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terça-feira, 13 de junho de 2017

Elogio da saída de Trump do Protocolo de Paris, seguido de ascensão e queda de Cristiano Ronaldo dos Santos Aveiro





                             


                          


Toda a gente sabe que os grandes responsáveis pelas emissões de CO2 são os vulcões, as plantas, quando estão a dormir, e as vacas. Como não se pode andar a tapar os vulcões todos, resta impedir as árvores de dormir e tentar pôr um travão nas vacas. Ora, creio que impedir as árvores de dormir deve ser das tarefas mais penosas do mundo, talvez só comparável com andar a tapar os vulcões todos, pelo que se torna inevitável debruçarmo-nos mesmo sobre as vacas.

As vacas dividem-se em duas espécies, as que deus e o intelligent design já conceberam como tais, e as outras, que são fruto de um longo processo de sociedade e aculturação. As vacas naturais existem na forma atómica, ou seja, uma vaca, um corpo, uma emissão. Já as vacas culturais subsistem na forma molecular, mediante uma ligação covalente, em que a vaca capta um ou mais bois, e entra numa situação dativa, em que é apenas o boi, ou os bois, a fornecem os meios de subsistência da relação.

Crê-se que isto é assim, pelo menos, desde Eva e Dalila, até ter culminado no Santuário da Casa dos Bicos E nada disto é chocante, nem penoso, posto fazer parte da mais elementar História do Mundo. Torna-se, sim, inquietante, quando nos debruçamos sobre os números da Demografia, que nos dizem que, aquando da Revolução Industrial, ainda andávamos pelos 1 000 000 000 de andantes, quando agora, séc. XXI, já andamos a sonhar com a poluição de dez mil milhões de almas penadas.

Num célebre exemplo da Estatística e da importância da correlação na análise de dados, ocorrido na Inglaterra, de novecentos, da vaca pré-May, já se tinha sinalizado um simultâneo aumento de criminosos e padres anglicanos. O Marques “Magoo” Mendes, na sua iluminação, imediatamente extrairia de aqui uma relação profunda entre o sacerdócio e o crime, quando a correlação é, de facto, nula, e apenas se deve à existência de um terceiro fator, o do aumento brutal das gentes, que simultaneamente conduziria a um brutal aumento de crimes e também de... sacerdotes.

E já que aqui falámos de brutal aumento de população, creio que é o tema ideal para começar este texto, esgotado o que fica para trás, e vocês devem ler apenas como prolegómeno.

Deve entender-se que o brutal crescimento da população é, a par com os vulcões, o sono das árvores e as vacas, a principal fonte de emissão de CO2. E é-o por dois motivos, um imediato, o de que qualquer humano, na sua qualidade elementar de qualquer vaca, é um libertador direto de CO2, e igualmente um potencial libertador de CO2, na infinita plêiade de lixo e pegada ecológica que a sua apetência por filhos, carros, casas, hambúrgueres, roupas, viagens, festivais, skates, surfs, barbas, iPhones, iPads, Samsung Galaxy e outras coisas afins provoca.

Deve entender-se que a simples existência de cada humano, apesar de constituir tão-só 1/1 000 000 000 000 (e este número é mera ficção) da atividade de um vulcão, já é cerca de um milhão de vezes pior do que os puns das vacas, e apesar de ser este número igualmente fictício, creio-o largamente mais eloquente do que todos os puns dos vulcões.

Por outro lado, e pela sua própria natureza, toda a gente sabe que, sendo todos os humanos iguais, há uns que são bastante mais iguais do que os outros.

Assim, é já dentro dos humanos que ocorre a explosão, ainda mais prejudicial, da vaca humana, a qual junta todos os defeitos das vacas aos defeitos do humano. Sendo que, como disse, cada vaca se faz sempre acompanhar, por covalência, por um corno manso, e que a mansidão do corno se encontra, na maioria das vezes, associada à potência da exibição da alta cilindrada, a emissão de CO2 começa, só por cada vaca, a tornar-se realmente inquietante.

(Dirão os otimistas que, se a vaca se expande toda em CO2, já o boi é mais modesto, e põe a alta cilindrada, por economia, a emitir o seu CÊ Ó UM (CO). No meu entendimento, a poluição deve ser vivida como a mesma, sendo que a opção entre CO2 e CO se deve apenas a uma opção de corno manso, cujo debate químico terei de atalhar aqui).

O Donald Trump abandonou, e muito bem, o Protocolo de Paris, por que entende que ele deve renegociar-se em condições mais favoráveis para os Estados Unidos. Creio que, com o seu piscar de olho, Donald Trump nos veio dizer que pretende renegociar o papel da Ivanka e da Melania no rol da poluição do Mundo, e nós devemos ser muito respeitadores e ficar a aguardar.

Para mim, todavia, tal coisa não chega, e creio que, em vez de andarmos a assinar Protocolos de Paris, que apenas asseguram que os presentes vão ter de começar a viver pior, para poderem assegurar o viver ainda pior dos que aí vêm, por que continuam a proliferar que nem coelhos, era a altura certa de pôr um travão à Euforia do Falópio. A história da poluição do mundo confunde-se com a história da sobre ocupação do mundo, e a lógica está invertida nos termos, não é a Humanidade que está a produzir mais lixo, é apenas cada vez mais humanidade, que, produzindo o mesmo, ou até menos, lixo, estará sempre a criar maior poluição, e deve cortar-se na Humanidade e o lixo imediatamente se verá diminuído. E, já que a Religião tem andado a invadir todos os cenários, era altura de nos questionarmos sobre por que é que ainda não foi retirado do clausulado religioso o célebre “crescei e multiplicai-vos”’, e esta é a minha primeira proposta para a revisão do Protocolo de Paris, que eu vou já enviar ao Trump da América.

O resto não é melhor, já que o “crescei e multiplicai-vos” se faz por forma direta, e por forma indireta, sendo que, se a forma direta já é má, a forma indireta ainda consegue ser substancialmente pior.

Na forma direta, creio que o futuro Protocolo de Paris, já revisto pelo Presidente Trump, deverá conter uma séria recomendação, e com multas, aos credos que continuem a incitar a procriar. Pode incluir drones que lancem choque elétricos, sempre que alguém se esconder nas moitas para práticas sem contracetivo. Na forma indireta, estas recomendações e multas deverão ser estendidos a todas as formas indiretas de procriação, a saber, fufas e bichas que, com  tanto órfão, insistem em ir à pipeta, e, mais grave do que tudo, aos que, por soberba e cobardia, recorrem às barrigas de aluguer, e aqui chegamos a um dos cúmulos da emissão de CO2, e não só, Cristiano Ronaldo dos Santos Aveiro, que nasceu da barriga, não de aluguer, da Dona Dolores, e até foi da mesma criação, também não por aluguer, se entretanto não se pagou para se alterarem os registos, da sua bela irmã Ronalda.

No tratado das vidas exemplares, Plutarco teria tido muito trabalho em encaixar o Cristiano Ronaldo, e, no entanto, ele foi insidiosamente ocupando um protagonismo e um monopólio culturais, cuja nocividade só os vindouros conseguirão avaliar na total extensão dos seus estragos. Começou na infância, a qual, cumprindo a profecia, teve necessariamente de ser pobre e indistinta, para depois se poder dar a revelação. Como a Irmã Lúcia, ambos não puderam ser crianças e vinham já condenados a uma reclusão na idade adulta. A primeira cumpriu um voto de silêncio, e ele deveria ter tentado cumpri-lo. Se a primeira até sabia falar e teve mesmo de se calar, já o Ronaldo deveria ter-se limitado tão-só a aprender a estar calado sempre que devia, e devia estar sempre calado.

Esta liquefação de papéis culturais só encontra paralelo no Maxwell, da fusão do Campo Elétrico, e do Campo Magnético, no Campo Eletromagnético. Em Portugal, o Campo Eletromagnético foi fechado no Carmelo, e, em contrapartida, foi deixado à rédea solta no Real Madrid.

A fase seguinte é a da ascensão e dos maus exemplos. Ao contrário do Ronaldo, a Lúcia usou sempre o mesmo par de botas, nunca se depilou, e tinha um modesto orgulho no seu bigode. Consta que nunca fez milagres, a não ser na fase terminal, e como era justa, deixou o protagonismo para os irmãos desvalidos. Um dia, caiu uma criança no Brasil, e a criança sobreviveu, apesar da perda da sua massa encefálica. Na realidade, o verdadeiro milagre é o da atual sobrevivência dos milhões de rastejantes, independentemente da conservação, ou não, das respetivas massas encefálicas. No final disto tudo, foram o Francisco e a Jacinta que avançaram para a canonização, e a Lúcia, prudente, ficou só beata, naquele princípio de que os mandatos das presidências estão sempre limitados a oito anos, enquanto as vice-presidências se podem manter vitaliciamente. Beata, mas não estúpida.

O Ronaldo começou por ser ninguém, até uma mão ignota o ter convertido no melhor da sua pequena casa. Da pequena casa, passou a ser o melhor da sua cova da iria, e, de cova em cova da iria, lá o transformaram no Melhor do Mundo. O atual processo já sonha com a extensão a Marte, e lá virá. Depois do estádio e do aeroporto, falta o nome do exo planeta e da galáxia. O processo está todo em Barthes, Castoriades, Lipovetsky, Eco e muitos outros. Só que ninguém acreditou nesta semântica cultural, até ela se ter instalado.

A pegada ecológica disto é gigante. Na ausência de um oscar wilde interior, Ronaldo não procurou o melhor de tudo, mas aquilo que, de tudo e em tudo, fosse sempre o mais caro, e o caro torna-se inevitavelmente ainda mais caro, se for por ele, Ronaldo, patrocinado.

É paradigmático que o Ronaldo seja agora caçado pelo Fisco, não pelo dinheiro do que joga, por que sobre isso as opiniões até são as mais diversas e contraditórias, mas, sim, sobre essa coisa suspeita do que são os seus “direitos de imagem”. No ar de fábula de que este texto se revestiu, é urgente relembrar o existencialismo lafontainiano de Cristiano Ronaldo, e de como não lhe chegando ser rã, tanto o empurraram que acabou por se tornar num boi.

O mais grave nem é o que tudo o que é ditado por estas estrelas do mau exemplo, mas o ser imediatamente imitado por milhões, pelo planeta fora. Pouco interessa o que o Ronaldo faz, ou não faz, mas sim a tal plateia sombra que há muitos anos estava à espera de que o Cristiano Ronaldo fizesse para validar o poderem fazer também. E assim proliferaram as depilações, os brincos, as pulseiras e as sobrancelhas arranjadas. A nossa era, a Era Trump, é deplorável, e mais deplorável ainda é o tempo de antena que a Civilização perde nisto... E, assim, é aqui chegado o momento de perorar sobre toda a (in)finitude da vaidade humana.

Nos reflexos da Natureza, compete à fêmea, no apagamento natural dos dotes do seu corpo, propagar a vaidade do seu pavão. O preço é cruel, já que ela oferece ao progenitor uma réplica eficaz daquilo que ele perdeu anos a contemplar no espelho, mas a contrapartida é sempre cruel, por que lhe exige faturação e sustento para todo o resto da existência. Estas são as leis da natureza, e tudo o resto são soluços da Teresa Guilherme,nua, desnuda, pelada, à poil & stark naked.

A comissão de promoção do fenómeno Ronaldo também aqui foi prudente, e seguiu o consuetudinário das normas da Igreja: não casar o padre, para que o património não sofra diluição. Por um princípio de máxima satisfação, conseguiu assim dar a vaidade ao progenitor, através da solução de um clone de um plano pré-pago: ela recebe à cabeça pelo serviço, e evitam-se depois protagonismos e divórcios. O Ronaldo, demiurgo, desta forma cumpre as pegadas de Jesus e de Apolónio de Tiana, e concebe, não sem pecado, mas sem gaja, por que as gajas são sempre uma chatice, exceto quando se tornam urgentes e necessárias para as foder. Os menos sofisticados preferem as bonecas insufláveis e as bonecas sem ossos, da Deep Web. A solução Ronaldo é uma espécie de meio termo moderado, para consumo lato na forma de pacote integrado. Creio que os maus tratos às mulheres também deverão estar para ser, em breve, validados.

Cristiano Ronaldo é a apoteose da misoginia, e o pontapé, do alto dos seus voláteis trinta anos, em trinta mil anos do louvor da Mulher na Cultura Humana. E assim se cumpriu mais um suspiro das claques.

Na fase sequente do milagre, passou do filho único aos gémeos, ou seja, numa ótica fisicista elementar, se, no primeiro processo, foi necessário ter uma barriga de aluguer para assegurar a parturição de um filho, já no obrar de dois gémeos devem ter sido necessárias duas barrigas de aluguer. Ora, somada a primeira às duas últimas, isto faz três barrigas de aluguer, com todo a consequente emissão de CO2 que isso comporta.

Na lógica da ascensão, passava-se da beata Lúcia e dos santos Jacinta e Francisquinho para a próxima vizinhança da virgindade de Maria. Depois da conceção sem pai se avizinhar da conceção sem mãe, era preciso apontar mais alto, e mostrar que o novo Messias ainda continuava a conter uma costela de humano. E assim se fez a Georgina, que nega a gravidez, mas a sua negação da gravidez pode ser ainda mais grave do que a gravidade do emprenhanço, por que se não é um futuro emissor de CO2 o que agora ali se anuncia, até pode ser que o inchaço nem passe mesmo de um imenso depósito de metano. Quando ela o soltar, tal bufa fará tremer todo o Protocolo de Paris e até os das cidades vizinhas, o que mais uma vez dá razão ao Donald Trump...

Do ponto de vista da Física, a coisa é ainda mais grave, já que, com a Georgina a contrapor-se às barrigas de aluguer, o problema se deslocou, quanticamente, da incerteza da maternidade para a incerteza da paternidade. Tudo o resto assenta na indecisão da numerologia: e, se, desta feita, já são três, fica só a faltar agora o matrimónio para cumprir a profecia do Hermann: sempre casados e sempre pais de três filhos.

No meio disto tudo, foi o Fisco Espanhol a finalmente vir deitar uma desagradável água fria neste noivado da indecência universalA História dos Impostos divide-se inexoravelmente entre dois atores, os que nunca pagaram impostos e os que sempre tiveram de os pagar, sendo que a segunda categoria, num horizonte ideal, sonharia sempre com converter-se na primeira. Na hora da verdade, o olhar da justiça social só se projeta sobre os que são apanhados a meio da metamorfose, e foi aqui que a Fazenda justamente atacou, no momento exato em que o bloqueio ao Qatar revela como Futebol e Terrorismo, tráficos, Daesh, branqueamento de capitais e fuga aos impostos andam de mãos dadas. A ascensão deste fenómeno destruiu o que ainda poderia haver de desporto, no Futebol: mesmo para os que gostem de Futebol, hoje é impossível falar-se de Futebol, sem que as discussões não sejam imediatamente canalizadas para a poluição provocada por Cristiano Ronaldo.

Do ponto de vista do espectador, a coisa é infinitamente nefasta. Do ponto de vista do jogador, creio que seja igualmente preocupante: sempre que o Ronaldo entra em campo, qualquer adversário seu já não se encontra a defrontar um qualquer jogador humano, mas a sofrer um choque anafilático, de que nem Plotino se lembraria: contemplar, face a face, os holofotes brutais que o encandeiam e lhe dizem que nunca deverá ousar perturbar tal inquietante máquina de manobra e iluminação. Na realidade, só um louco ousaria defrontar essa incandescência ex-machina com que a sociedade foi intoxicada, e, portanto, em campo, perde-se agora sempre, e perde-se sempre que o Ronaldo agora entra.

O Cristiano Ronaldo é o exemplo mais gritante da Pós Verdade no Desporto.

É verdade que todos os episódios sequentes são ainda imprevisíveis. Como se sabe, falta ainda o Mourinho. Avanço, como previsão, que uma vez ferida a aura de Ronaldo, os bons jogadores, um após outro, o comecem doravante a vencer. E esta reviravolta é tão miserável, na queda, como foi na ascensão, mas é a lógica das reviravoltas. Está tudo previsto nas cúspides das Catástrofes de René Thom, mas a hora desta emergência continua a não deixar de ser injusta, exatamente agora, quando iam começar a surgir os milagres da beatificação (em vida) do Ronaldo.

Como podem supor, este texto poderia torna-se infinito, fosse eu pelas emissões de CO2 da Dolores, da Katia e da Ronalda, pelo que cumpre suspendê-lo agora, até o voltar a retomar. Adianto, pois, que, sendo a canonização do Ronaldo coisa ainda em profundo segredo nos bastidores do Vaticano, apenas ouso avançar com duas pequenas inconfidências: a de que o processo decerto passará pelo reconhecer do milagre do demiurgo que ousou corrigir deus, sobretudo na forma por deus destinada aos seus dentes e aos dentes da Dolores, e também o milagre desta espantosa fraude ter durado o tempo todo que durou, e ainda continuar a durar. Assim seja.


Amén.





(Dueto do fim dos mitos, no "Klandestino" e em "The Braganza Mothers")

segunda-feira, 7 de novembro de 2016

President Trump






Faço parte dos cidadãos do Mundo que têm observado a campanha americana com o sensor de tédio ligado ao máximo. Corrijo: faço parte dos cidadãos do Mundo cujo sensor de tédio há muito que discretamente me afastou dos desenvolvimentos da campanha presidencial americana. No outro dia, por desfastio, liguei a televisão e estava a passar uma gaja pausada, cheia de comprimidos. Rapidamente compreendi que ela se estava a candidatar contra um outro, bastante descomprimido e cheio de gajas, e que aquilo era o estado presente da coisa americana. Nada de estranhar, como nada é de estranhar, depois de Obama. Ela falava no mesmo tom com que as jeovás apocalipsam o fim próximo do Mundo, e ele no tom de quem acredita que é mesmo o Fim do Mundo, o que, da parte dele, é uma forma de imodéstia a mais.

A realidade é que no estado em que o Mundo está dá muito trabalho acabar com ele, ele, Mundo, e não Trump, e, depois de um pouco de observação, percebi que a senhora não tinha mais programa do que deixar que o Mundo não acabasse já, e o tipo, do que andar assustar a senhora com o trabalho que estava a conseguir dar a ela. Na verdade, numa termodinâmica de economias e consumos, ele gasta muito menos do que ela, já que, de cada vez que ladra, logo ela acorre a fechar todas as portas e janelas, o que é um colossal dispêndio de energia, para um simples ladrar. A coisa, ao fim de semanas, converteu-se num mero patético espetáculo de bancada, em que um apenas toureia os receios do outro, para que, por detrás do boneco da outra, logo venha uma multidão imensa compor o boneco, para se fingir que ela não está completamente borrada de medo, com o medo do boneco dele.

Acontece que, na nossa sociedade teresoaguilhermada, o boneco Trump até tem graça, e a graça do boneco Clinton é uma perfeita desgraça. E onde nada disto tem graça é que não estamos num reality-show, mas durante o processo de eleição para um dos cargos mais poderosos da Aldeia Global.

Alguns céticos comparam este processo penoso à fase catalética da Academia Sueca, e, num raciocínio de transitividade elementar, dar a Casa Branca ao Trump acaba por estar para o Donald, como o Nobel recentemente esteve para o Dylan, ou seja, o apertar de mão de duas formas muito próprias do vazio. O problema desta forma de analogias, é que, estando o Donald para o Dylan, também o Saramago teria estado para a Clinton, e isto começa a aproximar-se muito da realidade, já que radiografa a contemporaneidade americana, do mesmo modo que, ao longo dos tempos, o Nobel da Literatura nos foi revelando o relatório clínico da sua longa agonia.

Há muitos que preferiram lançar o Dylan no anedotário, mas o Dylan é uma coisa séria, aliás, ele é rosto de um estado de coisas muito sérias, tal como o Trump é a cara chapada de um certa seriedade do estado atual das coisas. Tudo o resto é axiomático, já que a morte da Literatura conveio muito bem à morte do Nobel da Literatura, depois de um processo em que o próprio Nobel procurou adiar a sua morte, aliando-se a alguns escritores, para depois se ter o inverso, com alguns escritores nado-mortos a procurarem no Nobel um impossível fôlego para a sua triste agonia, para chegarmos ao presente estado das coisas, em que este duplo velório mais não pode ser adiado.

Acontece que, como não sou pessimista, e a análise da coisa está mesmo num impasse, é importante que se lhe traga uma grelha mínima de leitura, e retomamos, ninguém duvida do estado moribundo da Literatura e do estado ainda mais moribundo do Nobel da dita cuja, e, não duvidando deste estado de coisas, era urgente que algo se fizesse, e assim se fez, atirando-se o prémio numa direção imprevista. A Academia fez o seu coming-out, e deu um salto kitsch, numa direção francamente hyppie. Mais friamente, e como caminhamos para uma Nova Idade Média, cheia de Webs Summits, onde a narrativa dos artefactos traz muito mais imaginação do que todos os milénios da Literatura -- sobretudo quando nessa literatura, como o Saramago, nenhum milénio estava guardado para qualquer poesia ou imaginação, -- a Academia resolveu atribuir o prémio a um bardo, relembrando que, nos anos da outra Idade Média, também a voz literária gravitava entre lugares da luz, só mantida pela voz dos trovadores, e aqui regressamos ao tema central, em debate nestas presidenciais, o próximo regresso à nova Idade Média.

Para os apologistas de que os políticos mais não são do que fantoches nas mãos dos interesses que os colocam lá, lanço agora o desafio de acreditarem piamente nas suas palavras, e olharem com os próprios olhos da sua perspetiva, na direção de Trump e da Senhora Clinton, já que, numa forma aguda, eles não representam mais do que o estado previsível dessa infeção. Para os seguidores de debates -- eu continuo a preferir os combates tradicionais de gladiadores --, esquecidos de que aquilo mais não é do que uma forma não muito sofisticada de entretimento, deve ter sido interessante perceber as jigajogas que estavam por detrás de um e de outro, sendo talvez a maior curiosidade destes eventos que, num puro desespero de causa, a viuvinha Clinton tenha desistido de defender qualquer ideia, e acabado a dizer que mais não era, afinal, do que o bastião final de defesa do atual estado de coisas.

Curiosamente, esse é o maior capital do Trump, uma personagem que se pensaria impossível, antes de termos assistido ao Putin, ao Barroso, ao Erdogan, ao Kim jong e a uns quantos outros que agora se instalaram pelos vários pelouros da contemporaneidade, já que, de cada vez que a outra se arroga vir, para defender todas as coisas tal qual como estão, imediatamente engrossam as fileiras dos cada vez mais prejudicados pelo establishment, e são muitos, e todos frutos das muitas facetas de tal estado insuportável de coisas. Trump é o Ronald Reagan possível de hoje.

Atrás, enganei-vos, quando vos disse que a Literatura estava morta. Não está, apenas mudou de palco, e escreve e continua a escrever, como eu acabei de fazer, e durante mil anos ela fez, rabiscando glosas e escólios na margem dos pergaminhos. Vocês caíram no erro e leram, validando a minha tese, e assim impugnando dylans, nobeles e saramagos, e assim vamos continuar. Creio que do desastre Clinton/Trump igualmente emerge uma leitura fria, que é a da agonia da Política. Depois de terça-feira, é provável que também regresse à margem dos pergaminhos, em glosas e escólios, queira lá isto dizer o que quer que seja. 


É óbvio que os perfis radicais podem ser perigosos, e, sem chegar a perorar, como certas cassandras, que é da massa dos Trumps que sempre se fizeram os hitlers, a verdade é que sempre foram as massas das clintons a permitir, no limite, que emergissem cada vez mais trumps, e eles são hoje, como se sabe, mais do que as mães. Está por comprovar que da massa das clintons emerjam quaisquer hitlers, mas não podemos dizer que dessa água não beberemos. Na verdade, as bolsas não têm hoje qualquer paciência para hitlers, e os catalisadores são-lhes indiferentes, desde que não colidam com a lógica dos mercados: quem se lhes oponha surge e evapora-se em dois dias, como os palermas do "Brexit", e este é o verdadeiro prognóstico da Era Trump, uma coisa que aí vem, independentemente do Trump. Depois de terça feira, iremos ver como é fraco o ladrar de qualquer político, perante as vozes de fundo das correntes que os mandataram, ou, mais frio do que isto, como essas correntes já podem prescindir do ladrar dos políticos para fazerem ouvir diretamente as suas vozes.



Aparentemente, tudo indica que o paradigma pós industrial está a querer mostrar, em direto, que já não precisa mais de atores públicos para se fazer representar social e politicamente, e isto é um ato profundamente político, já que terça irão eleger um balão vazio, perante uma plateia que está no mesmo estado do "À espera dos Bárbaros", do Kavafys, que nunca teve o Nobel. A isto chama-se "Era Trump", cuja maior encenação cenográfica, e preparação, tem sido, com bastante sucesso, o Daesh dos subúrbios.



O final deste texto é técnico. O sistema eleitoral americano -- que, no fundo, irá aproveitar esta oportunidade para mostrar que, contrariando tudo o que escrevi atrás, felizmente está vivo, mas na peculiar maneira -- assenta numa sólida topologia de alternância. A grande lógica do seu modelo matemático é uma invariância global dos ciclos de sístole/diástase, o que, trazido para a linguagem política, fala de uma estabilidade do modelo de sucessão entre períodos democratas e períodos republicanos. Por outras palavras, é o ciclo de alternância que é imutável, e são apenas os seus protagonistas que vão variando, assegurando sempre o mesmo programa eleitoral, petróleo, fabrico de armas e status quo. Os eleitores limitam-se a validar vagamente um xadrez de colégios eleitorais, e a isto se chama por lá democracia. A última demonstração da frieza deste sistema revelou-se quando Bush, a quem tinha sido incumbida a Missão Nine Eleven, teve mesmo de vencer Al Gore, independentemente da contagem local dos votos. Se é certo que este mesmo modelo revela algumas exceções, elas estão sempre associadas a períodos fortemente atípicos, que é o que aqui nos interessa, já que esta eleição, em novembro de 2016, apenas nos vai dar o sinal de estarmos perante um ciclo de estagnação, ou de necessitarmos mesmo de uma emergência de rotura, capaz de inverter a lógica do ciclo. Deste modo, creio que nos devemos serenamente concentrar em apenas três questões: "processa-se esta eleição num período de tal modo crítico que o ciclo de alternância se veja coagido a alterar-se momentaneamente?"; "É a Senadora Clinton de tal modo extraordinária que permita uma extensão anómala do ciclo democrata?" e "É Donald Trump realmente tão mau que mereça destruir a própria lógica profunda da alternância?".

Se respondeu uma vez "sim" a pelo menos uma destas questões, eu, e todos nós, já ficamos imediatamente a saber onde o meu caro leito iria votar. Pela minha parte, e sem querer ser pessimista, prefiro continuar a responder "não" às três questões, sendo certo que também não voto, nem quereria, num cenário destes. Certo é que todos nós, na próxima terça feira, nos iremos espantar com mais uma irónica solução da História.

Lá estaremos para ver, companheiros :-)




Quarteto da Era Trump, no adormecido "Arrebenta-SOL", no "Democracia em Portugal", no "Klandestino" e no "The Braganza Mothers"

sábado, 2 de abril de 2016

Daesh in the sky with diamonds





Dedicado ao soldado Alex Pushin, que nos devolveu as primeiras flores de Palmyra




Agora que o filme está a chegar ao fim, o Obamismo nada conseguiu produzir, exceto Donald Trump. É justo, por que a eleição de Obama sempre teve um programa de marasmo previsto, e Trump é uma forma de marasmo como qualquer outra, talvez com a diferença de que mais vale um Donald Trump do que o Obamismo ter parido coisa alguma, e arriscava-se agora a chegar ao fim, deixando-nos de mãos completamente vazias.

Semelhante ao Obamismo, só a deriva, rezam os livros de História, de Jimmy Carter, fraca figura, que, na segunda metade dos anos 70, deixou o Mundo à beira de cair nas mãos do Império Soviético: nunca Moscovo chegou tão longe, com a conquista da Indochina, a queda do Negus da Abissínia, uns grupelhos vermelhos a incendiarem a Península Ibérica (então, uma "geringonça" monopartidária, para quem se lembre...), uma Grécia à beira do soviete, uns acidentes pelas Caraíbas e o Afeganistão, finalmente, onde os porcos pós estalinistas se afundaram em miséria, como todos os invasores se tinham afundado, bem antes deles. Pior do que isto, só os solavancos maoístas e os gritos de perfeição do gueto albanês. Naquele tempo, se aquilo não era o fim, então, o que seria o fim, mas mais iria haver para ver.

Graças à Apple que a versão presente é mais iPhónica, e o preto americano é uma loa bem diferente da coisa sinistra que foi Ronald Reagan. Como diria Aristóteles, a velhice está para a juventude, tal como o crepúsculo está para a manhã, e assim estará Trump para Obama, como Reagan esteve para Carter. No final disto tudo, também há, e sempre houve, um títere Putin, com esse ou outro nome. Há quem lhe chame analogia, mas eu prefiro acreditar que é bem a voz de Spengler a falar da bela Decadência do Ocidente.

O Ocidente escolheu decair de formas diversas, e algumas delas inesperadas. Roma, quando soçobrou, transformou-se num subúrbio; o Ocidente preferiu acabar numa epopeia de suburbanos, gente gira, na ótica da Teresa Guilherme, gente fatal, na ótica dos poucos, que, como eu, estamos a viver a coisa na sua inevitável literalidade.

É inevitável que voltemos a Bilderberg e ao seu programa de "normalização" pela base. Com Bilderberg, apenas tenho um ponto de contacto e uma única coincidência, a de que o Mundo está superpovoado, e superpovoado por representantes da espécie cada vez mais desinteressantes e perigosos. Infelizmente, as religiões, que se apresentam sempre como tão sábias, foram sistematicamente incapazes de girar a chave do problema, através da enunciação de um simples "não procriarás"... De aqui deriva, embora não se ouse estabelecer a conexão, que a tão falada inevitabilidade de uma geração inteira a ir ter de viver pior do que geração que a antecedeu não é mais do que uma resposta dos programadores dos figurinos do Mundo a esta cultura do enxame multiplicado num mundo despovoado de recursos. Os sensores estão todos em sintonia, e há uma lógica do senso comum que realmente conflui numa conclusão inevitável, a de que a desenfreada multiplicação da espécie humana, uma das espécies mais tóxicas do planeta, é incompatível com uma igualdade de posse dos meios. Por outras palavras, chegamos à axiomática de que já não chegaria uma Terra inteira para produzir os bens do fascínio das grandes ilusões destas massas todas.

Mais interessante do que tal evidência é se terem tornado esquivos os corolários do anterior, já que, se as coisas não chegam para todos, então, a quem chegarão, e a resposta é extraordinária, posto que se não rege por um princípio do mais apto, mas pela lógica de Bilderberg, em que sobreviverão os piores, ou para dar rostos às coisas, sobreviverão os protagonistas e finalistas dos reality shows da, e vou repetir, Teresa Guilherme.

Como já deverão ter percebido, a Teresa Guilherme é aqui completamente irrelevante, já que ela não passa de uma espécie de Wally de todas as teresas guilhermes deste mundo. Ela não é mais do que um bodisatva de um budismo perverso e imprudente, que prega o desprezo por todas a regras do mundo e um salve-se quem puder assente nas volatilidades de um corpo com uma semivida de vinte anos, e dois ou três orgasmos falhados no chuveiro. Na realidade, esta insuficiência na posse plena de todos os recursos do planeta é espantosamente resolvida numa oval forma colombiana, do já que eles não podem ter tudo, e não podem desconfiar de que tudo já não é possível que esteja na posse de todos, então dêem-lhes o onírico às postas, simplesmente, invertendo a lógica do indispensável.

Esta gente foi filha de uma gente para quem a educação, o emprego, os cuidados de saúde, o estado social, as reformas e a estabilidade na velhice eram os pilares maiores de uma aventura da finitude. A grande aposta dos sabotadores do Mundo foi diminuir-lhes a esperança de vida, acenando com as glórias do êxito fácil, e os quinze minutos de fama do Wahrol, os quais foram esticados durante meses, a baixo custo, piores expectativas, e plena intoxicação da TVI: só tatuam os braços do cotovelo até às mãos aqueles que sabem que isso vai contra uma política de certos empregos e castas, e essa mimese é própria daqueles que subliminarmente já estão a ser preparados para a exclusão. Também a saúde não é importante, por que as doenças são problemas da velhice, e a velhice é um horizonte quimérico, uma coisa de que falam os avós, avós que nós nunca seremos, mas dos quais tanto continuamos a depender, durante os curtos anos da nossa sobrevivência.

Curiosamente, e por um princípio de entropia, este empobrecimento em massa repercutiu-se a montante, afetando a geração anterior, forçada a sustentar esta massa enorme de desempregados, de desapossados do teto próprio, e nos quais é sistematicamente necessário injetar os capitais que permitem os sinais efémeros de sobrevivência: a representação social das roupas, dos eventos musicais, das discotecas, e da troca, segundo a moda, dos tablets e smartphones, e a droga, necessária à permanente anestesia. É um interminável narcisismo, afundado no vazio, na virtualidade e no combustível das substâncias. Vales e és o tamanho do teu Facebook. Tudo o resto se tornou irrelevante, e não integra a cultura da deseducação. Desde que os pais paguem, os filhos podem concentrar-se na posse dos poucos objetos que os validam na vacuidade contemporânea. Na verdade, nós não quereremos imaginar o que vão ser os filhos destes filhos, criados no caos e na precariedade, mas acreditamos que já virão dotados de um princípio de amnésia, que os fará esquecer de que as coisas nem sempre foram assim. No final disto tudo, estará uma guerra, entre os que ainda têm e os que nunca tiveram, entre os que ainda se lembram e os que já não guardam memória, e, sobretudo, entre aqueles que vivem do não esquecimento e os que sabem que o registo da memória é um incidente letal. A violência começa no estádio, e estende-se até Palmyra. E é aqui que chegamos ao ponto essencial deste texto, já que nós viemos aqui para falar de guerra.

Sendo a História perigosa para estes sistemas, é fundamental que regridamos no tempo, e regressemos à memória, ou seja, ao ponto em que, historicamente, este cenário foi manipulado, para chegar à desagregação que preparava. Não voltaremos a falar das derivas neoliberais, por que são já do senso comum, mas importa recordar que esse é o big bang do colapso presente, ditado pela irracionalidade do salve-se quem puder, mesmo que, no final, ninguém se chegue a salvar. Esse é um dos cenários de Bilderberg, ditados pela lógica do extermínio, e nós vamos alegremente nessa direção.

O princípio do empobrecimento global, que entre nós teve muitos rostos, gera imparidades crescentes, já que a lógica do pântano não é sincrónica com o afundamento de todas as camadas da sociedade. O subúrbio da exclusão, com o seu princípio de reconquista dos centros abandonados, é uma das maiores glórias desta nova idade média: começou-se por caçar os picas e acaba-se a decapitar no teatro de Palmyra.

A falácia seguinte assenta na representação, e nos valores visuais da representação, já que a lógica do subúrbio tem heráldica, uniforme e ritos: ninguém, melhor do que o neoliberalismo, importou para os cânones do visual os estigmas do novo nomadismo: as mochilinhas, os capuchinhos, os óculos escuros, as barbas a despropósito, e a mais recente estética dos pés em forma de martelinhos de cordas de pianoforte, a emergirem na ponta das calcinhas lycradas e apertadas. De aqui aos fundamentalismos das madrassas de Kandhaar e de Fahti é um passo, e este cortejo dos falhados do Ocidente, que invadiram as nossas ruas e praças, nada mais é do que um generalizado cavalo de tróia do nosso colapso civilizacional. Só se espantarão os incautos de que os servos do aeroporto de Zaventem tenham celebrado os atentados de Paris. Toda a superpopulação gera violência. Faltava-lhes ainda o enquadramento religioso, e nisso os bilderbergers falharam, já que não bastou a "geringonça" de dois papas fundamentalistas e um totó para subverter séculos de aggiornamento e laicização. Porquanto todo o empenhamento fanático e a cruzada antierótica de Woytila e Ratzinger não foram suficientes para fazer o Ocidente empolgado atravessar o limiar da jihad. Esse teria sido o cenário de guerra ideal, em que um Ocidente fundamentalizado se apropriasse dos recursos das civilizações vizinhas. Mas, como a guerra era indispensável, foi necessário, encontrar um casulo mais radical, que, impossibilitado de se encostar aos fanatismos sionistas, encontrou bom porto nas derivas ortodoxas do Islão. O Islão não é senão uma segunda escolha de cenário, falhada a tentativa do fundamentalismo cristão. Para aqueles que dizem que o Daesh é um subproduto das políticas de relaxe do capitalismo selvagem tem de se fazer o reparo de que esta gangrenosa infiltração dos tecidos sociais por elementos estranhos e radioativos é, pelo contrário, fruto dos laxismos das culturas da integração e da mestiçagem, os piores flagelos das sociedades rendidas às "geringonças", que, no limite das suas necessidades de defesa, acordam nas formas estranhas dos donalds trumps destes mundos.

Esta é uma guerra que não assenta na posse de territórios, mas na uniformização do pensamento. O seu fim final é o colapso da Democracia e o fim da herança ateniense. Brevemente, que é o hoje já, todos teremos integrado os argumentos das correntes extremistas e totalitárias como postulados elementares das nossas mesas de café. Ao nosso lado, todos os que se sentarem e não partilharem do nosso pensamento estarão ao alcance da rapidez de autos de fé tecnológicos e literais, perpetrados pelos novos escravos do precário e dos 500 €, e imediatamente publicitados no Twitter e no Instagram.

Foi esta cultura nómada da mochilinha obsessiva que nos tornou invisível o bombista suicida do metro de Lisboa. Foi esta cara tapada pelos óculos, pela barba e pelo capuchinho, que tornou o nosso vizinho do lado vizinho do militante do Daesh, encarregado de se vir fazer explodir nas rotundas do Colombo e nos saldos do El Corte Inglês. É o puro triunfo da estupidez, replicado e assistido por milhões, nas cenários da ninfómana, Teresa Guilherme, que marca a irrelevância da educação, e que permite que se tenham dinamitado os templos de Palmyra, tal como se dinamitaram os Budas afegãos. Brevemente, não haverá livros, mas apenas estádios de futebol. Sabemos que o Sr. Balsemão, como muitos, gosta disto e aplaude. Talvez goste menos, quando chegar a vez de ser a sua cabeça decapitada a decorar a capa de alguma edição extraordinária do "Expresso"...



(Quarteto da esplendorosa Tadmor-Palmyra, no "Arrebenta-SOL", no "Democracia em Portugal", no "Klandestino" e em "The Braganza Mothers")