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terça-feira, 19 de janeiro de 2016

Os doces diplomas da nódoa









Com a campanha presidencial a entrar na sua période vache, não quereria deixar de vir regar aqui, com um pouco mais de gasolina, esta triste fogueira branda. Tem a eleição de 24 de janeiro o mérito de ser aquela que menos me aquece e arrefece, por ser uma eleição reprise, um triste bis das legislativas de outubro, dado que, tal como, há três meses, quando toda a gente desejava que o Coelho perdesse, sem que o Costa ganhasse, este domingo será marcado pelo mesmo vorrei e non vorrei, onde toda a gente normal, no fundo, deseja que o Marcelo perca mas o Nódoa também não ganhe.

Pronto, eu já sei que toquei no nervo da coisa, mas a ideia era mesmo tocar nesse nervo da coisa, pelo que vou continuar a sofismar, sempre orientado pelo tempo novo. Um dos sinais do tempo novo, como outubro demonstrou, é que se podia ganhar, mesmo quando se perdia. Há umas vozes negativas que defendem que o Costa já tinha a golpada toda combinada com os seus parceiros da "esquerda", e que ganharia sempre, mesmo que perdesse. Há uma certa melancolia nesta análise, é certo, mas eu vou acreditar em que também temos o direito de ser melancólicos, e tentar perceber como é que este tempo novo poderá permitir que o grande perdedor de 24 de janeiro, lá para a madrugada de 25, já se possa apresentar como vencedor.

Por uma redução ab absurdo, temos de tentar entender quem poderia ganhar, caso o Marcelo de Rans perdesse, e há uma certa frieza lógica que nos leva imediatamente a excluir os candidatos da coisa coitada, e vou agora à página da Comissão Nacional de Eleições, muito bem comportadinho, para lhes tentar retirar os nomes, já que estou como a História, que brevemente os vai devorar, e os não sei sequer de cor. Risquemos, pois, aqueles que o tempo novo já declarou como vencidos: Paulo Morais, Henrique Neto, o Tino de Rans, Jorge Ferreira e Cândido Ferreira. Se não me engano, já despachei cinco, pelo que agora já só me falta despachar os restantes.

Edgar Silva é um caso à parte, já que, mesmo num tempo novo, e ganhando sempre o PCP, independentemente do resultado, Edgar Silva já ganhou, e dou-lhe por isso os parabéns, posto que isso me facilita a tarefa de me debruçar sobre os restantes quatro. A Marisa não me é antipática, como já deverão ter percebido, e tem a virtude de ter, na juventude, andado a pastar cabras. O texto é tão mau que se permite ter a assinatura da Câncio, e por isso aqui o evoco, com algum carinho, e pela simples oportunidade de me ter sido útil, neste tempo novo. Não creio ser um requisito, para a Presidência da República, que se tenha andado a pastar cabras, mas também não se deve excluir, por um princípio de paridade democrática, a virtude de as ter pastado, agora, ou num tempo novo. Consuetudinariamente, também Aníbal de Boliqueime o fez, no seu tempo velho, isso, e muito mais, e lá chegou, hirto e firme, pelo que Marisa Matias também já tinha direito ao seu precedente. Registamo-lo com algum brio, e fazemos o reparo de que tal se insere numa longa linhagem de políticos que vieram das brenhas e se acercaram da cidade. Marisa Matias distingue-se deles, pelo facto simples que, num tempo certo, deixou as cabras e se fez à urbe, e cansada da urbe, partiu para a Europa. Muitos fizeram menos, e limitaram-se a vir pastar cabras para a capital, quando não as continuaram, num tempo novo, a calmamente pastar numa desgastada Europa.

Maria de Belém Roseira é infinitamente mais patética, por que se insere na longa linhagem daquelas balconistas, cerzideiras e espartilheiras, do tempo antigo da minha avó, que acharam que, bastando trepar para cima do balcão e mostrar as ligas e a combinação chegavam a um patamar qualquer do vaudeville, e chegam, já que o país inteiro ora se degradou numa gigantesca palhaçada. Maria de Belém é o último Sonho de Gerôncio de Manuel Alegre, e depois disto cremos que começará a eternidade etílica. Toda ela é marcada pelo pietismo e toda ela se rege pelo princípio do à justinha, pequena, maneirinha e com algumas potencialidades. Cremos que o momento mais alto deste campanha tenha sido a sua visitação aos embaixadores, muito semelhante à chegada dos Três Reis Magos, mas em minúsculo, em que, durante alguns memoráveis minutos, enquanto o camerlengo dela repetia o erro de protocolo de dizer "o senhor embaixador de aqui, e o senhor embaixador de ali, e o senhor embaixador de acoli", em de vez de "o senhor ministro do estado tal, etc", a nossa miniatura do coração teve os ventrículos apontados para outro lugar, com todos os olhares a dirigirem-se para uma filha, muito grávida, muito empandeirada num canto da sala, onde, espojada, acariciava as curvas de uma barriga muito curva, muito inchada, de onde irá sair uma ínclita geração, para provar que, nós cá, Portugueses, num tempo novo, ainda sabemos emprenhar, e não precisamos de "refugiados" de burka alheia, para aqui virem aumentar as emissões de CO2 da atmosfera. O vídeo é memorável, e só não tem a assinatura do Manoel de Oliveira e a medalha de cavaleiro das artes do Tony Carreira, por que não calhou, e por já estarem ambos, por esta altura, demasiado mortos. Vejam, por que vale a pena. A Maria de Belém, 24 de janeiro dará um digno lugar, nalguma junta de freguesia de Lisboa, e todos nós, ela, e o Manel, ficaremos, num tempo novo, satisfeitos, com um tão generoso bem haja, e um voo tão raso dos aventais femininos.

Afastados estes horrores, ficam o Bucha e o Estica desta triste paródia. O Marcelo já levou a sua dose, e mais dose vai levar, no dia 24. Há certas correntes que defendem que o catavento está apenas a submeter-se a este vexame por vazio e vaidade, ou para provar que o país chegou a tal estado de degradação que lhe permite uma pista de aceleração, para "só ver no que dá", e, se, no dia 24 for eleito, resta-lhe ainda a oportunidade de dizer que agradece muito e não aceita. Para quem conheça o Marcelo, ele é capaz disso e até de muito mais, como se irá ver neste curioso ciclo negativo, à porta do qual, num tempo novo, estamos, e pelo qual ansiosamente esperamos.

Não por acaso, mas por premeditação, deixei para o fim o fenómeno das reitorias. Para quem pensava que tudo o que era mau, em termos dos "interesses", em Portugal, se tinha acotovelado atrás de Marcelo, ainda não tinha visto o rasto de Nóvoa: a sinistra Pilar del Rio, a par com a miserável Inês de Medeiros e o lúgubre Zé que faz falta. Não vou enumerar mais, por que já fiquei com vontade de vomitar. Gente desesperada e capaz de tudo, e de potenciar o clima, nem que, para tanto, tenham de matar o Almeida Santos, ou o Soares velho. Tanto quanto reza a sua biografia não oficial, Sampaio da Nódoa, filho da da Dona Saladina, veio de Cabeçudos, e pareceu cair dos céus, crente, cremos, de ser um novo Saladino, e creio que quem de lá o atirou de pára quedas ficou à espera de que o engolíssemos, já que nós costumamos engolir tudo e não resmungamos. Dizem que começou a instrução primária em Caminha, mas só a acabou em Nova Oeiras, pelo que ela se deve considerar extensa, não na duração, mas, porventura, na distância. É fundamental, para o país do Mourinho e do Ronaldo, que tenha passado a infância e a juventude com uma bola nos pés. Eu passei-a com Proust, Júlio Verne e Suetónio, mas creio que deve ter sido por isso que nunca me candidatarei a Presidente, nem a coisa nenhuma parecida. A parte seguinte não deixa de ser interessante, já que, em Coimbra, e matriculado em Matemática, passou o tempo entre os campos de futebol e os palcos de teatro. Quanto a estudar, omite-se o estudo e a palavra estudo... A fase seguinte já inclui os cafés, e as noitadas, e os relvados são trocados por uma bolsa da Fundação Calouste Gulbenkian, que dá razão àquelas línguas compridas que dizem que por lá passou tudo, até os elétricos.

Entre 1973 e 1976, como reza essa generosa biografia, e omitindo que houve uma revolução pelo meio, fala-se de muita animação cultural, dinamizações de cidadãos e "expressões dramáticas" (!). Curso é que não, mas curso para quê, já que se abalançou diretamente à "formação de professores"?... Percebemos, e continuamos, para 77, onde, dessa formação de professores chega às aulas de moto próprio, em Aveiro. Cansado da academia, embarca num Fiat 127, e ruma à Suíça. Ao contrário do seu padrinho Cavaco, que rumou à Figueira da Foz, no célebre Citroen que o conduziria à ruína do país, Sampaio da Nódoa vai somente a Genebra, de onde sai com um curso (?) e um pegar de empurrão para o doutoramento (!), generosamente sobre a história de (certos) professores em Portugal.

Cumpre aqui fazer uma pausa, para nos debruçarmos sobre o princípio da bola de neve, que começa do tamanho de uma noz e acaba a engolir cidades. Não nos espantará que, em 85, já alguém o tenha convidado para ser professor convidado num instituto de educação física, e que depois aterre nas famigeradas Ciências da Educação, que estão para o séc. XX como as Profecias de Nostradamus para o Nicolao Maquiavel. A partir de aí, são todos os fogos de artifício previsíveis, a agregação, a cátedra e a Sorbonne, para fazer um segundo doutoramento que tirasse as dúvidas sobre o primeiro. Sarastro empurra-o para a Reitoria, mas o Tamino só se contenta, como Carrilho, com a Unesco. 


Não sei quem redigiu esta biografia, mas é um texto notável do estilo do volátil e do generoso. Não chega a ser comovente, já que introduz os patamares do costume: há nisto uma mistura de Harry Potter com as equivalências de Miguel Relvas, e espera-se que ninguém se lembre de escrever as linhas seguintes, que, de acordo com a lógica do Avental, deverão incluir uma Presidência da República e o Bispado de Roma, para lá venerar um Ente Supremo.

Não me apetece alongar mais sobre esta evidências. Nos tempos áureos da irmandade honesta, fez-se um exercício de estilo de oferecer um Imperador aos Franceses. Os tempos são, agora, infinitamente mais modestos, entre napoleões de goa e os cavacos de fancaria. Há muita gente espantada com os novos casamentos, também chamados "ménage à trois", que incluiriam, para lá da filiação base, núpcias espúrias entre comunistas e maçonaria, entre opus deístas e estalinismo, e, mais curioso do que tudo, entre seguidores do Balaguer e seguidores do Aventalinho. Se bem pensarem, a coisa nada tem de estranho, e explicaria muitos entroncamentos, como o par Constâncio, pai e filho, mas o mais estranho assenta numa espécie de balanço da revolução de abril, onde, muito mais importante do que as descolonizações, das transformações económicas, de mentalidade, no aumento da esperança de vida ou na liberalização do costumes, o grande aggiornamento tivesse sobretudo assentado naquela coisa estranha, que foi, não o acesso de todos aos estudos, mas a democratização da concessão de diplomas, de que Sócrates e Relvas são apenas os cumes cómicos de um curioso icebergue. Na realidade, o lado mais perverso da abrilada foi a proliferação destes faz de conta académicos, que se instalaram, num tempo novo, por toda a parte e de qualquer modo. Não voltaremos a falar desta "geologia das licenciaturas", já que ela espelha e traduz toda a inquietação profunda desta sociedade doente, que, num tempo novo, vai votar no dia 24.

O 25 de abril foi tempo novo dos diplomas de secretaria.

A pena residual que tenho pela derrota de Sampaio da Nódoa é do custo que ela vai significar, em vésperas do retorno da Troika, e do desgosto que vai provocar, naqueles que tanto apostaram neste derradeiro naufrágio. Na falta de números concretos, apenas poderei dizer que os aventais ficarão um pouco mais pobres, num tempo velho, o que, curiosamente, não acontecerá com os cilícios, já que os últimos, ao contrário dos primeiros, não costumam pagar, nem sequer num tempo novo, as derrotas, sobretudo quando perdem. Temos pena: arrivederci :-)



(Quarteto das núpcias falhadas do tempo novo do cilício e do avental, no "Arrebenta-SOL", no "Democracia em Portugal", no "Klandestino" e em "The Braganza Mothers")

segunda-feira, 20 de abril de 2015

Fábula do Boi de Boliqueime e da sua triste rã generalizada







Imagem devastadoramente atual de Rafael Bordalo Pinheiro




Os fins de época são como as mortes súbitas: quando dão, já é demasiado tarde para se fazerem anunciar. A diferença é que, no caso português, a infiltração foi tão prolongada e a umidade tão extensiva que se torna hoje quase impossível distinguir parede e dano. Portugal é hoje um enorme dano, com algumas pausas para se tentar convencer de que qualquer normalidade porventura ainda fosse possível.

Começaram por ser algumas, mas, finalmente se começaram a acumular, as vozes que associam a doença nacional ao nome de Aníbal Cavaco Silva. Tenho nisso a honra de já ter passado para a História como quem, há dez anos atrás, resumiu, numa  simples sucessão de imagens, a imagem que Cavaco deixará para a História. Bem se poderão esforçar aqueles que o quiserem enfileirar ao lado dos retratos da República, que o único, o melhor, o retrato absoluto de si mesmo já foi grafado pelo próprio para a prateleira dos Anais. Não foi com  óleo, foi com fotografia, e saiu-se demasiado bem. Às vezes a História é irónica, mas, como todos sabemos, sempre triunfa aquele instante em que se descobre que o rei realmente ia nu.

Neste pântano político, Cavaco conseguiu ir nu durante 10 anos de maiorias absolutas, e mais uns 10 outros, de agonia neurológica. Se me não falham as aritméticas, 10 mais 10 faz 20, e vinte é, mais coisa menos coisa, metade do tempo em que Salazar manteve Portugal como uma coisa estagnada da Meseta Ibérica. Se somarmos a metade de Cavaco com o dobro de Salazar, ficamos, mais a soluçar uns quantos Caetanos e Eanes, com quase 80 anos de paralisia política. Ora, 80 anos em 100 é muito ano, ou muita paralisia, ou muita estupidez inveterada, o que se torna idiossincrático e incontornável.

Para algumas correntes, nas quais me incluo, Cavaco Silva constituiu a quinta essência da gangrena do Regime Português. Cavaco está para a Democracia como Manoel de Oliveira esteve para o Cinema, ou, aristotelicamente, sendo que duas coisas não podem simultaneamente ocupar o mesmo lugar, na verdade, não pudemos ter nem Democracia e muito menos Cinema: antes nos contentamos com ficar a vomitar cavacos e oliveiras, enquanto o Mundo, estarrecido, não deixava de rodar.

A situação poderia não ser grave, e estava agora mesmo a olhar para um fragmento de mastaba de Neferikaré Pepi II, que está exatamente atrás de mim, e a pensar em como o mais longo reinado da História involuntariamente conseguiu que o Império Antigo depois caísse numa confusão política, que levou os longos anos que sabemos para se restaurar numa nova ordem reconhecível. As longevidades, exceto na genialidade, são geralmente nocivas para a essência das sociedades, mas, para além da crise local, nós estamos igualmente a atravessar uma gravíssima crise cultural em que a palavra regeneração parece ter-se tornado obsoleta. A verdade é que como morreu Oliveira, Cavaco também está prestes para sair, e a doença de Balsemão, como a de Borges, é uma das nossas mais profundas esperanças, sendo que o étimo da palavra "esperança" é, realmente, o de... "esperar".

No nosso grave, e pantanoso, bellum sine bello, pensamos que, como num sonho de bela adormecida, o Tempo passaria incólume sobre este período, e voltaríamos, como passados por entre os pingos de chuva, a emergir, incólumes e intactos, para prosseguir na nossa fábula. A verdade não se quis assim, e, como após um longo período de acamamento, estamos agora, incrédulos, a descobrir que perdemos completamente a tonicidade dos músculos e a própria capacidade de andar.

Os sintomas estão aí, e confundem-se com a típica Síndrome do Fim da História: Maria Luís Albuquerque, a atual loura sebosa das Finanças, a traçar planos de previsão para um futuro governo, e quem sabe se não o está mesmo a fazer com alguma sabedoria, dado o estado de degradação da matilha que enturmou com António Costa. No final deste período decadente, até seria possível que Albuquerque sucedesse a Albuquerque, entre os rangeres de dentes e espumejares da raiva galambiana. Talvez gostassem de saber a minha opinião, e eu ponho-a já aqui: adoraria que, simultaneamente, toda esta gente perdesse as Eleições e adoraria que António Costa nunca as ganhasse, pelo que, pela sua própria natureza quântica, me é totalmente indiferente o que venha a suceder: um povo que, após Salazar, apadrinha Cavaco tem exatamente tudo aquilo que merece, e eu remeto-me ao meu papel nefelibata, e vou muito acima das nuvens, completamente embrenhado nas minhas coisas, entre as quais o maravilhoso calcáreo da gazela de Neferikaré Pepi II, e, progressivamente, insensível aos epifenómenos rançosos da nossa contemporaneidade. Lamento imenso, mas em tempo de crise, reservo-me o direito de invocar a minha condição de intelectual, e de rumar diretamente para a História. Os culpados do resto que se amanhem, e se comam uns aos outros.

De algum modo, todo o anterior é apenas introdutório para o que tenho para vos dizer e que é breve. Com o país no impossível estado de faz-de-conta em que se encontra, subitamente, as televisões e os jornais, que os balsemões deste mundo conseguiram que deixassem de ser fábricas de sonhos para se tornarem em permanentes fábricas de pesadelos, despejaram-nos em cima uma multidão de fantoches inacreditáveis, todos eles com o carimbo de "candidato a", e completa-se a frase... "candidato a Presidente da República". Sei que o raciocínio é platónico, e talvez esteja ferido de ingenuidade, nesta idade de generalizado teresaguilhermismo em que mergulhamos, mas continuo a acreditar que Presidente da República é um cargo com matizes e qualidades às quais, mas isto sou eu, que tenho uma matriz consular e romana, só se poderia aspirar em condições muito específicas e refinadas. No raciocínio patrício, o Presidente deveria incarnar um senador dos senadores, mas o problema, a doença portuguesa, é que Cavaco Silva, para além de ter degradado a Democracia, igualmente degradou o cargo presidencial. Ao fazê-lo subrepticiamente descer de nível tornou-o acessível a outros tantos iguais ou piores do que ele mesmo.

A Comunicação Social se encarregará de fazer o resto, numa espécie de chamadas de valor acrescentado que veio substituir a anterior validação dos sufrágios nacionais.

Os nomes já vocês os conhecem de sobra, e não vou repeti-los aqui, por que um nome muitas vezes repetido é uma forma de propaganda, nesta época de opacidade e cegueira crítica. Antes digamos que a qualidade da Democracia, mais uma vez, se encontra irremediavelmente afetada por fenómenos locais de vazio e vaidade, oscilando entre o patético, o piedoso e o auto complacente, os chamados manueis-alegrismos, ou, na senda continuada dos atentados à sua transparência, as sociedades secretas se engalfinham, para tentar alçar ao poleiro decaído os fracos nomes dos seus aspirantes. Na verdade, bem podem engalfinhar-se, por que o efeito se tornou verdadeiramente perverso, e, talvez numa estreia da nossa história recente, todos os candidatos são apenas candidatos aos últimos lugares, deixando a estupefação de não existir um único que tivesse pretensões a ganhar. Isto, creio, é inovador, e é uma dramática sequela do Cavaquismo, já que a Presidência da República deixou de ser um lugar cimeiro para se ter transformado num recanto de arrecadação, onde qualquer um pode sonhar arrumar o que bem entender.

Como poderão acenar-me, este discurso é precoce, e há sempre aquele concomitante sebastianismo de que, na hora verídica, alguma coisa se levantará. Quem sabe se não virá uma figura impoluta e de Estado, como o Carrilho, encarrilhar a situação?... Pela minha parte, volto a reiterá-lo, o tema tornou-se, tal como o das Legislativas, totalmente irrelevante. A minha questão é apenas a de, uma vez afundado, pelo seu coveiro, um Regime, que lugar terá a Imaginação para encontrar o que o possa vir a substituir?...



(Quarteto da linda, linda, Nódoa, que grande que é esta nódoa, no "Arrebenta-SOL", no "Democracia em Portugal", no "Klandestino" e em "The Braganza Mothers")