam a ir aviar robalos alimentados com farinha das vacas loucas nos mercados da final, e o day after, falho de pescado, ficaria para hamburgueres caseiros e esparguete, que esticados, duravam três dias, até à tesão do derby e a consequente porrada do marido. (Aqui fica a sugestão, de alguém que sente profundo asco pelo Futebol, mas gostaria de ver o seu nome, modéstia à parte, por que sou modesto, associado a um renomear dos dias da semana). Podem pôr o assunto à votação, que estou numa fase muito "cool", em que aceito tudo, desde que isso torne o maralhal feliz.

Os verdadeiros problemas desta coisa, e agora vou pôr a pose de estado à Roland Barthes, é que a merda do "Futebol" está a contaminar a sociedade de alto a baixo. Do ponto de vista geracional, o que seriam fenómenos colaterais, tornaram-se fonte de preocupação e de devir ainda mais gravoso. Nunca coisas que outrora seriam consideradas utilitárias, ou antros de periferia, se tornaram tão grande fonte de negócio, como os cabeleireiros e as inenarráveis casas de tatuagens. Levei algum tempo a perceber o problema, cujo foco pensei fosse a grangrena Teresa Guilherme, que gosta de os  ter preparados, de certa forma, e para consumo próprio, na zona típica dos 19/22 anos, até que a Laura "Bouche", com a sua infinita sapiência, e perante a minha curiosidade em ver tantas pernas mal feitas, de calções e obsessivamente depiladas, me disse "mas isso são eles todos a imitar a traveca!...", ao que eu tive de perguntar, "qual traveca?..." E ele: "parece que és parvo, a Ronalda, desde que a Ronalda depilou as pernas que todos os anormais dos subúrbios passaram a depilar também".

Excelente seria que a história terminasse aqui, mas a incerteza sexual heisenbergiana de Cristiano Ronaldo propaga-se, como um tsunami, sobre multidões de atrasados, que continuam a confundir sexo com procriação, e veem -- como diria a "Laura" -- um "macho", e o macho padrão, na... "traveca"... Os padrões sexuais e as suas sequelas são consabidos, e tornaram-se, de facto, num flagelo português contemporâneo.

Sei que falar de Teresa Guilherme e Ronalda a Barthes seria um pouco demais, já que, para lá do seu radicalismo e eficácia analítica, sempre subjazia um elevado classicismo, completamente incompatível com este fenómeno das barracas, típico da simbiose entre o CR7 e a Ninfo, que é descontroladamente barroco. Descontroladamente, ou não, ele tomou posse do imaginário dos corpos, e isto, sociológica e geracionalmente, é um cataclismo, pelas razões mais diversas, já que impôs um padrão monocórdico, a que teríamos de acrescentar o reflexo retardado das barbas, que já passaram de moda nas zonas civilizadas, mas aqui ainda continuam a recordar que as franjas da Linha de Sintra foram, e são, um dos principais focos de recrutamentos dos criminosos do ISIS/ISIL

Tudo isto junto já seria catastrófico, mas há sempre um patamar ainda inferior, já que o fenómeno da pernita raquítica rapada e do calçãozinho, remete para mais uma das intromissões do pensamento-ovário na esfera do Masculino, fazendo com que os rapazes, até cada vez mais tarde, deixem de ser encarados como jovens machos, e, através de uma desvirilização subliminar e compulsiva, continuem a ser os meninos das suas mamãs, com toda a náusea que isto possa provocar, se pensarmos nas sequelas do pensamento-cona da "mulher cougar" que assim finalmente reuniu os traumas da pulsão maternidade aos imperativos da pulsão da foda. Isto daria muito que escrever, e  por aqui fico, com a promessa de desenvolver, avassaladoramente, num outro dia.

Voltemos, pois, ao "Futebol", e lá me perdoarão, mas vou escrever mesmo Futebol, evitando as aspas, para poupar os dedos e o teclado. Creio que, para os incautos, nos quais não me incluo, o que recentemente aconteceu com a FIFA, mundialmente considerada um antro de criminosos, finalmente revelou o que todos o incautos já sabiam, que a FIFA era, mesmo, um antro de criminosos. Não por acaso, o pontapé de arranque veio da América, onde a modalidade não é central nas atividades sociais, e a corajosa Loretta Lynch afirmou que aquilo "era só o começo", e é só o começo, já que, como atrás disse, o branqueamento de capitais é só a epiderme do assunto, já que a fonte dos capitais a branquear não é una, nem indivisível, mas múltipla e polifónica. Não quereria ser repetitivo, mas por ali passa tudo, desde o tráfico da droga, dos corpos, das armas, da prostituição, das redes pedófilas (esta é para ti, Pinto da Costa...), do urânio, do plutónio e dos jogos de influência das diferentes sociedades secretas que minaram a Nova Ordem Mundial. Como em Roma, os objetos foram recolhidos na ralé, tatuados, com os corpos submetidos a técnicas de transformismo, e o ciclo imediatamente fechado, com os oligofrénicos em campo, em redor de uma encenação, que já não são combates de gladiadores, mas andarem a correr atrás de uma bola, coisa que os mamíferos, com a dinâmica assente no cerebelo, já faziam, há milhões de anos, desde os canídeos aos felinos. Mais não se fez do que darwinar a coisa, e estendê-la até Mem Martins, Amadora, Loures e Montijo, ou nos pólos ainda mais abaixo, de província, como Gondomar, Gaia ou Valongo.

Já um dia analisei o caráter epifânico da coisa, e, sobretudo, o seu poder de despoletarização dos potenciais conflitos sociais: por um lado, subverte, para sempre, a dialética marxista, já que separa os que dominaram dos dominados, antes impondo uma espécie de eucaristia e possibilidade de iluminação, traduzida na fórmula simples: se o CR7 veio das barracas e se transformou, ou foi transformado, no topo da base em que se tornou, por que é que eu, seu vizinho, neste enorme subúrbio mental em que transformaram a cultura urbana, não poderei ter a mesma sorte do que ele. Para os marxistas, nos quais não me incluo, o rumo da História, determinístico, passa, assim, com o empurrão das guilhermes, dos mourinhos, do "Trio de Ataque" e sucatas afins, a tornar-se num fenómeno estocástico do "pode também acontecer-me a mim".

Culturalmente, como podem imaginar, isto é um cataclismo histórico, só comparável com a estagnação trazida ao Mundo Árabe pela prevalência do imobilismo sunita sobre o ativismo xiita, cujos horrores e sequelas diariamente contemplamos, e que igualmente nos estão a gangrenar a Civilização.

O resto são trocos, já que o jogo se faz agora a céu aberto: um anormal, Jesus, que mostra que o dinheiro não tem cheiro, e que um qualquer anormal pode alcançar um qualquer valor; despedimentos "com justa causa", para que o dinheiro sujo de Angola e da Guiné Equatorial circule em Alvalade; a analfabeta Dolores Aveiro, que traz malas de dinheiro de Madrid, como o João Perna trazia e levava para Paris; que Bilderberg até no Futebol impera, com o seu omnipresente Emir do Qatar; que o narcisismo da barraca substituiu os paradigmas herdados de Fídias e Praxíteles, e que o Futebol é o mesmo campo de explosão que fez com que meia Constantinopla fosse destruída, durante a revolução de Nike. Assim como o fez no séc. VI, o poderá fazer no séc. XXI, e é tudo uma questão de tempo e oportunidade. Creio que há muita gente que se interrogava sobre como seria o Final dos Tempos: creio que os dias da contemporaneidade lhes vieram facilitar essa natural curiosidade.



(Quarteto do ataque, no "Arrebenta-SOL", no "Democracia em Portugal", no "Klandestino" e em "The Braganza Mothers")

quarta-feira, 13 de maio de 2015

A Parábola dos Rastejantes de Fátima, como Quinta Essência do incontornável Egoísmo Lusitano






Fátima insere-se no meu profundo desprezo, e não frequência, dos Três Éfes. Devo ser dos raros portugueses que não foram, nem nunca irão, à Cova da Iria, nunca porão os cotos num estádio de futebol, ou irão ouvir Fado, exceto a Amália, que cantava até que a garganta lhe doesse... Bom, vá lá..., até vou ser generoso, e tiro a Amália deste meu desprezo absoluto pelos pilares da insignificância nacional, por que acho que a mulher tinha, e tem, algo na voz de imortal, só é pena já estar morta.

Contudo, não frequentar os espaços da menoridade nacional não implica que não tenha opinião sobre eles, desde o gentílico ao metafísico: ter uma mãe chamada Maria do Amparo, Maria das Dores, Maria do Rosário, Maria de Fátima ou Maria de Jesus, entre outros, é toda uma epopeia negativa, e condicionante de um percurso existencial. Eu, que sou todo das genéticas, e acho que um defeito num terminal cromossomático de há 5 000 000 de anos atrás pode ter condicionado, e condicionou mesmo, um gestor das empresas falidas do terminal lusitano, mais acho que, um pouco à Lamarck, isso de ter certos nomes pela família determinantemente condiciona os nossos horizontes de sucesso. Com mor evidência, nem todos se podem chamar de Valois, mas Perneta, Vaicomdeus, ou Vaisemdeus é uma coisa que marca, e empurra a vida para um limbo entre o errante e o errado, e aqui fica o convite à reflexão.

Como a noite é santa, todavia, vamos passar adiante, e pensar um pouco sobre aquele fenómeno a que é associada uma carga posicionada entre o místico, o fervor e a comunhão. Na realidade, essas coisas estão todas mal descritas, pecam por vícios de forma, e só não encaixam nos mitos urbanos por que apenas se inserem no patamar dos mitos das aldeias de onde nunca logramos (novo acordo ortográfico) passar. Analisado enquanto fenómeno étnico, fratura sociológica ou epifenómeno da iliteracia, o Rastejante de Fátima, entrada que Diderot e D'Alembert dificilmente poderiam colocar na Encyclopédie, mas sobre o qual o destino, e a inspiração, me fadaram escrever o texto de hoje é uma categoria com algumas singularidades, por acaso, todas elas negativas.

A máquina publicitária das televisões, jornais e afins, que situam o evento anual em patamares entre os fototropismos e o puro escândalo está, como quase tudo nesta contemporaneidade, a que passei um atestado sumário de imbecilidade, nos antípodas da minha reflexão: enquanto pagão, não posso entender o ateísmo que subjaz ao rastejamento de Fátima; enquanto livre pensador, não posso compreender a publicidade dada a manifestações que deveriam ser tratadas como subprodutos de um povo profunda, e atavicamente, iletrado. Cientificamente falando, a cobertura de Fátima são meros gastos de luz, de tempo de trabalho e, numa ótica marxista, ou neoliberal, o que vem a dar no mesmo, puros tempos de quebra de produtividade, em cujas "gorduras" se deveria imediatamente cortar.

A esta altura já estarão a perguntar o que é que este gajo quer destruir hoje, com o pretexto de vir falar de Fátima, e eu explico já, posto que a morte de uns quantos peregrinos, o que lamento, na generalidade, por ter tido como protagonista um gajo bastante mais interessante do que o impotente Cristiano Ronaldo, o que, na especialidade, lamento, me levou a pôr em questão todo o problema, e a remetê-lo para os níveis de reflexão de Anselmo de Cantuária, um aristocrata que, há milénios, conseguiu pôr gerações a sonhar e a meditar. Aquilo que eu chamaria o Argumento Anti Ontológico enuncia-se assim: se aqueles que vão a Fátima procuram uma consubstanciação com a Senhora, ao lá chegarem, lá estão mesmo, assim como a Senhora, ao tê-los (novo acordo ortográfico) ali chegados, pela própria natureza da consubstanciação, com eles passa a partilhar a essência, miraculosamente tornada em presença, o que é uma prova evidente da sua existência (dela, a Senhora).

Esta é a versão boazinha, posto que, tal como no Concílio de Calcedónia (451), se nem todos os peregrinos que iam a caminho de Fátima lá chegaram, a consubstanciação ficou, ainda que em partes limitadas e remotas, comprometida, sendo que a Aparição e a Procissão do Adeus, será, desta vez, processada em redor de um ídolo ferido de incompletude, pela morte das partes humanas que com ela buscavam a comunhão espiritual e a partilha das evidências em presença, e ficaram atropelados pelo caminho. Ontologicamente, a Santa apenas poderia ser considerada completa se todos os que buscavam o acolhimento no seu seio lograssem ter alcançado a sede mundana da sua veneração terrestre. Esperemos que a parte que lhe falte não seja a virgindade, o que destruiria 2000 anos de empenhados esforços, e é esta a versão que nos deixa em dor e dúvida, penando para que sobre nós o anátema se não abata.

Depois da versão boazinha e de a do Limbo, vem a Má, já mais Portuguesa, e que motiva este meu texto: se a Santa realmente existisse, nunca permitiria que pelo caminho morressem aqueles que iam em sua demanda, qual doméstica Taprobana, e isto seria uma prova da inexistência da Senhora. Contudo, como a versão má, de profundis, ainda clama pela solução péssima, fui eu que fiquei a pensar no que estariam a pensar os rastejantes de Fátima sobre a inoperância da Santa, num ato simples como ter permitido que aqueles que iam em sua busca, de peito feito e coração aberto, acabassem esmagados numa berma da estrada. Não sei o que pensaram, mas prosseguiram, pelo que, depois da versão péssima, achei que nos estavamos (novo acordo ortográfico) a abalançar a um patamar ainda inferior, o da típica versão portuguesa, que eu passo a enunciar: sendo o fenómeno de Fátima um típico exibicionismo de matilha, que, à cabeça, segrega os que vão dos que não vão, ou mais pragmaticamente falando, os que podem ir dos que não podem ir, ou, citando a última palavra do último verso do Canto X de "Os Lusíadas", ali estamos no puro exercício da "enveja" (ortografia do séc. XVI, posteriormente convertida em "inveja", por uso e construção).

Torna-se hermeneuticamente complexo -- agora que, com a descoberta de que o cabrão do Heidegger era mesmo nazi e antisemita, a hermenêutica deixou de ser monopolar -- de que o rastejar de Fátima -- e vamos passar da versão portuguesa para o meu epitáfio da situação, substancialmente ainda pior -- de que o rastejar de Fátima é mais uma manifestação de egoísmo nacional, ou daquela célebre frase do José Gil, de que o português gosta, não de liberdade, mas, sim, de igualdade, ou trocado por miúdos, o Português realmente gosta de eventos em que possa exibir a sua situação de desigualdade, perante os pares. Isto, pela minha ótica (novo acordo ortográfico) resulta numa leitura fria e literal: de entre a imensa multidão de Rastejantes de Fátima, já que só morreram cinco, que até, se calhar, eram peregrinos e não rastejantes, desde que os restantes rastejantes não tenham morrido, a coisa até se safa, muito à rasquinha, mas safa, já que quem morreu foram eles, não nós (sendo que aqui o "nós" é um plural desses rastejantes, que, obviamente, não me inclui).

Topologicamente (acordo ortográfico dos anos quarenta) estendido, o raciocínio vai mais longe, já que separa os que lá conseguiram mesmo chegar dos que nunca chegarão, e, uma vez chegados, ainda exercerá diferenças entre os que se conseguem aguentar mais dias daqueles que se não conseguem aguentar todos, e serão muitos, o que alimentará a "enveja", e fará com que os iguais se sintam mais iguais e silenciosamente sintam pelos outros -- paciência -- a pena de que não tenham conseguido ser iguais..., à justinha.

Conclui-se que os que lá estão, em momento nenhum das suas preces conseguem sair do seu atávico solipsismo e onanismo, mas apenas estão ali para pedir por si, e os outros... que se lixem.

Este ano, parece que o grande mote é a Senhora da Apodrecida. Mas não se enganem, quando, no final, virem um  mar de gente a acenar lencinhos, não se trata de uma massa unida, mas de uma multidão de egoístas que lá foi fruir o seu milagrezinho pessoal, e, como diriam as estatísticas, lá conseguiu, ou... não conseguiu. A Claque do País da "Enveja", em bloco.

Dada a minha formação científica, ainda me permito uma derradeira versão, porventura mais motivadora e adrenalizante: o encontro entre os pacatos peregrinos de Mortágua e Levani Moseshvili, o alucinado, cheio de álcool e de drogas, que os atropelou, é algo equivalente à colisão que, milhões de anos atrás, deve ter ocorrido entre os pequenos répteis, sobreviventes do extermínio dos sáurios, e a nova classe dos mamíferos, sendo que os segundos, muito alafontaineanamente, devem ter pensado,"o que fazem estes gajos aqui?...", e o primeiros, "que gajos serão agora estes"?...

Objetivando (novo acordo ortográfico) a coisa, o acidente de Mortágua deve ser relido como uma colisão entre dois paradigmas, que, cronologicamente, deveriam estar feridos de disjunção, já que eram o equivalente a uma impossível máquina do tempo: uma era de peregrinos é incompatível com um mundo de aceleras dopados com químicos, e vice versa, embora nós saibamos que, numa perspetiva (novo acordo ortográfico)  cobordista, muito à René Thom, essas coisas acabam sempre por se entropizar, e, tal qual os maiores lagartos acabaram a comer os pequenos mamíferos, e os grandes mamários a comer os pequenos répteis, também um dia haverá rastejantes aceleras, que quererão chegar primeiro a Fátima, nem que para isso tenham de atropelar uns quantos georgianos embriagados que estejam a dançar a dança do ventre na berma da estrada.

Eu sei que este texto é mau, mas, acreditem, sobretudo os crentes, que é uma singela homenagem ao ignóbil evento do 13 de maio, uma coisa indigna de uma sociedade civilizada, e incompatível com um mundo religioso, já que a religiosidade do Mundo foi definitivamente enterrada por um dos maiores facínoras do século XX, Karol Woytila, que, numa cega competição com IURDs, Igrejas de Cientiologia e outras merdas afins, resolveu transformar o Grande Dogma Cristão numa manifestação de massas embrutecidas e alucinadas, em redor de cadáveres de pastores iletrados. A coisa era barata, dava milhões, não pagava impostos, e destruiu, ou conseguiu destruir, em duas curtas décadas, a fronteira intelectual (aqui leva "c", por que o "c" se pronuncia - novo acordo ortográfico) do Dogma, remetendo-a para o chiqueiro das opiniões e dos fundamentalismos, que tão caros estamos agora a pagar. Creio ter sido este o grande milagre de João Paulo II, atirar-nos para os valores e práticas da pior Idade Média.

Para acabar com um pouco de esperança, percebo que se rasteje até Fátima, para venerar uma Santa com Cara de Saloia, que incarna aquelas moçoilas de 13 anos, na altura certa em que o padrasto as estreia, antes de se tornarem nos hipopótamos de hipermercado, que à frente arrastam a tralha dentro de um carrinho de bebé, com o seu ídolo narcísico, teresaguilhermado, ao lado. Brevemente, creio, com a crise que aí anda, eu próprio, que afirmei, no início, nunca ir a Fátima, lá terei de fazer o esforço, por extinção dos genuínos, e já me vejo, nos beirais de terras que nem sei que existem, com a Aura Miguel, um pouco mais à frente -- dizem que ela vai a Fátima, por que, todas as noites, há a alma de um papa defunto que incarna em súcubo e lhe possui as partes ressequidas, pelo que, quanto mais noites demorar pelo caminho, mais vezes o palmier será recheado com beato creme... Pela minha parte, irei com uma caçadeira, e, com o jeito que tenho para o tiro, em vez de decapitar a Santa com Cara de Saloia com um só tiro certeiro, acabarei por a desfazer, com uma série de rajadas míopes e mal amanhadas.

P.S. -Deverão estar a interrogar-se por que, de quando em vez, referi, em nota, o Novo Acordo Ortográfico: por uma razão simples, a de que a Língua é construída pelos escritores, pelo que, utilizando eu o Acordo, desde 2009, bem se podem espremer por o tentarem impugnar os que nisso andam. A minha decisão é a de que, mesmo revogado, o continuarei a utilizar sempre, pelo que, de aqui a 100 anos, o Acordo Ortográfico se impôs mesmo, pela única mão com autoridade para o fazer, a do Escritor. Que a Santa esteja convosco e vos dê o vosso pedido egoísta, que vos arrastou até à Cova da Iria :-)




(Quarteto do a Trêuze de Maio na Cova d'Iria, no "Arrebenta-SOL", no "Democracia em Portugal", no "Klandestino" e em "The Braganza Mothers")

sábado, 17 de janeiro de 2015

O mono de Cristiano Ronaldo, como mais um dos saramagos da agonia do nosso descontentamento







Pequeno horror deprimente de Ricardo Veloza



A coisa é histórica, e, logo, cíclica: todos os fins de época se caracterizam pela epidemia das efemérides, ou, mais precisamente, quando as civilizações se encontram a chegar ao seu terminus, se afundam na necessidade de fixar a agonia de cada um dos seus passos finais. Na verdade, tal como no jogo da Vida e da Morte, os impérios ascendentes não têm sequer tempo para contemplar os seus rastos: a caminho do Hyphasis, Alexandre -- Eskandar - e Maqduni -- limitava-se a semear, como pegadas, Alexandrias, e nunca olhou para trás, nem quando deixou para sempre Niceia Bucéfala, e entrou para a imortal estrada dos mitos. No seu final, estes mesmos impérios limitam-se a contar migalhas e fundir os últimos bronzes das poeiras que a História rapidamente devorará.

A frase nada tem de novo, quando se diz que a Europa, ou, sobretudo, o Ocidente, estão profundamente doentes. Os episódios "charlies", uma espécie de inventona de 11 de setembro-plus, permitiu enterrar os últimos resquícios de um modo transgressivo de estar na sociedade, e cada quintal se limitará, agora, a fazer as exéquias locais, de acordo com o seu sotaque.  Digamos que foi um atentado conveniente, já que conveio a toda a gente, e até permitiu que fingissem estar todos de luto, depois do alívio de se desembaraçarem de um parceiro inconveniente. Envergonhadito, o país culturalmente miserável, que é Portugal, também teve de dar infinitas voltas à sua minúscula cabeça, para finalmente descobrir que nunca poderia haver cá nenhum atentado "Charlie Hebdo", pela simples razão de que não tínhamos nada com escala e paralelo... Ajustada a lupa, apenas o venerável Vilhena, com a sua memorável "Gaiola Aberta" lá ficou, muito para trás, e só o Kaos, cujo trabalho os mesmos filhos da puta, que agora são capazes de andar de "Je suis Charlie" nas unhas, sabotaram, embora o Kaos seja superior em nível, e já tenha entrado para a História do séc. XXI, numa cronologia apenas comparável com a do Bordalo.

Em Portugal, desde os tempos do Vacão, para não recuar um pouco mais, os males chamam-se, e arrastam-se, com os nomes de Fátima, Futebol e Fado. Ao Fado já ninguém liga, posto que as discotecas e as drogas sintéticas se encarregaram de substituir esse tripé. Há uns lugares de arqueologia, onde os estrangeiros vão dar uma rapidinha, para dizerem que ouviram, e os sucedâneos, como o tal Peixe Panga, envenenado por todo o lixo do Mekong, que há quem coma, nas embalagens do extraordinário fake Marisa -- a tal que odiava Fado -- e da Katia Guerreiro, entre outros monos, alimentados, para os basbaques, a hélio e hidrogénio.

De Fátima não vou falar, embora nesta época de efemérides, o idolatrismo que lhe subjaz tenha sido transposto para a adoração dos cus de bode que infestaram os estádios. E tal como nunca fui a Fátima, também não percebo nada de Futebol, pelo que estou plenamente à vontade para falar de Cristiano Ronaldo, que muitos confundem com Desporto, tal como a Marisa é confundida com o Fado e o Saramago com a Literatura.

Tudo isto já estava previsto em Bourdieu, e no seu capital simbólico, onde é o Poder e só o Poder que classifica os seus símbolos de acordo com a total inexistência de um código de valores, legitimando e reproduzindo uma estrutura social completamente gangrenada. A impossibilidade de crítica permite assim uma permanente parábola de cegos, e todas as suas consequências são imediatamente epigrafadas por outros dois títulos célebres, que não precisam de mais do que serem enunciados para exprimirem tudo o que hoje se passa, a "Era do Vazio", de Lipovetsky, e "A Ascensão da Insignificância", de Castoriadis.

Nesta sequência, entramos diretamente em Cristiano Ronaldo, uma fraude absoluta do nosso pequeno quintal, que se tornou imprevistamente indispensável na retórica e na narrativa dos espaços coletivos mais vastos, da intoxicação dos valores mundiais e suas redes de branqueamento de capitais.

Basicamente, Cristiano Ronaldo, um subproduto dos órgãos de propaganda e da indústria de reconstrução plástica, tem, dentro da era do vazio, e como exemplo da ascensão da insignificância, uma plataforma à la bourdieu, já que que permite, na trajetória de colisão de uma geração completamente perdida, contrabalançar a lepra que se junta ao "Estado" Islâmico, por total ausência de futuro e esperanças, surgindo, como exemplo e farol regulador, de como se pode vir do nada e chegar à posse do quase tudo, através da lei do menor esforço. Do ponto de vista teosófico, Cristiano Ronaldo está no mesmo patamar dos milagres, já que ocorre naquele mesmo eixo sequencial, que, não cumprindo as leis da causalidade, permite que uma causa estranha desemboque numa consequência imprevista. No caso dele, até já teve direito a várias: uma universidade canadiana, na Colúmbia Britânica, onde se ministram cursos  (!) sobre o vazio do "fenómeno" social -- de o maior jogador do século -- e, proximamente, de todos os tempos (!), sendo que, quando se chegar a Marte, o padrão dos descobrimentos também terá as suas iniciais, CR7, como minúsculas dedadas da nossa cegueira, com uma pequena epígrafe gravada em platina ou paládio: "dorme como um marine, come como um menino e treina como um bailarino", ou vice versa...

Probabilisticamente -- mas o que é que uma sociedade doente, como a nossa, percebe de probabilidades?... -- a emergência de um ronaldo é de um para 10 000 000, o que, curiosamente, não deixa que não cumpra, à justinha, o seu papel epifânico e messiânico. Creio que, durante uma década, tal como a hipótese remota de ganhar o euromilhões, serviu para manter entretidos os horizontes suburbanos. Aparentemente, durante um dos maiores desastres do Ocidente, o Obamismo, houve uma súbita rotura de paradigma, e esta mesma sociedade, incapaz, como Roma final, de produzir tecido urbano, começou a ver os seus próprios suburbanos desacreditarem dessa permanente e ansiada expectância do milagre, para partirem, em massa, para realizar a violência  e a vingança, nas terras de ninguém sírias. Acontece que, mais uma vez ciclicamente, como a História, os atuais romanos, fugidos dos seus núcleos urbanos, procurando a calma das periferias, descobriram que era justamente aí que também já estavam instalados os mesmos bárbaros de que fugiam.

Os valores da carnificina dificilmente poderão ser contabilizados, pois só agora começou a matança. Para quem goste de nomes, tem por cá a coisa triste em que se tornou a Linha de Sintra, assim como para mim, frequentador da Francofonia, sei quanto, e há quanto, me são penosas aquelas fronteiras invisíveis dos subúrbios de Paris, ou o horror da Gare du Midi, de onde subitamente caímos de Bruxelas no Magreb. Tudo o que agora está a acontecer não era senão uma questão de tempo.

Para mim, o cenário está traçado. Todavia, para os argumentistas desta gigantesca fraude contemporânea, ainda resta a fuga para a frente, através da necessidade de imortalizar um valor vazio, e é aqui que entra a "estátua" de Cristiano Ronaldo, que, pela sua irrelevância e patamar anestético, não chega a poder integrar o escalão da Escultura. Digamos que é uma -- desculpem o galicismo... -- encombrante piéce de mobiliário urbano, exclusivamente ali posta para perturbar o horizonte, e criar uma massa volúmica, distorçora dos pontos de fuga da paisagem. À cotação do cobre e estanho, aquele lixo, de 800 quilos, poderia andar pelos (5660 + $19325US) x 800. Não me apetece fazer contas, mas façam-nas: pode ser que dê ideias aos ladrões de metais, e nos livre daquele pavoroso objeto.

Num olhar mais demorado, vemos o que parece ser um corpo masculino, com uma cara que podia ser qualquer subalimentado de Rabo de Peixe, menos o tal de Ronaldo, estando o vulto enrolado numa espécie de lençóis com pregas. Diz-se que uma das pregas foi feita para fazer babar certos hemisférios do cerebelo. Em mim, não tem qualquer efeito, posto odiar Futebol, mas compreender perfeitamente que seja uma mediação para os espectadores se desviarem da bola e se entregarem ao seu homoerotismo onanista. Fazem bem: enquanto se masturbam mentalmente, não estão a agredir a sua boca da servidão, nem a violar os filhos menores.

Não queria, todavia, terminar este texto de forma pessimista, e deixo aqui um pequeno louvor àquela... coisa, que só podia ser um fenómeno do Entroncamento, ou de Gaia, o subúrbio sul da segunda aldeia de Portugal, cuja mundividência, coartada pelos seus arredores, apenas poderia ter um horizonte capaz de soçobrar em tal mediocridade. Na ótica de Parsons, para uma massa bruta, o critério primordial de validação da obra de arte é o realismo. Na verdade, o horror de Velasco não se parece com Ronaldo, mas tão só com a fraude Ronaldo, logo, deve ser profundamente realista. Não presta, então, deverá ser excelente. É, objetivamente, uma merda, logo, está adequada à função representativa de quem pretende representar.

Estão a perguntar-me onde entra aqui o Saramago: já entrou, subliminarmente, como em La Cantatrice Chauve, de Ionesco: toda esta miséria se penteia toda sempre da mesma maneira, mas até não faz mal, por que, como é usual, também nós todos estamos felizes, anestesiados, e de parabéns, na posse de uma coisa inigualável, na infinitamente longa deriva do Mundo.




(Quarteto à la charlie, no "Arrebenta-SOL", no "Democracia em Portugal", no "Klandestino" e em "The Braganza Mothers")