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terça-feira, 25 de agosto de 2015

A Europa, entre Bárbaros e Breiviks, desmonta a sua velha Muralha da China







Quando a Europa voltar de férias, estará em guerra. Minto: a Europa, quando partiu para férias, já estava realmente em guerra, e impotente para verbalizar tal problema de todos nós.

Resumidamente, enquanto o continente dormia, alguém o pôs na ratoeira do cão que morde a própria cauda, ao mesmo tempo que poderosas máquinas de invasão nos bombardeavam diariamente com infindáveis mísseis humanos.

Na ótica da Física, o cenário pode explicar-se pelo próprio princípio dos vasos comunicantes, e, linguisticamente, por uma certa osmose e baralhar das etiquetas. O resultado foi uma verdadeira miopia genérica, que irremediavelmente nos ofuscou a Realidade.

Por um lado, as décadas de suburbanização acabaram por substituir todo o padrão metropolitano pelo pensamento da gaiola económica, entre o guarda roupa da tribo e as insuficiências culturais, até ao eclodir das piores anomalias sociais. Cansados de repressão e da impossibilidade de imporem a sua lei da selva nos HLM de Paris, nos devolutos de Bruxelas e nas florestas pós industriais de Birmingham, todos os excedentes populacionais da Europa foram pastar o seu flagelo, na forma da mulher submissa e velada, nas penas de talião, no Fim da História, atolado nas pulsões do Presente, mais ISIS menos ISIL, e a anarquia do Esquecimento constituiu-se na única cartilha dos novos bárbaros, enfiados nas mais recônditas aridezes da Síria e do Iraque, 

Com uma Civilização minada pelos fracos poderes, dos quais Obama se constituiu na epígrafe histórica mais medonha, instaurou-se a impotência, e, depois da impotência, chegou agora a vez do Caos presente.

Se este é o retrato, a montante, da comunicação dos vasos, o seu refluxo na direção da Europa é muito mais assustador. Na verdade, quando Odisseu construiu o cavalo encarregado de minar Tróia, mais não estava do que a abrir a boceta de pandora de todas as mimeses e metáforas futuras do nosso próprio fim. Sistemática e estrategicamente, todos os cavalos de tróia do presente estão agora a ser enfiados por todas as frestas do pensamento, numa confusão de impotência de valores e maré de invasão. A insidiosa substituição da Realidade por sucessivas narrativas da complacência cumpriu todos os quadros do politicamente correto, e as minudências da quotidianização da História tomaram de assalto os canais da comunicação global. Agora, é só uma mera questão de tempo para que todos os invasores se convertam em histórias personalizadas de pietás com os filhos chorosos ao colo, perante nós, irremediáveis culpados de todos os males do Mundo.

A Europa descarregou os seus excedentes nos desertos, e o Mundo vingou-se, e vomitou-nos os excessos dele por cá.

O Império acabou assim, como todas as civilizações, que não perceberam que a complacência e a impassividade não eram compatíveis com a ideia da integridade cultural, acabaram por ser submersas pelas marés do Estranho. Seria interessante ver Roma a acolher de braços abertos os Hunos, e a levar ao colo a mulher e filhos de Átila, entre choros e pedidos de desculpas, por que é essa miserável imagem a que hoje assistimos.

Numa análise mais assertiva, enquanto os estertores do politicamente correto se deslocaram do senso comum para os construtores de narrativas da comunicação social, também, pelo mesmo princípio dos vasos comunicantes, se assistiu a uma transferência das reticências dos pensamentos radicais para o senso comum das populações. Curiosamente, quando Breivik fez a sua Matança Norueguesa, a preocupação maior foi sobre o seu distúrbio psíquico. Hoje, fica por saber até que ponto esta cruel explosão a montante não era mais do que premonitória, e, quando tivermos a resposta, vai-nos assustar muito estarmos porta sim, porta sim, com bárbaros e breiviks, o que, no fundo, conduz ao mesmo. Se há um silêncio ditado pela paralisia, toda a gente sabe que a História não é complacente com estes momentos de suspensão. O novo rosto do Terrorismo são estas ondas de "refugiados", que estão a trazer fortunas a quem os empurra. Brevemente, num tempo próximo, num lugar qualquer, este incrédulo passeio pelas televisões acabará numa chacina, e alguém finalmente perceberá o desastre a que nos deixamos, silenciosamente, conduzir. Não terá qualquer graça, nem futuro.



(Quarteto do impossível e do inacreditável, no "Arrebenta-SOL", no "Democracia em Portugal", no "Klandestino" e em "The Braganza Mothers")

terça-feira, 9 de dezembro de 2014

ISIS, o "Estado Islâmico", como forma acabada do Cavaquismo e ante estreia dos quintais aventalados do Napoleão de Goa



Imagem do Kaos


Já enjoa começar um texto com um chegámos a um estado nunca visto, por que, logo a seguir, nós ainda conseguimos chegar sempre a um estado ainda pior, pelo que hoje vou variar, e dizer que chegámos a um estado "islâmico" nunca visto, o que creio ser uma sinistra realidade.

Para os apreciadores de História Contemporânea, nos quais me não incluo, mas sou forçado a papar, na quotidianeidade, houve um pico de Fim do Mundo, lá para os idos de 75 do século passado, em que a velha ordem ocidental se pareceu afundar: é um longo ano de seis anos de partida das ditaduras peninsulares, da saída do Negus da Abissínia, da extensão da garra soviética a todos os recantos do Império Português, entregues por Mário Soares ao deus dará de Álvaro Cunhal, a derrocada americana em todas as frentes do sudeste asiático, a bancarrota e o grande apagão de Nova Iorque, e esse ano é tão longo que se estende até à invasão da Polónia, da queda da Dinastia Pahlavi e da intromissão russa no Afeganistão. Creio que pior do que isto só ter outra vez as botas nazis a pisar Paris, mas já vinha por aí um destino ligeiramente semelhante, posto que esse extenso Zodíaco lançou a sombra dos Anos 80, marcados pela criminosa tríade Reagan, Tatcher, Woytila, marinados ao molho de AIDS.

Tudo isto seria desinteressante, se não se assemelhasse muitíssimo ao fabuloso panorama em que estamos imersos, mas, desta vez, já em regime de segundas séries, pelo que, quando se pensava que o Obamismo seria o fundo do fim, já se sabe agora ser certo vir um qualquer falcão americano reinstaurar um braço férreo na desordem do Mundo. Aliás, crê-se que os muitos obamas da estupidez humana apenas servem sempre para pôr o senso comum a rezar por um qualquer novo autoritarismo, e ele está apenas à espera de que o calendário esgote as folhas, ou talvez venha mesmo antes disso. Do meu ponto de vista, já aí está, e em muitas frentes, e com muitos rostos e sem disfarces.

Para quem gosta de ir para dentro lá fora, assistimos impavidamente a uma Europa governada por um primeiro ministro, como agora se gosta, a encaixar no formato "o mais jovem primeiro ministro", etc. e tal, Matteo Renzi, que, excetuada uma passeata à palhaçada europeísta, nunca se submeteu às urnas, mas isso faz parte do sonho norte coreano: submetem-se por cooptação, já não se estranham, e entranham-se, na boa, nem que seja para dirigir seis meses a Europa. A única coisa certa é a de que o seguinte será pior. Na Alemanha, a porteira de Leste, Merkel, inconsolável com a queda do Muro de Berlim, sem a qual poderia chegar a Dona do Prédio, contenta-se com desmantelar a Europa e dizer que o continente não é uma terra de futuro para os jovens, coisa que já sabíamos, e até poderíamos acrescentar ser um excelente lugar para o passado dos velhos, não fosse ser isso uma dolorosa falácia de outra derrocada. Por fim, e tudo isto assim um pouco a modos que à vol d'oiseau, a França, do Liberdade, Igualdade, Fraternidade, acaba a recuperar a sineta medieval dos leprosos, com que hoje põe os pobres de Marselha a sinalar pelas ruas a falta de domicílio e a lista completa das doenças. No meio das permanentes árvores de Natal de Obama, apenas comensuráveis com os miseráveis presépios de Maria de Boliqueime, só o senador McCain ousa chamar a Victor Orbán qualquer coisa como "porco fascista", mas Victor Orbán não é o único porco fascista da atualidade.

Para os que preferem ir para fora cá dentro, o cenário não é melhor. Pela primeira vez, aliás, pela segunda, se incluirmos o Procurador João Guerra e a sua impotência na caça aos pedófilos, por prescrita à partida, a Democracia parece querer exercer, pelas mãos de Carlos Alexandre, o primado da Lei sobre a impunidade. A coisa imediatamente revoltou os estômagos, mas toda a gente pressente que isto não é senão a ponta do icebergue, tal como o "Casa Pia" o foi,  não tivesse sido rapidamente estrangulado, e a prova disso é a ira de caneta vermelha com que Sócrates, um "borderline", se endereçou aos Portugueses. Melhor é tê-lo lá dentro, por que não gostamos de lutas de cães de raças perigosas.

A verdade é que este pântano em fase de transbordo não é senão a fase final do anterior, quer exterior, quer interior: na verdade, o ovo da serpente são os anos sem ideologia e infinito oportunismo protagonizados por criminosos tipificados, como Cavaco Silva, cuja ação se resumiu ao desmantelamento dos esteios económicos do Estado e a consequente desintegração urbana.

Ao invés de produzir tecido urbano, o neoliberalismo apenas multiplicou tecido suburbano, enquanto padrão, subcultura e marginalidade: de aí, aos campos de treino do ISIS, foi apenas a ocasião do convite dos mais novos a emigrarem: à beira de um continente que já não estava feito para jovens, havia imensos campos de treino para as adrenalinas da frustração. Creio, pois, que quando nos perguntam por que não se bombardeiam, preventivamente, os fulcros dos fundamentalistas a resposta tenha de ser que nós não queremos ver as nossas cidades todas incendiadas.

O castigo para uma corja destas não está inscrito em nenhuma lei, e apenas uma punição exemplar de décadas de desestruturação do Ocidente, com prisão imediata para todos os seus protagonistas -- dos quais Sócrates é apenas um palhaço menor -- poderiam ser uma intervenção possível, num prazo que já transbordou para o impossível, ou, por palavras outras, de um certo ponto de vista, já se tornou demasiado tarde.

De entre os que partiram já se disse tudo: foi-se a geração mais qualificada e mais os frustrados que virão agora destruir-nos pelas suas próprias mãos. Todavia, os que ficaram dentro não são sequer melhores: tal os bernardos eremitas, enfiam-se nas conchas das organizações que estiverem mais à mão, para servirem os seus próprios desígnios. Não precisam do protagonismo dos vídeos de decapitação, mas contentam-se com se infiltrarem nos congressos dos partidos tradicionais. O cheiro é o mesmo, com pequenas variações de palato, entre galambismos, "livrismos", ruirioismos e outros totalitarismos, que, nem cães, nos ameaçam os amanhãs que rangem.

O que aí vem é muito mau, por que, numa sociedade de recursos cada vez mais estreitos, o canibalismo passou de marginal a estrutural, e generalizou-se, numa variante da lei do mais forte, agora vertida na forma da lei forte do mais perverso. À sombra disso, qualquer debate ou defesa se tornam impossíveis, por que assentam na impossibilidade de, num cenário superpovoado, dois objetos poderem, simultaneamente, ocupar o mesmo lugar, e não podem.

Com a força toda, vendem o território, ainda antes de conquistado. Certos baluartes, como a excêntrica Madeira, demasiado tarde perceberão o que aí vem: mais do que o Napoleão de Goa, os "aventalados" querem espaço vital, e instaurar o seu império territorial. Miguel Albuquerque, um desses bernardos eremitas, tal como Sócrates, um oportunista sem ideologia, vem para rebentar o PSD por dentro, e rebentará. Na verdade, a questão assentaria em como nos defendermos de uma maré sem igual, mas não há qualquer defesa, já que tudo assenta na distinção entre saúde e maleita: uma vez todos doentes, como agora estamos, a doença imediatamente deixou de ser doença, e tornou-se num estado (anti) natural das coisas, ou, para acabar como comecei, num estado "islâmico" generalizado, de coisas nunca d'antes vistas.