sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015

Teresa Guilherme como campo subliminar de treino do "Estado" Islâmico





Dedicado a Laura "Bouche", como prenda atrasada do seu Lauragenário, e memória do seu estatuto ímpar de única grande bicha portuguesa que andou à porrada com a Teresa Guilherme por causa de um macho, e perdeu. Fosse hoje em dia, e mais uma vez perderia...




Há um estado larvar da Semiótica que diz que os símbolos de inteligibilidade universal deverão ser de imediato acesso aos próprios iliteratos, o que, naquela dinâmica própria destes fenómenos, implica que aqueles que não conseguirem chegar lá com o intelecto, ou com a sensorialidade dos olhos, deverão, pelo menos, estar permeáveis ao seu impacto subliminar.

Como esgoto, a "cultura" contemporânea portuguesa, estrangulada entre saramagos, joanas vasconcelos, cristianos ronaldos, marizas, gatos fedorentos e juliões sarnentos necessita, pelo princípio do "panem et circenses" de poder alcançar todos os círculos do seu dantesco onanismo, sendo que os patamares mais baixos, por um princípio trismesgístico, deverão obter, na devida proporção, um grau de satisfação idêntico ao dos superiores. Chama-se a isto o socialismo do paupérrimo. Acontece, que na realidade, este postulado é falacioso, posto que a qualidade do engano e a miséria do produto é comensurável, em todos os estratos, acontecendo não ser isso o que move esse texto, pelo que apenas fica na forma de pista.

Teresa Guilherme tem algo de extraordinário, ao ponto de ter conseguido introduzir, no sacrossanto tripé salazarista, do Fado, Futebol e Fátima, uma nova premissa, na forma pleonástica de si mesma, o que, implicando aristotelicamente que duas coisas não podem ocupar simultaneamente o mesmo lugar no espaço, ela imerge numa certa indefinição quântica dos novos "quarks" desta merda, que, caleidoscopicamente, permitem que enunciemos Fátima, Futebol e Teresa Guilherme; Fado, Futebol e Teresa Guilherme, ou ainda Fátima, Teresa Guilherme e Fado. Num tom de piada para físicos, Teresa Guilherme está dotada de um spin próprio, obviamente fracionário, que, à la limite, permite que a declinemos como uma nova trindade, eventualmente a que mais me agrada, já que odeio Fátima, Futebol e o Fado me inspira pouco, como Teresa Guilherme, Teresa Guilherme e Teresa Guilherme, e aqui chegamos à confluência sociológica da coisa, que é o que realmente me levou a delinear esta farpa.

Platonicamente, o discípulo de Sócrates  -- salvo seja... -- pretendia que toda a nossa vivência sensorial não fosse mais do que uma reminiscência das coisas perfeitas, arquetipicamente armazenadas na Caverna. A trilogia, Teresa, Teresa, Teresa e Teresa Guilherme, como uma espécie de fusão sincrética da abjeção fletida por Fátima, Futebol e Fado, conseguiu, e é isso que é extraordinário, já que enformou todo o Cavaquistão, enquanto tempo passado, presente e futuro, e conseguiu que toda a nossa Caverna Platónica confluísse na "Casa dos Segredos", ou seja, tudo o que depois dela vivenciemos nada mais é do uma pálida sombra de todos os esplendores que ali se reúnem, reuniram e reunirão.

Para mim, um cético absoluto, totalmente indiferente às vicissitudes e oscilações do tempo presente, não deixa de ser extraordinário que toda a estrutura milenar, elegantemente geométrica, do "Timeu" e dos seus poliedros axiomáticos tenha sido imprevistamente substituída por uma prateleira de lêndeas, as quais a Demiurga, Teresa Guilherme, conseguiu sucessivamente fazer passar do Informe à Forma, e da Forma ao Sentido, conferindo-lhes um verdadeiro estatuto de Universais, se não, mesmo, de Transcendentais.

Pela lenga lenga teológica cristã, seria pressuposto que a Criação fosse feita à imagem e semelhança do Criador, o que conferiria uma dimensão de excecionalidade ao pequeno palco de marionettes, no qual ela se especializou. Na realidade, a própria estrutura topológica da Teresa Guilherme apresenta algumas particularidades e pontos de estabilidade que a tornam notável. Ao contrário daqueles célebres concursos de misses, que caíram em desuso, por todas as gajas se terem hoje tornado reles e galdérias, e onde imperava a aritmética das medidas do peito, da cintura e da anca -- a centimetragem da mulher-objeto... -- Teresa Guilherme, a Mulher Demiurgo é socialista, ou seja, ela consegue ser igual em todos os seus números e termos. Por outras palavras, syrizou. Para reencontramos tal cânone, teríamos de recuar ao Período Saíta, e aos sacerdotes cubos da XXVI Dinastia, onde a Sabedoria assentava nesse cânone monolítico, de dimensões idênticas.

Tornando a coisa ainda mais epifânica e teológica, a Teresa Guilherme é como a Jerusalém Celeste, igual em comprimento, largura e altura, o que faz dela, para além de uma referência do Dogma, uma potencial referência da Física, que só pecou por ter nascido dois séculos depois de Napoleão.

Na verdade, esta indistinção entre dimensões, com as mamas em fusão topológica com os ombros, as tetas, enquanto cu metafórico, o umbigo semanticamente confuso com os buracos procriativos e as narinas, o colo do fémur a articular simultaneamente com as cervicais e com o cóccix, e o esterno feito numa espécie de garrafa de klein clavicular, entre dobras, pregas, atalhos dérmicos e confusões epidérmicas, enfim, ce bouillon Guilherme, essa sopa de pedra da anatomia disforme, que faz dela um Witkin vivo, ou sonâmbulo, numa peluda, depilada e de cerdas frisadas, na verdade, este ser perfeito do Intelligent Design estaria pronto para representar o metro padrão, muito melhor do que aquela barra de irídio-platina, que pretendia incarnar a décima milionésima parte do quadrante de um meridiano terrestre, coisa pouca, para ela, muito mais habituada a medir o mundo em jardas de picha de Matosinhos, Gaia e Trofa, e outros recantos afins do rebotalho nacional, onde ela se espelha e identifica, e muito mais perto da versão seguinte do mesmo comprimento, desde então, equivalente a 1 metro, percorrido pela luz no vácuo, durante o intervalo de tempo correspondente a 1/299 792 458 segundo, o qual, posteriormente adotado, se posicionou, porventura, muito mais próximo do tempo médio que ela leva a aviar as jardas anteriores,
mas

lá vamos,
posto que ainda estou a perorar aqui sobre a métrica e a quântica, em que ela poderia ser infinitamente mais útil, uma espécie de -- outra vez -- protótipo de irídio-platina de peso equivalente a um litro de água, sendo que para ela, quilograma ou newton são coisas totalmente indistintas, posto que Newton lhe agrada muito mais, por se assemelhar a um daqueles nelsons tatuados que, à falta dos Judocas da Universidade de Braga, ela costuma seriar, para ocupar o antro da sua teia, e aqui vamos começar a falar a sério, por que o grave da coisa não está na sua possibilidade, univolúmica, e indistinta, de poder ser padrão, mas no poder de ter padronizado uma espécie de vazio social, cultural e de relações, que contaminou, distorceu, perverteu e gangrenou todas as possibilidades de uma geração, já de si, fortemente fragilizada, pelas más influências de Cavacos, Lourdes Rodrigues, Cratos, Poiares Maduros, Carrilhos e anomalias afins. Reduzida, pela Crise, aos arredores e subúrbios literais ou figurados do nosso tempo, assim como uma prodigiosa máquina de gestão do Vazio permitiu a confeção de uma fatura nula, como Cristiano Ronaldo, seria necessária toda uma parafrenália de modos de sucesso abaixo, impedindo esta massa bruta de investir diretamente pela brutalidade e transformar as nossas ruas em Donetsks generalizados.

A verdade é que num país inibido, pelas suas próprias insuficiências, de criar Valentinos, Boss ou Armanis, o padrão Teresa Guilherme, do vigorético disforme, tatuado, com um ninho de cuco rapado no alto da cabeça, como forma envolvente do meio neurónio interno, vingou, e os sucedâneos desse novo platonismo alastraram, quer na forma, quer no comportamento, por tudo o que é beco, subúrbio ou vão de ginásio. Tudo isso é irrelevante, uma vez na posse da chave do processo que se deve medir a duas velocidades, a primeiro, como defende Prigogine, que a gaja, num tempo indefinível, os acabará por aviar a todos, e, se não os aviar no ato, os aviará mesmo, nem que seja só em potência; o segundo, de impacto social alargado, que o modelo de vazio fabricado no seu Antro dos Segredos, num outro tempo, acabará por alastrar a todo o desvitalizado tecido social desta ruína nacional, substituindo qualquer diversidade pela uniformidade guilhérmica. O guilhermismo formal, não fosse Marcuse um pulha idêntico ao pulha Carrilho, teria aqui, por fim, uma hipóstase do Homem Unidimensional, ou no vernáculo guilhérmico, o Suburbano Unidimensional. Teresa Guilherme é a autora sinalizada daquele disfarce perfeito com que o fundamentalista de cinto bomba um dia inesperadamente se fará explodir entre nós.

De novo, tudo isto seria irrelevante, se não fosse neste cadinho instável que o chamado "Estado" Islâmico, uma espécie de claque pinto da costista alargada, veio recrutar toda a espécie de facínoras, assassinos e marginais da contemporaneidade, e aqui teremos de relevar de outra métrica, de modo a tornar inteligível o paradigma, em toda a sua mediocridade que envolve as chamadas barbas de três dias.

Na mundividência, na qual me não incluo, dos ginásios, da promiscuidade e da vigorexia crónica, as pelagens do queixo -- tal como as tatuagens passaram a ser as novas epifanias dos triângulos auschwitzianos daqueles que Bilderberg exterminará, na hora de ser pressionado o botão do extermínio -- também, repito, as barbas de três dias passaram a integrar uma semântica elementar do duche, em que o macho mostra que está recetivo, para se tornar no vas indebitum da luxúria do duchado do lado, ou, abandonando o refúgio latino, o macho que ali está a dar músculo à fêmea que transporta dentro de si, está finalmente preparado para soltar a Sombra de Grey de si mesmo, e entregar o seu ponto G ao estímulo do macho de barba de três dias mais perto de si.

Evidentemente, explicar isto à tribo de anormais com que diariamente nos cruzamos, e para quem a Casa dos Segredos se tornou no Arquétipo do Sucesso seria tarefa tão inglória e votada ao fracasso, como tentar discutir Relatividade com a Clara Pinto Correia ou o João Galamba, mas também isto, para vosso descanso, é aqui totalmente irrelevante, já que podemos fazer uma époché sobre o conteúdo, e apenas nos ater aos contornos da forma: acontece que esta tribo, multiplicada por mil, dos retardados de subúrbio, aos quais juntamos a moda das barbas de profeta, de quem sente a insegurança da virilidade a tal ponto que tem de exibir permanentemente uma pintelheira no focinho, se tornou numa espécie de cavalo de tróia dos maiores riscos da contemporaneidade. Na verdade, o hiato epistemológico entre cada um desses trastes, teresa guilhermados, e as fuças dos assassinos do ISIS é tendencialmente nula, o que mostra que o padrão introduzido pela ninfomaníaca da TVI se converteu insidiosamente no modo mais perverso de podermos ter, entre nós, e já permanentemente infiltrados, potenciais terroristas, prontos para perpetrar um qualquer atentado, sendo a sua inversa igualmente verdadeira, ou seja, não ser preciso qualquer arranjo, para os podermos exportar diretamente, em massa, de Mem Martins, da Trofa ou de Caxinas, com a cabeça cheia de carros transformados, pastilhas, repetências, super-dragões e rastejamentos de Fátima, para as montanhas sírias.

A coisa poderia esgotar-se aqui, e ficar pelo humor, mas, uma vez que o Ocidente está em guerra, contra uma das formas mais profundas de barbárie com que nos confrontámos, desde o Nazismo, e como se torna necessário aprender a responder, à maneira israelita do olho por olho, dente por dente -- única linguagem que esse lixo humano compreende -- talvez lhes devêssemos enviar, por cada novo refém decapitado por um suburbano espanhol, português, ou inglês, a imagem da hidra decapitada, a própria Teresa Guilherme, em si mesma, de pescoço cortado pelo Carlos -- o tal que "roça o suor" numa das suínas que por lá anda --, ou, talvez, para ser ainda mais mediático, entregar-lhe o pescoço sapudo à fúria fundamentalista do Fábio Poças.

Há nisto, talvez, um pequeno senão: como já nada a satisfaz, ainda corríamos o risco de que se viesse toda, e em público, como adora, a ser degolada em pleno horário nobre...



(Quarteto da Decadência do Ocidente, no "Arrebenta-SOL", no "Democracia em Portugal", no "Klandestino" e em "The Braganza Mothers")

sexta-feira, 30 de janeiro de 2015

Persona, ou o fim despersonalizado dos Regimes






É consensual a ausência de humor, em Portugal. A mais acabada prova provada desse fracasso cultural é o sucesso que um fragmento presencial de um oligofrénico, Hugo Rosa, atropelador de todos os valores, incluindo o do direito soberano à inteligência, possa agora estar a gozar, no Youtube das últimas semanas. Como hoje se diz, a estupidez tornou-se viral, ou pior do que isso, agarrou-se ao Princípio de Peter e passou a dirigir a própria Televisão.

Para quem conhecesse esses mesmos gajos das "Produções Fictícias" e as suas célebres pielas, mescladas de conas de pretas, nas altas horas das "Docas", em paridade com o inapto Passos Coelho, ainda não Primeiro Ministro da Cauda da Europa, mas já no limiar do coma alcoólico, a coisa seria surpreendente, mas realmente não me surpreende em nada, habituado a um país onde os esgotos correm, não para baixo, mas para cima.

Como dizia o outro, o Humor não é inefável, mas físico e corpóreo, ou seja, exerce-se sempre CONTRA alguém, e Portugal, idiossincraticamente, não suporta que ninguém do seu miserável imaginário possa ser posto em causa: isso perturba o estado das coisas, e syriza a calma podre das almas medíocres. A esta altura estarão a perguntar, por que é que este, com o Mundo no estado em que está, vem aqui  falar de Humor, mas eu não venho falar de Humor, mas sim da Estupidez, que é uma das faces do estrangulamento da coisa humorística, e pode ser o cenário da própria morte, como essa patética encenação de "Charlie", o qual, como o perfil incómodo das Twin Towers, foi arredado, à bruta, do horizonte.

Na verdade, este era um texto de 2014, que foi forçado à lista de espera, pela premência do horror de Paris e da lufada de ar fresco de Atenas, e vem agora, buscando como contra exemplo da crítica que fiz, uma escrita de enorme qualidade, cujo alvo é aquela degenerescência cultural que dá pelo nome de Letizia Ortiz, uma oportunista, que se pendurou, aliás, mais propriamente, que se pilar del riozou na Monarquia Española. O texto é tão bom, naquela sólida veia das cantigas de escárnio e mal dizer, que quase me apetece transcrevê-lo, em vez de o glosar, mas vamos à glosa, para que todos possamos participar.

Começa assim: "Letizia Ortiz Rosacolano é uma anorética que ganhava a vida de "periodista" junto de Urdaci, até que se converteu, pelo matrimónio com o herdeiro da Coroa de España, na Princesa Herdeira Consorte do Reino de España. Fizeram-lhe uma transfusão e passou de pura plebeia de esquerda e "porreta" a ter sangue azul "y a creerse sandiós". Hoje em dia é mais monárquica que Felipe, e isso criou muitos anticorpos".

Evidentemente que só um princípio de isomorfismo poderia encontrar uma operacionalidade entre a cáustica introdução anterior e um casamento contra a natureza, que uniu a hiena Carrilha e a hiena Guimarães, com aquela célebre metamorfose que faz com que, no falecimento do macho, uma das fêmeas desenvolva o pénis, para cumprir a fecundação. Claro que o isomorfismo é flácido, mas também o é o pénis, e nós, cá, somos mais modestos.

Segue o texto: "desde que Letizia se casou com o príncipe, operou-se tanto que se acredita que até consiga bater o recorde de Michael Jackson", embora pensemos que a sua estrutura óssea e a resistência dérmica a tanto não permitam e algum melanoma subitamente lhe interrompa a metamorfose, alheia a Kafka.

O passo seguinte da biografia é um da capo, construído, em espelho, como a Matthaüs Passion, BWV 244, e recorda, "quando nasceu, os médicos pensaram que a sua mãe tinha parido um nariz gigante, para lgo se darem conta do erro, já que atrás vinha uma menina com cara de cavalo...", e chamo a atenção para este episódio comovente, que prova que as cosmogenias têm sempre traços comuns, e esta epifania tanto se podia aplicar a Letizia Ortiz como a Camila Parker-Bowles, o que é uma das provas cartesianas da existência de Deus.

Parece que a este nascimento se sucedeu o desovar de duas outras bucetas, Telma e Érika, sendo que a última "murió a los 31 años de edad por ingestión masiva de un fármaco", dor só com paralelo com a partida para o Aquém de Margarida Marante, na forma da Maragreta Marada da queima cocada.

A parte fulcral vem agora, já que eu não estaria, sequer, a abordar este tema, caso o ex marido não tivesse, depois de um longo silêncio, que eu, um otimista, tenha pensado ser devido à Razão de Estado, mas poder não passar, afinal, de um passo do crescente leiloar de valores, que agora terão atingido os patamares pretendidos por Alonso Guerrero, para publicar as memórias dos 10 anos em que andou a pernoitar na boca da servidão da Consorte de España. Eu sei que os números espantam, não os associados aos direitos de autor dessa década escabrosa, mas sim a que, entre o casamento com o Jumento das Astúrias e a atualidade tenha havido espaço para um matrimónio de uma década. A verdade é que esta Bárbara Guimarães da Meseta Ibérica se enfiou debaixo do Professor de Literatura do Instituto Alfonso II aos 16 anos (!), o que diz muito sobre as perturbações emocionais e as ambições da anorética, Letizia Ortiz. Que a encornada estivesse grávida, e Alonso Guerreo a tenha deixado prenha e de peles descaídas, para montar a futura Reyna de España pouco conta, já que a generosidade dos pais de Leti -- é assim que a tratam -- tenha decidido albergar a pequena puta, o professor Der Blaue Engel mais o par de cornos da abandonada.

Até à próxima publicação do diário de Guerrero, pouco se sabe sobre este idílio de 10 anos, se excetuarmos que se revestiu do típico episódio de posse de drogas, para a constipação, e descambou num típico aborto, o que faz com que as infantas pálidas e goyescas dos Borbón tenham, algures, lá no céu das alminhas pardas, um pequeno morcego, aliás, morcega, aliás murcièlaga, arrancado com agulha de croché, do abençoado ventre de sua mãe, inveterada parideira de fêmeas, e, contornada a Lei Sálica, etérea herdeira, in partibus, do Trono Bicéfalo de España.

Passou, depois, pela sua fase Clara Pinto Correia, quando "se fue a hacer un Máster a Mexico y entre mojitos e tequillas, se lió con el dueño del periódico Siglo XXI", uma espécie de "Expresso" sem "Visão" de aqui ao lado. Foi, nesses entretantos, musa do pintor cubano Waldo Saavedra... e.... e... não, estão enganados, não lhe fotografou os orgasmos, mas "expô-se-a" toda descascada num quadro, escarrapachado na parede de um restaurante duvidoso, até acabar como "imagen promocional de uno de los discos del grupo Maná", e aqui, surpreendam-se, ao contrário da alcoólica da "Lusófona", todo este trajeto "le llevó a no terminar el doctorado", onde se prova que entre abrir as pernas a velhos e concluir doutoramentos não existe, propriamente, um coeficiente de correlação, por muito que tal espante o Carlos Moedas.

Há todavia, semelhanças: enquanto a outra, na forma de um adeus princesa da puta que a pariu, aviava todos os alemães da extinta Base de Beja, já a Letizia marchava para o Crescente Fértil, uma espécie de Florence Nightingale do ovário de eva, que se estendia para "una tórrida aventura con un militar americano destinado por aquellos desérticos parajes".

As carreiras profissionais complementares são, depois, de Lineu, e todas as fizeram na rota horizontal: "a CNN+, um canal privado do Grupo Prisa, no qual se escarrapachou, durante dois anos, retransmitindo as notícias matinais, numa grelha "que empezaba su emisión a las cinco de la mañana, hora mítica que pocos saben si existe". É normal que pouco se saiba disso, exceto que foi aí que Carlos Francino e David Tejera a montaram, bem à justinha, bem antes do noivado com o Garanhão Asturiano.

O resto é Peter puro: já com o noivado em marcha, com Felipe entre o zapping e o fapping (arcaica onomatopeia anglicista para "punheteio"...), galgou para a Televisión Española, no seu "Informe Semanal", galambizando-se para a Segunda Edición do Telediario, e voltando a galambizar-se ainda mais, ao lado de Alfredo Urdaci, naqueles célebres duetos de telejornal da hora de maior audiência. Nada de novo, já que o que pesou nela não foi o "aventalinho", mas a arte de bem abrir as pernas para toda a sela. Poucos se deram conta, aí, de que "la Princesa podría llevar corrector dental para mejorar el aspecto de sus dientes". Nesta fase da sua ascensão meteórica, chamavam-lhe, e bem, "Lecticia, la ficticia".

Aqui é necessário fazer uma pausa, e um ponto da situação, já que sendo "periodista, no estaba preparada para ser reina", muito menos por que "conoció al príncipe Felipe siendo prostituta de lujo [...] com padres divorciados" e ela própria divorciada de um casamento abortado, quer pelo fracasso, quer pelo aborto com que culminara. "Pero ao final, el amor pudo con todo y el Príncipe y la periodista se casaron contra todo pronóstico", e, melhor ainda, "la sentencia de divorcio con el professor de literatura desapareció del registro y se guardó bajo siete llaves y lejos de miradas indiscretas".

Depois de se casar, e como choviam milhões, viciou-se no botox e na cirurgia. "Para disimular la frovolidad dijeron que lo que se hizo fue una intervención de septorrinoplastia con el fin de mejorar sus problemas respiratorios". Não cremos que tal se deva a entupimento de coca, mas, a seu tempo, poderemos consultar o Miguel Sousa Tavares sobre tal temática, já que quem tanto sabe de si, porventura mais dos outros saberá, "pero da risa a pesar que se haya operado con el dinero de sus súbditos y no con el suyo cuando trabajaba de periodista de segunda. Luego le siguió otra de eliminación de bolsas de los ojos, otra de pómulos, aumento de pechos, aparato dental y relleno de ácido hialurónico en cada arruga tres veces al año".

"Si algo bueno se puede sacar de esta unión es que sus genes anulen un poco los genes de los Borbones que hacen que nazcan con cara de retrasados. La primera fue Leonor, luego Sofía de Borbón" e espera-se que mais bucetas se lhe sigam , já que, "actualmente se desahoga con su guardaespaldas, al cual le hace de todo menos la cobra..."

Para extraordinário, nada de mais exemplificativo, sendo que o feito subliminar de tal prosa seja que, desde então, confunda o arquétipo da personagem com a sua satirização: dela, doravante, o que primeiro veremos não será a sua ficção pública, mas o realismo da sua descrição. O mito foi liminarmente trucidado.

Sendo o texto fantástico, e na linhagem da melhor veia do sarcasmo peninsular, cumpre realçar aqui o seu outro intuito, que é uma alegoria do fim dos regimes: assim como as personagens podem ser excelentes, ao ponto de nos fazerem aderir a uma mudança de paradigma, também podem ser tão repugnantes ao ponto de fazerem vacilar o Regime em que medraram. Com Juan Carlos, cheguei, com España, a ser monárquico, para agora me tornar, et pour cause, com Felipe e Letizia, republicano. Já em Portugal, a coisa é ainda mais nauseante, com a fulanização do Regime a poder tornar-se tão atroz através de coisas, como Aníbal Cavaco Silva, a ocuparem a Presidência da República. Mesmo que mais não fosse, por pura higiene, alimárias dessas podem levar-nos a andar às rodas, às rodas, a pensar numa espécie de fuga em frente, para uma qualquer aflição monárquica, mesmo que sem objeto de fixação.

É muito mau, não é?... E é por isto, que, por vezes, nos dá mesmo vontade de syrizar, não dá?...




(Quarteto do fim inglorioso dos regimes, no "Arrebenta-SOL", no "Democracia em Portugal", no "Klandestino" e em "The Braganza Mothers")


segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

Nous sommes Syriza, ou o fim do "porreiro, pá"





Imagem do Kaos




Diz o almanaque "Borda d'Água" que no final da náusea está sempre o vómito. Para o infindável vómito europeu, o fim da náusea chegou agora, por uma mão inesperada, e, hoje, de um extremo ao outro do espetro político, todos estamos a ser, de algum modo, Syriza.

Estrangulada pelos fantasmas financeiros, a Democracia, ou seja, um dos maiores legados da Grécia, ainda os teutões andavam enrolados nas suas fedorentas peles de urso, e confinados à fronteira específica da sua barbárie, chegou a 25 de janeiro do ano de 2015 com uma estranha capacidade de nos surpreender. Não, não se trata de um roteiro construído por cartazes, por comentadores comprados, por professores marcelos, e anões de Fafe, nem por televisões polidas, e por gajas amigadas com produtores, ou "escritoras" de meia leca, com opiniões sobre tudo: trata-se de um povo que se fartou, e vomitou, e, como na catarse, de outro grande grego, Aristóteles, todos nós, hoje, vomitámos, com gosto, e em conjunto, com os Gregos.

Nestas coisas, por que se infiltram primeiro, se instalam depois, e só muito depois as sinalizamos, é um pouco difícil situar onde começou a história. Entre os pessimistas, nos quais não me incluo, embora permanente criador de críticas de teor pessimista, toda a Europa, e o seu projeto já seriam, pelas suas próprias premissas iniciais, um cenário autofágico, do qual a contemporaneidade não passaria, senão, de uma solução dramática, mas determinista, de uma complexa equação diferencial, desde sempre, pela qualidade dos seus coeficientes, sinistramente anunciada. Na verdade, o Sonho Europeu, uma espécie de Estado fluído, com lugar de paridade para todas as nações, é uma utopia de todos os tempos, de Alexandre a Jean Monnet, e a sua doença não é mais do que uma espécie de bernardoeremitismo de alguns parasitas que foram ficando, ao ponto de confundirmos as suas mórbidas tenazes com a ilusão da concha.

Começámos a pensar em Paz e acabaram por nos tentar vender uma confusão entre equilíbrio de contas de mercearia e Felicidade.

Duas guerras miseráveis, a que acrescentaria, apenas por melancolia, uma terceira, que levou a que a Imperatriz Eugénia, horrorizada, fundasse a Cruz Vermelha, e, implicitamente, ditasse que aquilo nunca mais se deveria repetir. Repetiu-se, todavia, e repetiu-se, numa rota de Saturno devorando os próprios filhos, com cada vez maior violência e intolerância, até que se dissesse que teria mesmo de acabar, e acabou, na mais longa paz do Continente, onde a existência de uma macroestrutura converteu os atritos locais em perspetivados cenários regionais.

Talvez essa polifonia seja já a mais importante conquista da Europa, a de que, independentemente dos seus problemas, não voltará a haver rastilhos para afrontamentos globais.

Eu sei que esta frase será penosa para Putin, e incompreensível para o imbecil Obama, que deverá interrogar-se sobre a relação entre o seu Quénia ancestral e a Acrópole de Atenas. A verdade é que não há relação nenhuma, e nunca voltará a haver, pelo, menos até que desapareça do cenário de desastre que consentiu e semeou.

Politicamente, a doença europeia chama-se, hoje, "políticos", pela simples razão de que o bernardoeremitismo da mimese do crime instalado levou a que se chamasse "políticos" a comediantes cuja única função era a de colocar nas mãos de 1% da Humanidade 90% das suas riquezas. Para mais, vinham todos das sarjetas dos maios de sessenta e oitismos, dos maoismos, das repelências da Alemanha de Leste, como a porca da Porteira Merkel, ao volante do Trabant da sua juventus estalinista, e dos cheguevarismos da punheta branda Para mim, avesso a todos os socialismos que não os da paridade pela abundância, todas essas gentes são o meu pior inimigo, e sempre lutei, e lutarei, com as minhas ferozes armas de escrita, ignorando-os, e contrapondo, a cada uma das suas fraudes, a minha meta pessoal de uma democracia aristocratizada. Talvez seja esse o grande sucesso dos textos que escrevo, já que, não devendo nada e a nada aspirando, eles se tornam imposicionáveis, e inerentemente incómodos, mas esse sempre foi o grande trajeto das Culturas, deixando que o Tempo eliminasse o main stream da habituação, para o substituir pelas singularidades da época.

Para trastes como Miguel Sousa Tavares, José Miguel Júdice ou os aleijões de coda dos telejornais, a instabilidade que gera não conseguir situar numa genealogia de subserviências, ou de qualquer expectativa de ganho financeiro, o livre pensamento, deve ser terrível. Para mim, como para todas as novas correntes apolíticas que estão a atravessar a Europa, são puramente um desafio. Jaz a falácia em que, sendo tudo político, toda  a nova política se fará também à margem dos velhos modos. De algum modo, estamos a reviver os fins da caduca III República Francesa, em que se perguntava por que eram só homens de 80 anos que ocupavam os postos decisórios, e a resposta era que tal se devia aos de 90 já estarem todos mortos...

Na Europa contemporânea, a questão é de saber por que é que são sempre os corruptos a ocupar o Poder, e a resposta é que os mais corruptos os já morreram ou ainda estão por vir, e aqui chegamos ao núcleo da questão: Tsipras, a quem o Sistema gosta de apresentar como de "Extrema Esquerda", não é mais do que o extremo desconforto a que a Cidadania chegou, relativamente ao extremo politicamente correto da estagnação. Numa enorme maré de inquietação, todos os badochas televisivos, subitamente tornados em especialistas syrizistas, ou syrizaicos, ficaram muito incomodados com o "para onde" e "com quem" a Grécia estava a ir, esquecidos, na sua imbecilidade menor, de que todas as revoluções se moveram, sempre, mais pela insuportabilidade de um "onde", onde já era consensual não se poder permanecer, independentemente do lugar onde se iria depois chegar. Na realidade, como todos os sistemas dissipativos -- e Tsipras, como Engenheiro Civil, sabe-o tão bem quanto eu -- o abandono das condições iniciais levará inevitavelmente a um estado posterior de equilíbrio, regido pelo Princípio de Curie, com todas as suas simetrias e os seus rastos, embora, e é aqui que a coisa é fatal para o status quo, o reequilíbrio apenas reinstale a sombra das causas, mas contornando irremediavelmente os anteriores intervenientes. Para toda uma corja, supostamente instalada no Fim da História, é justamente esta possibilidade de substituição dos pantomineiros que se torna insuportável, já que a estratégia de décadas foi a de blindar o acesso aos poderes de decisão.

Vista nesta perspetiva escatológica, torna-se claro que um já esteja preso, em Évora, e o outro apenas aguarde o "porreiro, pá" da sua vez...

Já que tivemos de passar pelo fedor desses dois, causa e efeito de coisas inacreditáveis, que nos deveriam chocar muito mais em Democracia, do que as vitórias de Tsipras, ou o desconforto dos Lepenistas e das auroras douradas, como se tornou a moda dos governos não plebiscitados, e dos primeiros ministros contornadores das urnas, mas muito a gosto dos criminosos do Banco Central Europeu, e dos Moedas, por sua vez, ao serviço de Bilderberg e do polvo global da Goldman Sachs, concluamos o resto.

É verdade que houve um momento em que a enorme conspiração internacional sonhou com criar um sistema onde as peças se autoreplicassem e impedissem o acesso de elementos estranhos ao jogo. Aparentemente, em 25 de janeiro de 2015, a Grécia decidiu acabar com esse sistema, dinamitando-lhe os alicerces, independentemente dos efeitos que toda a ruína da estrutura pudesse provocar, e é isso que me está a dar, enquanto cidadão, um gozo supremo.

As chamadas "Extremas", com esta rotura de paradigma, tornaram-se imprevistamente estruturais, e ameaçam converter-se agora na nova espinha dorsal de algo do qual o velho sistema não será, senão, uma periferia, a breve trecho convertido, por inversão, ele mesmo, num radicalismo arqueológico, a que torceremos o nariz.

Com o Syriza, há tão só, o triunfo da Política e da Cidadania, mas não a apoteose de uma cor política, e deve ser isso, entre muitas outras minudências, que angustia os nossos fazedores diários de mentiras.

Descendo das reflexões metaestruturais para a nossa miséria local, mais uma vez, enquanto Cauda da Europa, e permanente -- Fátima, Futebol e Saramago -- lugar de chacina da independência do Pensamento e da possibilidade de genealogias da reflexão, que não passem pelo clubismo, pela imbecilidade e pelo vazio, nos damos conta de ter perdido, mais uma vez, a carruagem da História. 

Eu explico: uma vez syrizada a Grécia, todos os Estados adjacentes rodaram os olhos, em busca do seu Syriza, e por aí andamos, com a España, já na ponta dos pés, a apresentar a sua solução. A nossa, obviamente, não existe, como também não existia o "Charlie Hebdo", mas apenas oscilações entre o caduco "Expresso" e o pasquim do Idolatrário de Fátima, entretidos que andámos com "Livres" e com grupelhos de egos perturbados e onanistas, apresentando escroques, como os "Gatos Fedorentos", ou os muitos rui tavares da nossa mediocridade, como "alternativas", mas sempre "com respeitinho", ou, muito à Portuguesa, "alternativas" que, em momento algum, perturbassem ou colidissem com a paz do Sistema.

Brevemente, seremos sacudidos de fora, e forçados a acordar. Muito melhor do que a vitória do movimento cívico Syriza é, entre nós, e para já, o efeito colateral do óbito, ainda no ovo, do Napoleão de Goa, António Costa. Dos outros, já nem falo, por que há muito que estão mortos, esqueceram-se foi, creio -- não é, Senhor Aníbal, de Boliqueime?... -- de os avisar.


(Quarteto do nous sommes Syriza, no "Arrebenta-SOL", no "Democracia em Portugal", no "Klandestino" e em "The Braganza Mothers")

sábado, 17 de janeiro de 2015

O mono de Cristiano Ronaldo, como mais um dos saramagos da agonia do nosso descontentamento







Pequeno horror deprimente de Ricardo Veloza



A coisa é histórica, e, logo, cíclica: todos os fins de época se caracterizam pela epidemia das efemérides, ou, mais precisamente, quando as civilizações se encontram a chegar ao seu terminus, se afundam na necessidade de fixar a agonia de cada um dos seus passos finais. Na verdade, tal como no jogo da Vida e da Morte, os impérios ascendentes não têm sequer tempo para contemplar os seus rastos: a caminho do Hyphasis, Alexandre -- Eskandar - e Maqduni -- limitava-se a semear, como pegadas, Alexandrias, e nunca olhou para trás, nem quando deixou para sempre Niceia Bucéfala, e entrou para a imortal estrada dos mitos. No seu final, estes mesmos impérios limitam-se a contar migalhas e fundir os últimos bronzes das poeiras que a História rapidamente devorará.

A frase nada tem de novo, quando se diz que a Europa, ou, sobretudo, o Ocidente, estão profundamente doentes. Os episódios "charlies", uma espécie de inventona de 11 de setembro-plus, permitiu enterrar os últimos resquícios de um modo transgressivo de estar na sociedade, e cada quintal se limitará, agora, a fazer as exéquias locais, de acordo com o seu sotaque.  Digamos que foi um atentado conveniente, já que conveio a toda a gente, e até permitiu que fingissem estar todos de luto, depois do alívio de se desembaraçarem de um parceiro inconveniente. Envergonhadito, o país culturalmente miserável, que é Portugal, também teve de dar infinitas voltas à sua minúscula cabeça, para finalmente descobrir que nunca poderia haver cá nenhum atentado "Charlie Hebdo", pela simples razão de que não tínhamos nada com escala e paralelo... Ajustada a lupa, apenas o venerável Vilhena, com a sua memorável "Gaiola Aberta" lá ficou, muito para trás, e só o Kaos, cujo trabalho os mesmos filhos da puta, que agora são capazes de andar de "Je suis Charlie" nas unhas, sabotaram, embora o Kaos seja superior em nível, e já tenha entrado para a História do séc. XXI, numa cronologia apenas comparável com a do Bordalo.

Em Portugal, desde os tempos do Vacão, para não recuar um pouco mais, os males chamam-se, e arrastam-se, com os nomes de Fátima, Futebol e Fado. Ao Fado já ninguém liga, posto que as discotecas e as drogas sintéticas se encarregaram de substituir esse tripé. Há uns lugares de arqueologia, onde os estrangeiros vão dar uma rapidinha, para dizerem que ouviram, e os sucedâneos, como o tal Peixe Panga, envenenado por todo o lixo do Mekong, que há quem coma, nas embalagens do extraordinário fake Marisa -- a tal que odiava Fado -- e da Katia Guerreiro, entre outros monos, alimentados, para os basbaques, a hélio e hidrogénio.

De Fátima não vou falar, embora nesta época de efemérides, o idolatrismo que lhe subjaz tenha sido transposto para a adoração dos cus de bode que infestaram os estádios. E tal como nunca fui a Fátima, também não percebo nada de Futebol, pelo que estou plenamente à vontade para falar de Cristiano Ronaldo, que muitos confundem com Desporto, tal como a Marisa é confundida com o Fado e o Saramago com a Literatura.

Tudo isto já estava previsto em Bourdieu, e no seu capital simbólico, onde é o Poder e só o Poder que classifica os seus símbolos de acordo com a total inexistência de um código de valores, legitimando e reproduzindo uma estrutura social completamente gangrenada. A impossibilidade de crítica permite assim uma permanente parábola de cegos, e todas as suas consequências são imediatamente epigrafadas por outros dois títulos célebres, que não precisam de mais do que serem enunciados para exprimirem tudo o que hoje se passa, a "Era do Vazio", de Lipovetsky, e "A Ascensão da Insignificância", de Castoriadis.

Nesta sequência, entramos diretamente em Cristiano Ronaldo, uma fraude absoluta do nosso pequeno quintal, que se tornou imprevistamente indispensável na retórica e na narrativa dos espaços coletivos mais vastos, da intoxicação dos valores mundiais e suas redes de branqueamento de capitais.

Basicamente, Cristiano Ronaldo, um subproduto dos órgãos de propaganda e da indústria de reconstrução plástica, tem, dentro da era do vazio, e como exemplo da ascensão da insignificância, uma plataforma à la bourdieu, já que que permite, na trajetória de colisão de uma geração completamente perdida, contrabalançar a lepra que se junta ao "Estado" Islâmico, por total ausência de futuro e esperanças, surgindo, como exemplo e farol regulador, de como se pode vir do nada e chegar à posse do quase tudo, através da lei do menor esforço. Do ponto de vista teosófico, Cristiano Ronaldo está no mesmo patamar dos milagres, já que ocorre naquele mesmo eixo sequencial, que, não cumprindo as leis da causalidade, permite que uma causa estranha desemboque numa consequência imprevista. No caso dele, até já teve direito a várias: uma universidade canadiana, na Colúmbia Britânica, onde se ministram cursos  (!) sobre o vazio do "fenómeno" social -- de o maior jogador do século -- e, proximamente, de todos os tempos (!), sendo que, quando se chegar a Marte, o padrão dos descobrimentos também terá as suas iniciais, CR7, como minúsculas dedadas da nossa cegueira, com uma pequena epígrafe gravada em platina ou paládio: "dorme como um marine, come como um menino e treina como um bailarino", ou vice versa...

Probabilisticamente -- mas o que é que uma sociedade doente, como a nossa, percebe de probabilidades?... -- a emergência de um ronaldo é de um para 10 000 000, o que, curiosamente, não deixa que não cumpra, à justinha, o seu papel epifânico e messiânico. Creio que, durante uma década, tal como a hipótese remota de ganhar o euromilhões, serviu para manter entretidos os horizontes suburbanos. Aparentemente, durante um dos maiores desastres do Ocidente, o Obamismo, houve uma súbita rotura de paradigma, e esta mesma sociedade, incapaz, como Roma final, de produzir tecido urbano, começou a ver os seus próprios suburbanos desacreditarem dessa permanente e ansiada expectância do milagre, para partirem, em massa, para realizar a violência  e a vingança, nas terras de ninguém sírias. Acontece que, mais uma vez ciclicamente, como a História, os atuais romanos, fugidos dos seus núcleos urbanos, procurando a calma das periferias, descobriram que era justamente aí que também já estavam instalados os mesmos bárbaros de que fugiam.

Os valores da carnificina dificilmente poderão ser contabilizados, pois só agora começou a matança. Para quem goste de nomes, tem por cá a coisa triste em que se tornou a Linha de Sintra, assim como para mim, frequentador da Francofonia, sei quanto, e há quanto, me são penosas aquelas fronteiras invisíveis dos subúrbios de Paris, ou o horror da Gare du Midi, de onde subitamente caímos de Bruxelas no Magreb. Tudo o que agora está a acontecer não era senão uma questão de tempo.

Para mim, o cenário está traçado. Todavia, para os argumentistas desta gigantesca fraude contemporânea, ainda resta a fuga para a frente, através da necessidade de imortalizar um valor vazio, e é aqui que entra a "estátua" de Cristiano Ronaldo, que, pela sua irrelevância e patamar anestético, não chega a poder integrar o escalão da Escultura. Digamos que é uma -- desculpem o galicismo... -- encombrante piéce de mobiliário urbano, exclusivamente ali posta para perturbar o horizonte, e criar uma massa volúmica, distorçora dos pontos de fuga da paisagem. À cotação do cobre e estanho, aquele lixo, de 800 quilos, poderia andar pelos (5660 + $19325US) x 800. Não me apetece fazer contas, mas façam-nas: pode ser que dê ideias aos ladrões de metais, e nos livre daquele pavoroso objeto.

Num olhar mais demorado, vemos o que parece ser um corpo masculino, com uma cara que podia ser qualquer subalimentado de Rabo de Peixe, menos o tal de Ronaldo, estando o vulto enrolado numa espécie de lençóis com pregas. Diz-se que uma das pregas foi feita para fazer babar certos hemisférios do cerebelo. Em mim, não tem qualquer efeito, posto odiar Futebol, mas compreender perfeitamente que seja uma mediação para os espectadores se desviarem da bola e se entregarem ao seu homoerotismo onanista. Fazem bem: enquanto se masturbam mentalmente, não estão a agredir a sua boca da servidão, nem a violar os filhos menores.

Não queria, todavia, terminar este texto de forma pessimista, e deixo aqui um pequeno louvor àquela... coisa, que só podia ser um fenómeno do Entroncamento, ou de Gaia, o subúrbio sul da segunda aldeia de Portugal, cuja mundividência, coartada pelos seus arredores, apenas poderia ter um horizonte capaz de soçobrar em tal mediocridade. Na ótica de Parsons, para uma massa bruta, o critério primordial de validação da obra de arte é o realismo. Na verdade, o horror de Velasco não se parece com Ronaldo, mas tão só com a fraude Ronaldo, logo, deve ser profundamente realista. Não presta, então, deverá ser excelente. É, objetivamente, uma merda, logo, está adequada à função representativa de quem pretende representar.

Estão a perguntar-me onde entra aqui o Saramago: já entrou, subliminarmente, como em La Cantatrice Chauve, de Ionesco: toda esta miséria se penteia toda sempre da mesma maneira, mas até não faz mal, por que, como é usual, também nós todos estamos felizes, anestesiados, e de parabéns, na posse de uma coisa inigualável, na infinitamente longa deriva do Mundo.




(Quarteto à la charlie, no "Arrebenta-SOL", no "Democracia em Portugal", no "Klandestino" e em "The Braganza Mothers")


sexta-feira, 9 de janeiro de 2015

Je ne suis pas Charlie: je suis plutôt citoyen du Monde





imagem do "Hebdo Charlie" e em memória dos seus espíritos livres, chacinados pela intemporal intolerância humana



Não se começa um ano por dizer que vamos entrar em guerra, pelo que serei mais generoso: em 2015, nós continuamos numa guerra, cujo início me é difícil precisar. Curiosamente, essa guerra até nem tem nada de novo, nem de extraordinário, é só mais uma guerra, mais uma vez, assente naquele pretexto, sem sentido, de que os povos, inspirados pelo Livro, sentem de chacinar e atormentar todos os outros que não creem no Livro, ou, mais acutilantemente ainda, que acham que o Livro não é o mesmo e sempre o mesmo causador de todos os seus conflitos.

Simplificando as palavras, repito o que ecoa por todos os lados: nunca a praga das religiões provocou tantos mortos como a das guerras inspiradas por essa coisa asquerosa, que tanto tem rosto como não tem, e cujo nome oscila entre Yahvé e Alá, passando pelo Padre Eterno das barbas feias e mal cheirosas. Creio que, a haver Deus, nunca Ele se identificaria com nenhum dos focinhos de suíno dos três nomes anteriores.

Para mim, intelectual, artista, filósofo, livre pensador, ecuménico, no sentido em que sou sensível a todas as grandiosas conquistas que todos os credos do Tempo trouxeram à amenização e solidificação dos laços maiores das relações humanas, é repugnante entrar assim, no ano de 2015, com sombras, odores e bafos de eras que deviam estar definitivamente definitivamente enterradas, mas já lá estou, ou melhor, já lá estamos, todos nós.

Só para os incautos, o sucedido em França agora espanta, ou, sendo mais preciso, só incautos se espantam que tenha sido a França da França a apanhar com este primeiro impacto do que aí vem, mas a cegueira humana tem como definição ser-se cego, do princípio ao fim. A França está, tão só, a colher o que semeou, e isso dava outro tratado, que não o de um texto de luto severo, contra o acontecido

Quanto ao princípio da coisa, nasce daquelas curiosidades etnológicas e ressentimentos históricos de poeira mal assente, em que um certo Ocidente, carregado de culpas, ainda se sente culpado das culpas praticadas num certo Oriente, que, por extensão, criou uma espécie de neurose cultural, em que achamos que deveremos passar o resto da História a penar pelos atos localizados de alguns, nalguns momentos da mesma. O fim, menos evidente, e sem fim à vista, passa por coisas como as presenciadas por essa mesma França, de Voltaire e Sade, cujo bicentenário da morte passou despercebido, por um povo de imbecis, entretidos com a "estátua" de um cretino. O fim do fim, o pior ainda, só agora está a começar e vai passar por coisas bastantes complexas, que obviamente extravasam este texto. Tanto quanto me lembro, esse clímax, ou armagedão, já vem a ser anunciado por obras da década de 70 do milénio passado, como "O Ovo da Serpente", de Bergman, que, creio, urge reverem, por ser cruamente premonitório. A vê-las iremos ver, quando delas for tempo. 

O caso "Charlie Hebdo", agora vivido com a emoção superficial do "viralismo" das voláteis redes sociais já se esqueceu de muitos e muitos intermezzi, por não lhes serem convenientes, ou por que a memória lhes é curta, ou estúpida. Os mesmos que agora clamam contra os pretensos "fundamentalistas islâmicos" -- criados nos muitos cavaquistões suburbanos do neo liberalismo, e que, sinceramente, espero não serem, como Bin Laden, mais um dos subprodutos do esgoto cinematográfico de Hollywood, ou daquelas coligações impensáveis entre os serviços secretos do Ocidente, que só servem para nos lançar na histeria e na impotência da análise fria -- já se esqueceram dos mesmos fundamentalismos de revolta, contra caricaturas, como as do miserável assassino, João Paulo II, o patriarca da SIDA, com a célebre camisinha espetada no focinho, ou das massas em fúria, diante dos cinemas, contra a estreia de filmes da vida daquela Maria, que tinha posto os cornos ao José, para emprenhar o Profeta Jesus, só o Diabo saberá filho de quem. A gasolina devia estar em alta, na época, senão, também tinham incendiado a Cinemateca...

A crua verdade é que, no nosso tempo, são tão ridículos os corvos de trancinha, que batem com os cornos contra o Muro das Lamentações, como aquelas imensas ondas de trapo, viradas, de cu para o ar, para a Meca dos idolátricos meteoritos, ou os miseráveis rastejantes de Fátima, que acham que o solzinho é um Aluno de Apolo, capaz de dançar. O solzinho, realmente, não dança, e nada vejo nisso de religiosidade, mas apenas meras oscilações de consequentes futuros problemas de Ortopedia, que nós pagaremos, com o interminável espremer dos nossos impostos.

Estas coisas não têm solução, senão uma: no séc. XXI, as Religiões não passam, e não podem, e não devem, passar, de um patético aspeto arqueológico das sociedades. Devem, assim, ser confinadas aos seus museus, que são os templos, e apenas visitadas por quem goste do tema, ou se interesse por tais antologias. Qualquer extravasamento sobre as ruas, os lares, ou as consciências, deverão ser imediatamente entendidas, pela inerente coação e devassa da vida privada, como puras violações da liberdade cívica, e imediatamente encaradas, e tratadas, como simples problemas de saúde pública.

Não podemos viver eternamente reféns de um deus cadáver.

Ou se vai a Marte, ou se vai a Fátima.

Pela minha parte, vou a Marte e mando Fátima, todas as fátimas do mundo, para o caralho.

Convido, pois, a que me sigam, todos aqueles que se revirem nas minhas palavras.

Boa noite.


(Quarteto das belas brisas das boas crenças humanas, no "Arrebenta-SOL", no "Democracia em Portugal", no "Klandestino" e em "The Braganza Mothers")

terça-feira, 9 de dezembro de 2014

ISIS, o "Estado Islâmico", como forma acabada do Cavaquismo e ante estreia dos quintais aventalados do Napoleão de Goa



Imagem do Kaos


Já enjoa começar um texto com um chegámos a um estado nunca visto, por que, logo a seguir, nós ainda conseguimos chegar sempre a um estado ainda pior, pelo que hoje vou variar, e dizer que chegámos a um estado "islâmico" nunca visto, o que creio ser uma sinistra realidade.

Para os apreciadores de História Contemporânea, nos quais me não incluo, mas sou forçado a papar, na quotidianeidade, houve um pico de Fim do Mundo, lá para os idos de 75 do século passado, em que a velha ordem ocidental se pareceu afundar: é um longo ano de seis anos de partida das ditaduras peninsulares, da saída do Negus da Abissínia, da extensão da garra soviética a todos os recantos do Império Português, entregues por Mário Soares ao deus dará de Álvaro Cunhal, a derrocada americana em todas as frentes do sudeste asiático, a bancarrota e o grande apagão de Nova Iorque, e esse ano é tão longo que se estende até à invasão da Polónia, da queda da Dinastia Pahlavi e da intromissão russa no Afeganistão. Creio que pior do que isto só ter outra vez as botas nazis a pisar Paris, mas já vinha por aí um destino ligeiramente semelhante, posto que esse extenso Zodíaco lançou a sombra dos Anos 80, marcados pela criminosa tríade Reagan, Tatcher, Woytila, marinados ao molho de AIDS.

Tudo isto seria desinteressante, se não se assemelhasse muitíssimo ao fabuloso panorama em que estamos imersos, mas, desta vez, já em regime de segundas séries, pelo que, quando se pensava que o Obamismo seria o fundo do fim, já se sabe agora ser certo vir um qualquer falcão americano reinstaurar um braço férreo na desordem do Mundo. Aliás, crê-se que os muitos obamas da estupidez humana apenas servem sempre para pôr o senso comum a rezar por um qualquer novo autoritarismo, e ele está apenas à espera de que o calendário esgote as folhas, ou talvez venha mesmo antes disso. Do meu ponto de vista, já aí está, e em muitas frentes, e com muitos rostos e sem disfarces.

Para quem gosta de ir para dentro lá fora, assistimos impavidamente a uma Europa governada por um primeiro ministro, como agora se gosta, a encaixar no formato "o mais jovem primeiro ministro", etc. e tal, Matteo Renzi, que, excetuada uma passeata à palhaçada europeísta, nunca se submeteu às urnas, mas isso faz parte do sonho norte coreano: submetem-se por cooptação, já não se estranham, e entranham-se, na boa, nem que seja para dirigir seis meses a Europa. A única coisa certa é a de que o seguinte será pior. Na Alemanha, a porteira de Leste, Merkel, inconsolável com a queda do Muro de Berlim, sem a qual poderia chegar a Dona do Prédio, contenta-se com desmantelar a Europa e dizer que o continente não é uma terra de futuro para os jovens, coisa que já sabíamos, e até poderíamos acrescentar ser um excelente lugar para o passado dos velhos, não fosse ser isso uma dolorosa falácia de outra derrocada. Por fim, e tudo isto assim um pouco a modos que à vol d'oiseau, a França, do Liberdade, Igualdade, Fraternidade, acaba a recuperar a sineta medieval dos leprosos, com que hoje põe os pobres de Marselha a sinalar pelas ruas a falta de domicílio e a lista completa das doenças. No meio das permanentes árvores de Natal de Obama, apenas comensuráveis com os miseráveis presépios de Maria de Boliqueime, só o senador McCain ousa chamar a Victor Orbán qualquer coisa como "porco fascista", mas Victor Orbán não é o único porco fascista da atualidade.

Para os que preferem ir para fora cá dentro, o cenário não é melhor. Pela primeira vez, aliás, pela segunda, se incluirmos o Procurador João Guerra e a sua impotência na caça aos pedófilos, por prescrita à partida, a Democracia parece querer exercer, pelas mãos de Carlos Alexandre, o primado da Lei sobre a impunidade. A coisa imediatamente revoltou os estômagos, mas toda a gente pressente que isto não é senão a ponta do icebergue, tal como o "Casa Pia" o foi,  não tivesse sido rapidamente estrangulado, e a prova disso é a ira de caneta vermelha com que Sócrates, um "borderline", se endereçou aos Portugueses. Melhor é tê-lo lá dentro, por que não gostamos de lutas de cães de raças perigosas.

A verdade é que este pântano em fase de transbordo não é senão a fase final do anterior, quer exterior, quer interior: na verdade, o ovo da serpente são os anos sem ideologia e infinito oportunismo protagonizados por criminosos tipificados, como Cavaco Silva, cuja ação se resumiu ao desmantelamento dos esteios económicos do Estado e a consequente desintegração urbana.

Ao invés de produzir tecido urbano, o neoliberalismo apenas multiplicou tecido suburbano, enquanto padrão, subcultura e marginalidade: de aí, aos campos de treino do ISIS, foi apenas a ocasião do convite dos mais novos a emigrarem: à beira de um continente que já não estava feito para jovens, havia imensos campos de treino para as adrenalinas da frustração. Creio, pois, que quando nos perguntam por que não se bombardeiam, preventivamente, os fulcros dos fundamentalistas a resposta tenha de ser que nós não queremos ver as nossas cidades todas incendiadas.

O castigo para uma corja destas não está inscrito em nenhuma lei, e apenas uma punição exemplar de décadas de desestruturação do Ocidente, com prisão imediata para todos os seus protagonistas -- dos quais Sócrates é apenas um palhaço menor -- poderiam ser uma intervenção possível, num prazo que já transbordou para o impossível, ou, por palavras outras, de um certo ponto de vista, já se tornou demasiado tarde.

De entre os que partiram já se disse tudo: foi-se a geração mais qualificada e mais os frustrados que virão agora destruir-nos pelas suas próprias mãos. Todavia, os que ficaram dentro não são sequer melhores: tal os bernardos eremitas, enfiam-se nas conchas das organizações que estiverem mais à mão, para servirem os seus próprios desígnios. Não precisam do protagonismo dos vídeos de decapitação, mas contentam-se com se infiltrarem nos congressos dos partidos tradicionais. O cheiro é o mesmo, com pequenas variações de palato, entre galambismos, "livrismos", ruirioismos e outros totalitarismos, que, nem cães, nos ameaçam os amanhãs que rangem.

O que aí vem é muito mau, por que, numa sociedade de recursos cada vez mais estreitos, o canibalismo passou de marginal a estrutural, e generalizou-se, numa variante da lei do mais forte, agora vertida na forma da lei forte do mais perverso. À sombra disso, qualquer debate ou defesa se tornam impossíveis, por que assentam na impossibilidade de, num cenário superpovoado, dois objetos poderem, simultaneamente, ocupar o mesmo lugar, e não podem.

Com a força toda, vendem o território, ainda antes de conquistado. Certos baluartes, como a excêntrica Madeira, demasiado tarde perceberão o que aí vem: mais do que o Napoleão de Goa, os "aventalados" querem espaço vital, e instaurar o seu império territorial. Miguel Albuquerque, um desses bernardos eremitas, tal como Sócrates, um oportunista sem ideologia, vem para rebentar o PSD por dentro, e rebentará. Na verdade, a questão assentaria em como nos defendermos de uma maré sem igual, mas não há qualquer defesa, já que tudo assenta na distinção entre saúde e maleita: uma vez todos doentes, como agora estamos, a doença imediatamente deixou de ser doença, e tornou-se num estado (anti) natural das coisas, ou, para acabar como comecei, num estado "islâmico" generalizado, de coisas nunca d'antes vistas.