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sábado, 17 de janeiro de 2015

O mono de Cristiano Ronaldo, como mais um dos saramagos da agonia do nosso descontentamento







Pequeno horror deprimente de Ricardo Veloza



A coisa é histórica, e, logo, cíclica: todos os fins de época se caracterizam pela epidemia das efemérides, ou, mais precisamente, quando as civilizações se encontram a chegar ao seu terminus, se afundam na necessidade de fixar a agonia de cada um dos seus passos finais. Na verdade, tal como no jogo da Vida e da Morte, os impérios ascendentes não têm sequer tempo para contemplar os seus rastos: a caminho do Hyphasis, Alexandre -- Eskandar - e Maqduni -- limitava-se a semear, como pegadas, Alexandrias, e nunca olhou para trás, nem quando deixou para sempre Niceia Bucéfala, e entrou para a imortal estrada dos mitos. No seu final, estes mesmos impérios limitam-se a contar migalhas e fundir os últimos bronzes das poeiras que a História rapidamente devorará.

A frase nada tem de novo, quando se diz que a Europa, ou, sobretudo, o Ocidente, estão profundamente doentes. Os episódios "charlies", uma espécie de inventona de 11 de setembro-plus, permitiu enterrar os últimos resquícios de um modo transgressivo de estar na sociedade, e cada quintal se limitará, agora, a fazer as exéquias locais, de acordo com o seu sotaque.  Digamos que foi um atentado conveniente, já que conveio a toda a gente, e até permitiu que fingissem estar todos de luto, depois do alívio de se desembaraçarem de um parceiro inconveniente. Envergonhadito, o país culturalmente miserável, que é Portugal, também teve de dar infinitas voltas à sua minúscula cabeça, para finalmente descobrir que nunca poderia haver cá nenhum atentado "Charlie Hebdo", pela simples razão de que não tínhamos nada com escala e paralelo... Ajustada a lupa, apenas o venerável Vilhena, com a sua memorável "Gaiola Aberta" lá ficou, muito para trás, e só o Kaos, cujo trabalho os mesmos filhos da puta, que agora são capazes de andar de "Je suis Charlie" nas unhas, sabotaram, embora o Kaos seja superior em nível, e já tenha entrado para a História do séc. XXI, numa cronologia apenas comparável com a do Bordalo.

Em Portugal, desde os tempos do Vacão, para não recuar um pouco mais, os males chamam-se, e arrastam-se, com os nomes de Fátima, Futebol e Fado. Ao Fado já ninguém liga, posto que as discotecas e as drogas sintéticas se encarregaram de substituir esse tripé. Há uns lugares de arqueologia, onde os estrangeiros vão dar uma rapidinha, para dizerem que ouviram, e os sucedâneos, como o tal Peixe Panga, envenenado por todo o lixo do Mekong, que há quem coma, nas embalagens do extraordinário fake Marisa -- a tal que odiava Fado -- e da Katia Guerreiro, entre outros monos, alimentados, para os basbaques, a hélio e hidrogénio.

De Fátima não vou falar, embora nesta época de efemérides, o idolatrismo que lhe subjaz tenha sido transposto para a adoração dos cus de bode que infestaram os estádios. E tal como nunca fui a Fátima, também não percebo nada de Futebol, pelo que estou plenamente à vontade para falar de Cristiano Ronaldo, que muitos confundem com Desporto, tal como a Marisa é confundida com o Fado e o Saramago com a Literatura.

Tudo isto já estava previsto em Bourdieu, e no seu capital simbólico, onde é o Poder e só o Poder que classifica os seus símbolos de acordo com a total inexistência de um código de valores, legitimando e reproduzindo uma estrutura social completamente gangrenada. A impossibilidade de crítica permite assim uma permanente parábola de cegos, e todas as suas consequências são imediatamente epigrafadas por outros dois títulos célebres, que não precisam de mais do que serem enunciados para exprimirem tudo o que hoje se passa, a "Era do Vazio", de Lipovetsky, e "A Ascensão da Insignificância", de Castoriadis.

Nesta sequência, entramos diretamente em Cristiano Ronaldo, uma fraude absoluta do nosso pequeno quintal, que se tornou imprevistamente indispensável na retórica e na narrativa dos espaços coletivos mais vastos, da intoxicação dos valores mundiais e suas redes de branqueamento de capitais.

Basicamente, Cristiano Ronaldo, um subproduto dos órgãos de propaganda e da indústria de reconstrução plástica, tem, dentro da era do vazio, e como exemplo da ascensão da insignificância, uma plataforma à la bourdieu, já que que permite, na trajetória de colisão de uma geração completamente perdida, contrabalançar a lepra que se junta ao "Estado" Islâmico, por total ausência de futuro e esperanças, surgindo, como exemplo e farol regulador, de como se pode vir do nada e chegar à posse do quase tudo, através da lei do menor esforço. Do ponto de vista teosófico, Cristiano Ronaldo está no mesmo patamar dos milagres, já que ocorre naquele mesmo eixo sequencial, que, não cumprindo as leis da causalidade, permite que uma causa estranha desemboque numa consequência imprevista. No caso dele, até já teve direito a várias: uma universidade canadiana, na Colúmbia Britânica, onde se ministram cursos  (!) sobre o vazio do "fenómeno" social -- de o maior jogador do século -- e, proximamente, de todos os tempos (!), sendo que, quando se chegar a Marte, o padrão dos descobrimentos também terá as suas iniciais, CR7, como minúsculas dedadas da nossa cegueira, com uma pequena epígrafe gravada em platina ou paládio: "dorme como um marine, come como um menino e treina como um bailarino", ou vice versa...

Probabilisticamente -- mas o que é que uma sociedade doente, como a nossa, percebe de probabilidades?... -- a emergência de um ronaldo é de um para 10 000 000, o que, curiosamente, não deixa que não cumpra, à justinha, o seu papel epifânico e messiânico. Creio que, durante uma década, tal como a hipótese remota de ganhar o euromilhões, serviu para manter entretidos os horizontes suburbanos. Aparentemente, durante um dos maiores desastres do Ocidente, o Obamismo, houve uma súbita rotura de paradigma, e esta mesma sociedade, incapaz, como Roma final, de produzir tecido urbano, começou a ver os seus próprios suburbanos desacreditarem dessa permanente e ansiada expectância do milagre, para partirem, em massa, para realizar a violência  e a vingança, nas terras de ninguém sírias. Acontece que, mais uma vez ciclicamente, como a História, os atuais romanos, fugidos dos seus núcleos urbanos, procurando a calma das periferias, descobriram que era justamente aí que também já estavam instalados os mesmos bárbaros de que fugiam.

Os valores da carnificina dificilmente poderão ser contabilizados, pois só agora começou a matança. Para quem goste de nomes, tem por cá a coisa triste em que se tornou a Linha de Sintra, assim como para mim, frequentador da Francofonia, sei quanto, e há quanto, me são penosas aquelas fronteiras invisíveis dos subúrbios de Paris, ou o horror da Gare du Midi, de onde subitamente caímos de Bruxelas no Magreb. Tudo o que agora está a acontecer não era senão uma questão de tempo.

Para mim, o cenário está traçado. Todavia, para os argumentistas desta gigantesca fraude contemporânea, ainda resta a fuga para a frente, através da necessidade de imortalizar um valor vazio, e é aqui que entra a "estátua" de Cristiano Ronaldo, que, pela sua irrelevância e patamar anestético, não chega a poder integrar o escalão da Escultura. Digamos que é uma -- desculpem o galicismo... -- encombrante piéce de mobiliário urbano, exclusivamente ali posta para perturbar o horizonte, e criar uma massa volúmica, distorçora dos pontos de fuga da paisagem. À cotação do cobre e estanho, aquele lixo, de 800 quilos, poderia andar pelos (5660 + $19325US) x 800. Não me apetece fazer contas, mas façam-nas: pode ser que dê ideias aos ladrões de metais, e nos livre daquele pavoroso objeto.

Num olhar mais demorado, vemos o que parece ser um corpo masculino, com uma cara que podia ser qualquer subalimentado de Rabo de Peixe, menos o tal de Ronaldo, estando o vulto enrolado numa espécie de lençóis com pregas. Diz-se que uma das pregas foi feita para fazer babar certos hemisférios do cerebelo. Em mim, não tem qualquer efeito, posto odiar Futebol, mas compreender perfeitamente que seja uma mediação para os espectadores se desviarem da bola e se entregarem ao seu homoerotismo onanista. Fazem bem: enquanto se masturbam mentalmente, não estão a agredir a sua boca da servidão, nem a violar os filhos menores.

Não queria, todavia, terminar este texto de forma pessimista, e deixo aqui um pequeno louvor àquela... coisa, que só podia ser um fenómeno do Entroncamento, ou de Gaia, o subúrbio sul da segunda aldeia de Portugal, cuja mundividência, coartada pelos seus arredores, apenas poderia ter um horizonte capaz de soçobrar em tal mediocridade. Na ótica de Parsons, para uma massa bruta, o critério primordial de validação da obra de arte é o realismo. Na verdade, o horror de Velasco não se parece com Ronaldo, mas tão só com a fraude Ronaldo, logo, deve ser profundamente realista. Não presta, então, deverá ser excelente. É, objetivamente, uma merda, logo, está adequada à função representativa de quem pretende representar.

Estão a perguntar-me onde entra aqui o Saramago: já entrou, subliminarmente, como em La Cantatrice Chauve, de Ionesco: toda esta miséria se penteia toda sempre da mesma maneira, mas até não faz mal, por que, como é usual, também nós todos estamos felizes, anestesiados, e de parabéns, na posse de uma coisa inigualável, na infinitamente longa deriva do Mundo.




(Quarteto à la charlie, no "Arrebenta-SOL", no "Democracia em Portugal", no "Klandestino" e em "The Braganza Mothers")


domingo, 9 de fevereiro de 2014

Os miseráveis Mirós da nossa corrupção






Não há nada mais do que me chateie, do que estar entretido com as minhas coisas, e ser forçado a escrever sobre outras, dado o estado de parvidade geral do país.

Começo pelas minhas, por que nada há de mais divertido do que mandar vir um tetarteron de Andronico I, Comneno -- figura cuja biografia vos recomendo, por divertidíssima -- e o colecionador búlgaro me o fazer chegar escondido dentro de uma disquete (!), das antigas, das quais já nem me lembrava, um pouco como Suetónio ficciona que Cleópatra VII, Philopator (Κλεοπάτρα Φιλοπάτωρ), se fez desenrolar de dentro de um tapete, perante César, o homem de todas as mulheres, e a mulher de todos os homens.

Estão são as minhas coisas, as divertidas, e era entretido com elas que eu estava, até me começar a chatear as orelhas um tema que anda a circular demasiado para o meu gosto, o dos Mirós, com os quais Oliveira e Costa e os seus capangas andaram a gastar o nosso dinheiro, ao ponto de nos levar à Bancarrota, sempre sob o alto patronato do seu patrão, e inspirador, o Vovô Corrupçao, Aníbal Cavaco Silva, cuja amnésia sobre o que fez ao pais, nos Idos de 80 e 90 só é possível neste quintal de analfabetos funcionais, e inaptos para a ação.

Comecemos pelo fim, para ficar esclarecida já a questão: aquelas merdas do Miró são subprodutos de segunda, terceira, e, alguns, mesmo de quarta linha -- se é que são dele -- e que foram comprados, só o demo saberá onde, e aconselhados só satã saberá por quem, embora eu tenha suspeitas sobre os autores, dado que a terra é pequena e a rés conhecida, mas já lá iremos. Personalizando a coisa, e tivesse sido eu o olho estético a aconselhar a compra, ou o selecionar do que é para ficar e partir, diria que se safam, muito à justinha, 5 ou 6 peças, que, com um foco de luz, e um pouco do manto diáfano da fantasia, de que Eça falava, até pareceriam aquelas cinquentonas, já fora de prazo, que ficam na sombra do "Luanda", à espera de que o negrão as rebente por detrás. No passo seguinte, ou seja, sendo ainda mais minucioso na personalização, se me dessem a escolher alguma coisa dali, agarrava em três, mas, desiludam-se, ó, incautos, nunca para os pôr nas paredes das minhas casas, bem antes para ver como me desfaria, o mais rapidamente possível, daquilo, enquanto não se descobrisse que tinham baixo valor.

No processo, tudo está errado: supondo que houve critério, e não foi mesmo pelo adquirir, só para branquear, imagino que os conselheiros da aquisição tenham sido aquelas mesmas luminárias, que rondavam o célebre antro da Fundação Luso Americana, para colocar os amigos, onde o Machete fez tanta merda que os Americanos, que o tinham comprado para substituir um segmento da Arte Portuguesa por um segmento afim de colonização de lixo e tique americanos, o que deu origem à já esquecida, mas então célebre proliferação dos "Pedros" (Calapez, Portugal, Cabrita Reis, entre outros, com uma pequena ressalva de exceção para o Proença, que até tinha talento). Havendo fundos americanos ilimitados, e sendo um país de atrasados mentais, toca de criar uma campanha de propagandização, para fingir que existiam, eram únicos, maravilhosos e inimitáveis. Caíram na gaveta da História, criando um buraco cultural de uma geração, a que se acrescenta hoje a ruína de Portugal, que agora está a criar mais vinte anos de vazio cultural, que cara nos vai sair para os vindouros, mas isto sou eu a perorar alto, porque quem me conhece sabe bem do que falo, e felizmente nunca parou. A História nos tirará dos baús.

Voltando ao Miró, o problema do Miró é um problema semelhante a uma campanha de propaganda, como a que tirou de debaixo da cama um escritor medíocre, como Saramago, para o levar em ombros até à indignidade de representar uma Literatura antiga, vasta e nobre, capaz de produzir Pessoa. Grosso modo, o mesmo que pôr o Pinto da Costa nos Jerónimos, ao lado de Camões e Afonso de Albuquerque. A viuvinha de profissão, Pilar del Rio, vai-se lembrar destas minhas palavras, quando a extrema direita europeia a atropelar, em Estrasburgo. Aliás, nem é preciso ir mais longe, por que a História já se está a escrever, de forma lapidar sobre quem foi o sinistro homem público, ingrato e traidor da aristocrática Isabel da Nóbrega. A seguir, cai a obra, e então nós poderemos respirar fundo, mas isso tem tempo, e é agora irrelevante. A outra que pague as faturas da eletricidade.

O problema dos Mirós, verdadeiros ou falsos, prende-se com aquela irremediavel seleção do gosto que temos de fazer, e isso não é para todos, embora me surpreendam as atitudes do Jorge e da Gabriela, que conheci em tempos melhores, e deveriam perceber que, em Arte, não há boas intenções, como Wilde, muito acertadamente, afirmava. Para a Christie's, ou qualquer outra, o problema é irrelevante, posto que umas luzes bem posicionadas, um catálogo de gramagem cara e um adequado design conseguem vender qualquer coisa. Aliás, o autor do enredo soube bem como pôr a coisa: "não sei quantas décadas de Miró", acrescentadas de "o mais elevado número de obras (dele) a aparecer num só ato". Como as americanas ricas já foram mais burras, e o dinheiro se deslocou para Oriente, a coisa dava um bom golpe, já que os Chineses compram a merda toda e a Mafia Russa, desde que o preço seja alto, investe, tornando bitcoins negros em cintilações artísticas. The Business, da Christie's tal como the business, da Pilar del Rio, salvaguardada a escala das empresas e a grandeza de Miró, mesmo nas más obras, que Saramago nunca conseguiu alcançar, nem nas reputadas "boas".

Para quem se interesse pelo assunto, investigue la période vache, de Magritte, para perceber o grau de invalidez das obras da période vache de Miró.

Esgotada a primeira carga de munições, vamos ao que realmente interessa: da multidão de oligofrénicos que já perorou sobre os Mirós-BPN, inclusivé aquela espantosa cara de estupidez que o Vovô Corrupção está a fazer, perante um BOM Miró, todos se esqueceram, salvo honrosa exceção para a Diretora do Jornal de Negócios, Helena Garrido, que pôs o dedo na ferida: um país, onde a política cultural é inexistente, exceto nos miados da Mariza -- que a História esquecerá, para apenas reter o gigante Amália --, nas merdas do José Rodrigues dos Santos, ou do Miguel Sousa Tavares, não se pode dar ao luxo de criar uma polémica política, em redor de produtos menores de um genial pintor, porque imediatamente, supondo que por cá ficavam, e se arriscam a ficar, por que o mercado da arte é altamente desconfiado e volátil, e, se descobrem que aquilo tem mau cheiro, passam adiante, perdemos o dinheiro da venda e a questão seguinte é: então, agora, vamos arrumá-los onde?...

Relembremos que estamos na Cauda da Europa, onde o Estado foi incapaz de criar uma coleção de Arte Contemporânea, tirando as sucatas locais, compradas aos amigos, e as "esculturas" das rotundas do Isaltino, pedra, em forma de lixo. Quem se preocupa com a Coleção Jorge de Brito, onde estão, por exemplo, Klee, que já deveriam estar organizados num acervo de Arte Contemporânea, para não sermos obrigados a ver uma assinatura de primeira água nas peças de terceira água de outro que tal, o "Comendador" Berardo, brilhante sucateiro de "Arte"?...

Não existindo tal museu, eu proponho um, muito mais adequado ao palco deste debate: tal como os parisienses têm um Musée de la Contrefaçon, onde alertam para o risco das imitações, nós deveríamos abrir um Museu da Corrupção, com salas próprias, a Sala Cavaco, a Sala Machete, a Sala Barroso, a Sala Duarte Lima, a Sala Dias Loureiro, a Sala Armando Vara, a Sala Portas, a Sala Apito Dourado, a Sala BPN, e, dentro da Sala BPN, então haveria lugar para os célebres "Mirós", ao que insisto em chamar "Lixo Miró", e epifenómeno da masturbação dos nossos analfabetos funcionais, tal como foram Foz Coa, as casas de banho do Carrilho e os estádios do Euro pedófilo 2004.

Evidentemente, que, por mais que tentem galambizar o assunto, nunca a Política fará Arte, embora a Arte acabe sempre por fazer política. 

Por fim, uma vez aberto tal Museu, até podiamos arranjar um lugar de Curadora, para a Pilar, para que não tenha de andar tanto aos saltinhos, enquanto o juízo da História avança :-)

Tenham juízo, pá.



(Quarteto do vendam lá essa merda, antes de que passe a valer 1€, no "Arrebenta-SOL", no "Democracia em Portugal", no "Klandestino" e em "The Braganza Mothers")