segunda-feira, 20 de abril de 2015

Fábula do Boi de Boliqueime e da sua triste rã generalizada







Imagem devastadoramente atual de Rafael Bordalo Pinheiro




Os fins de época são como as mortes súbitas: quando dão, já é demasiado tarde para se fazerem anunciar. A diferença é que, no caso português, a infiltração foi tão prolongada e a umidade tão extensiva que se torna hoje quase impossível distinguir parede e dano. Portugal é hoje um enorme dano, com algumas pausas para se tentar convencer de que qualquer normalidade porventura ainda fosse possível.

Começaram por ser algumas, mas, finalmente se começaram a acumular, as vozes que associam a doença nacional ao nome de Aníbal Cavaco Silva. Tenho nisso a honra de já ter passado para a História como quem, há dez anos atrás, resumiu, numa  simples sucessão de imagens, a imagem que Cavaco deixará para a História. Bem se poderão esforçar aqueles que o quiserem enfileirar ao lado dos retratos da República, que o único, o melhor, o retrato absoluto de si mesmo já foi grafado pelo próprio para a prateleira dos Anais. Não foi com  óleo, foi com fotografia, e saiu-se demasiado bem. Às vezes a História é irónica, mas, como todos sabemos, sempre triunfa aquele instante em que se descobre que o rei realmente ia nu.

Neste pântano político, Cavaco conseguiu ir nu durante 10 anos de maiorias absolutas, e mais uns 10 outros, de agonia neurológica. Se me não falham as aritméticas, 10 mais 10 faz 20, e vinte é, mais coisa menos coisa, metade do tempo em que Salazar manteve Portugal como uma coisa estagnada da Meseta Ibérica. Se somarmos a metade de Cavaco com o dobro de Salazar, ficamos, mais a soluçar uns quantos Caetanos e Eanes, com quase 80 anos de paralisia política. Ora, 80 anos em 100 é muito ano, ou muita paralisia, ou muita estupidez inveterada, o que se torna idiossincrático e incontornável.

Para algumas correntes, nas quais me incluo, Cavaco Silva constituiu a quinta essência da gangrena do Regime Português. Cavaco está para a Democracia como Manoel de Oliveira esteve para o Cinema, ou, aristotelicamente, sendo que duas coisas não podem simultaneamente ocupar o mesmo lugar, na verdade, não pudemos ter nem Democracia e muito menos Cinema: antes nos contentamos com ficar a vomitar cavacos e oliveiras, enquanto o Mundo, estarrecido, não deixava de rodar.

A situação poderia não ser grave, e estava agora mesmo a olhar para um fragmento de mastaba de Neferikaré Pepi II, que está exatamente atrás de mim, e a pensar em como o mais longo reinado da História involuntariamente conseguiu que o Império Antigo depois caísse numa confusão política, que levou os longos anos que sabemos para se restaurar numa nova ordem reconhecível. As longevidades, exceto na genialidade, são geralmente nocivas para a essência das sociedades, mas, para além da crise local, nós estamos igualmente a atravessar uma gravíssima crise cultural em que a palavra regeneração parece ter-se tornado obsoleta. A verdade é que como morreu Oliveira, Cavaco também está prestes para sair, e a doença de Balsemão, como a de Borges, é uma das nossas mais profundas esperanças, sendo que o étimo da palavra "esperança" é, realmente, o de... "esperar".

No nosso grave, e pantanoso, bellum sine bello, pensamos que, como num sonho de bela adormecida, o Tempo passaria incólume sobre este período, e voltaríamos, como passados por entre os pingos de chuva, a emergir, incólumes e intactos, para prosseguir na nossa fábula. A verdade não se quis assim, e, como após um longo período de acamamento, estamos agora, incrédulos, a descobrir que perdemos completamente a tonicidade dos músculos e a própria capacidade de andar.

Os sintomas estão aí, e confundem-se com a típica Síndrome do Fim da História: Maria Luís Albuquerque, a atual loura sebosa das Finanças, a traçar planos de previsão para um futuro governo, e quem sabe se não o está mesmo a fazer com alguma sabedoria, dado o estado de degradação da matilha que enturmou com António Costa. No final deste período decadente, até seria possível que Albuquerque sucedesse a Albuquerque, entre os rangeres de dentes e espumejares da raiva galambiana. Talvez gostassem de saber a minha opinião, e eu ponho-a já aqui: adoraria que, simultaneamente, toda esta gente perdesse as Eleições e adoraria que António Costa nunca as ganhasse, pelo que, pela sua própria natureza quântica, me é totalmente indiferente o que venha a suceder: um povo que, após Salazar, apadrinha Cavaco tem exatamente tudo aquilo que merece, e eu remeto-me ao meu papel nefelibata, e vou muito acima das nuvens, completamente embrenhado nas minhas coisas, entre as quais o maravilhoso calcáreo da gazela de Neferikaré Pepi II, e, progressivamente, insensível aos epifenómenos rançosos da nossa contemporaneidade. Lamento imenso, mas em tempo de crise, reservo-me o direito de invocar a minha condição de intelectual, e de rumar diretamente para a História. Os culpados do resto que se amanhem, e se comam uns aos outros.

De algum modo, todo o anterior é apenas introdutório para o que tenho para vos dizer e que é breve. Com o país no impossível estado de faz-de-conta em que se encontra, subitamente, as televisões e os jornais, que os balsemões deste mundo conseguiram que deixassem de ser fábricas de sonhos para se tornarem em permanentes fábricas de pesadelos, despejaram-nos em cima uma multidão de fantoches inacreditáveis, todos eles com o carimbo de "candidato a", e completa-se a frase... "candidato a Presidente da República". Sei que o raciocínio é platónico, e talvez esteja ferido de ingenuidade, nesta idade de generalizado teresaguilhermismo em que mergulhamos, mas continuo a acreditar que Presidente da República é um cargo com matizes e qualidades às quais, mas isto sou eu, que tenho uma matriz consular e romana, só se poderia aspirar em condições muito específicas e refinadas. No raciocínio patrício, o Presidente deveria incarnar um senador dos senadores, mas o problema, a doença portuguesa, é que Cavaco Silva, para além de ter degradado a Democracia, igualmente degradou o cargo presidencial. Ao fazê-lo subrepticiamente descer de nível tornou-o acessível a outros tantos iguais ou piores do que ele mesmo.

A Comunicação Social se encarregará de fazer o resto, numa espécie de chamadas de valor acrescentado que veio substituir a anterior validação dos sufrágios nacionais.

Os nomes já vocês os conhecem de sobra, e não vou repeti-los aqui, por que um nome muitas vezes repetido é uma forma de propaganda, nesta época de opacidade e cegueira crítica. Antes digamos que a qualidade da Democracia, mais uma vez, se encontra irremediavelmente afetada por fenómenos locais de vazio e vaidade, oscilando entre o patético, o piedoso e o auto complacente, os chamados manueis-alegrismos, ou, na senda continuada dos atentados à sua transparência, as sociedades secretas se engalfinham, para tentar alçar ao poleiro decaído os fracos nomes dos seus aspirantes. Na verdade, bem podem engalfinhar-se, por que o efeito se tornou verdadeiramente perverso, e, talvez numa estreia da nossa história recente, todos os candidatos são apenas candidatos aos últimos lugares, deixando a estupefação de não existir um único que tivesse pretensões a ganhar. Isto, creio, é inovador, e é uma dramática sequela do Cavaquismo, já que a Presidência da República deixou de ser um lugar cimeiro para se ter transformado num recanto de arrecadação, onde qualquer um pode sonhar arrumar o que bem entender.

Como poderão acenar-me, este discurso é precoce, e há sempre aquele concomitante sebastianismo de que, na hora verídica, alguma coisa se levantará. Quem sabe se não virá uma figura impoluta e de Estado, como o Carrilho, encarrilhar a situação?... Pela minha parte, volto a reiterá-lo, o tema tornou-se, tal como o das Legislativas, totalmente irrelevante. A minha questão é apenas a de, uma vez afundado, pelo seu coveiro, um Regime, que lugar terá a Imaginação para encontrar o que o possa vir a substituir?...



(Quarteto da linda, linda, Nódoa, que grande que é esta nódoa, no "Arrebenta-SOL", no "Democracia em Portugal", no "Klandestino" e em "The Braganza Mothers")

quarta-feira, 8 de abril de 2015

Sete anos de Kl@ndestino...



(imagem: Lucky 7)

Obrigado a todos os colaboradores que passaram por este blogue, em especial ao Arrebenta, que o vai mantendo vivo.
Kl@ndestino

domingo, 8 de março de 2015

Perversity Jane e a Soror Alcoforada de Vilar de Maçada






Imagem do Kaos



Hoje não me apetecia escrever, por que estou demasiado preocupado com Hatra, Nimrod e Palmyra. Há uma semana, fui buscar o livro à estante, e só hoje percebi o que, no subconsciente já me andava a preocupar, e é mesmo isso, o fim explícito da Humanidade, ou, como diria Santo Agostinho, de uma certa Humanidade, através do desaparecimento dos seus testemunhos maiores, mas isto é uma questão privada, e quem a perceber, como eu, que a viva, e perceba por que não deveria estar a escrever hoje, mas estou.

No nosso quintal, a coisa não anda melhor, e anda a ser rodada da forma do costume, ou seja, enquanto caminhamos aceleradamente para uma guerra, ou, melhor, enquanto já aceleradamente avançamos, dentro de uma guerra, o nosso esgoto continua preocupado com minudências, e vamos começar pela parte humorística, a daquela soror Mariana de Vilar de Maçada, que continua, como a outra, com o seu alcoforado enfiado atrás das grades. Parece que houve uma deriva do polo magnético da Terra, e, ao contrário da primeira, que tinha orgasmos fingidos em Beja, esta geme, como uma podenga, no seu descalçário carmelita de Évora. Creio que, sinal do fim de era, em que estamos, é que uma criatura, supostamente detida por risco de perturbação de inquérito, continue, na choldra, a emitir oráculos: "Ah, eu própria atraí sobre mim tanta desgraça!", dizia a outra, "De si nada mais quero. Sou uma doida, passo o tempo a dizer a mesma coisa...", e é verdade, pelo menos, desde que estoirou o escândalo do diploma, em 2007. "Mandar-lhe-ei, pelo primeiro meio, o que me resta ainda de si. Não receie que lhe volte a escrever, pois nem sequer porei o seu nome na encomenda. De tudo isso encarreguei D. Brites" (Esta Dª. Brites, que se saiba, ainda não está na lista de Rosário Teixeira, ou do Juiz Carlos Alexandre, mas é bom que eles se informem, por que a pista está lá, pelo menos, desde o séc. XVII...)

A verdade é que, ao contrário desta, afogueada pela falta de picha, a de Vilar de Maçada é mais de rancores e de ameaças de vingança, fala de gente próxima da "miséria moral", "O que aconteceu aqui foi uma total precipitação de quem estava tão cego pela sua intenção persecutória ou tão convencido da sua teoria e das suas presunções que avançou sem provas ou sequer fortes indícios de quaisquer crimes", e mais "procuro neste momento desculpá-lo, e sei bem que uma freira raramente inspira amor; no entanto parece-me que, se a razão fosse usada na escolha, deveriam preferir-se às outras mulheres: nada as impede de pensar constantemente na sua paixão, nem são desviadas por mil coisas com que as outras se distraem e ocupam", e é isto que nos deveria inquietar, por que, se o bicho preso já é assim, e assim se comporta, como seria o bicho se fosse largado cá fora, como tantos desejam, pois não acabaria o Mundo às mãos do ISIS, mas às dentadas de Vilar de Maçada, salvo seja...

"Não tenho nada que ver com a vida empresarial dele, ele nunca me pediu nada enquanto fui membro do Governo. A nossa relação fraterna é pessoal não é profissional", dizes, que nada que tu digas eu acredito, e vou mais pela voz maviosa da tua antepassada, com o grelo aos saltos pelo Marquês de Chamilly -- que a tinha grande e grossa, como o Nelson Évora --: "Amei-o como uma louca, tudo desprezei! O seu procedimento não é de um homem de bem. É preciso que tivesse por mim uma aversão natural para me não ter amado apaixonadamente. Deixei-me fascinar por qualidades bem medíocres. Que fez para me agradar? Que sacrifícios fez por mim? Não procurou tantos outros prazeres?", coitada, coitada, coitada, ai que apertada, que apertada, que apertada que eu me sinto, e não é para menos: "malas de dinheiro que iam para Paris; o milhão descoberto num cofre que nunca foi meu; e agora um fundo que eu teria para "esconder" os imóveis que nunca tive. Tudo invenções e mentiras", a dor que sente a verdade que deveras sente, "um amante que não voltarás a ver, que atravessou mares para te fugir, que está em França rodeado de prazeres, que não pensa um só instante nas tuas mágoas, que dispensa todo este arrebatamento e nem sequer sabe agradecer-to. Como é possível que a lembrança de momentos tão belos se tenha tornado tão cruel? E que, contra a sua natureza, sirva agora só para me torturar o coração? Ai!, a tua última carta reduziu-o a um estado bem singular: bateu de tal forma que parecia querer fugir-me para te ir procurar. Fiquei tão prostrada de comoção que durante mais de três horas todos os meus sentidos me abandonaram: recusava uma vida que tenho de perder por ti, já que para ti a não posso guardar." E fossemos nós só humanos, simples e mortais, já o nosso coração estaria aqui esvaído em lágrimas:
"Lindo! O ideal do Ministério Público será, portanto, o de um processo onde o arguido esteja em respeito, viradinho para a frente, sem se defender", sim, e "contra mim própria me indigno, quando penso em tudo o que te sacrifiquei: perdi a reputação, expus-me à cólera de minha família, à severidade das leis deste país para com as freiras, e à tua ingratidão, que me parece o maior de todos os males. Apesar disso, creio que os meus remorsos não são verdadeiros; do fundo do meu coração queria ter corrido ainda perigos maiores pelo teu amor, e sinto um prazer fatal por ter arriscado a vida e a honra por ti. Não deveria oferecer-te o que tenho de mais precioso? E não devo sentir-me satisfeita por ter feito o que fiz?..."

E aqui acho que já deverão estar mesmo, como eu, a chorar que nem marias madalenas, e a verdade é que, se até aqui, foi um puro exercício de estilo, um bocejo de escritor, como nós costumamos dizer, é agora necessário voltar à realidade, e a realidade é muito simples: como intelectual, detesto que me manipulem, e a questão das dívidas à Segurança Social de Passos Coelho não passa de mais uma manobra de diversão, num cenário que eu passo a explicar: neste momento, o governo da República, depois de anos de tormenta, entrou na reta final dos seus sinais de agonia. Do ponto de vista histórico, já cumpriu o seu papel, que foi fazer Portugal regredir décadas, destruir uma geração e arredores, mergulhar o país numa catalepsia económica, num pântano financeiro, e deixar à rédea solta todas as ilegalidades e violações sociais e constitucionais. 

Cumpre lembrar que, nesta situação, Passos Coelho não passa de um mero idiota a quem o frete foi encomendado, por quem, de direito, e na sombra, há muito, senão quase desde sempre, governa Portugal. Há gente para quem a palavra "Democracia" ainda faz tremer, e é a mesma gente que preferiria que a "evolução na continuidade" tivesse triunfado, e talvez nem fosse mau, como fez a España do então notável Juan Carlos. Quis a História que a coisa não fosse assim, e, enquanto soltavam as feras do enxovalho e da turbulência política e social, essas mesmas caras da sombra permitiram que o país profundo, o país do juízes que nunca mudaram, o velho sistema censório salazarista, permanecesse, basicamente intocável e intocado. Sempre que há uma manifestação dos descontentes dos amealhamentos de uma vida inteira, nós vemos aqueles inacreditáveis fácies, que foram fixados, desde Bosch, passando por Le Brun, e permaneceram, até Lombroso: aquelas são as verdadeiras caras de Portugal, as mesmas que aplaudiam nos autos de fé da Inquisição, as que queimaram a Passarola, as que ainda discutiam a Segunda Escolástica, no tempo de Descartes, as que votaram Cavaco e aplaudiram Carmona, as que sabem que Angola é nossa e até deles, exceto de quem deveria ser, os apreciadores do "Gatos Fedorentos", os metralhistas de todos os "Charlies Hebdo" que não temos, os fãs do Tony Carreira, da Mariza e do Zezé Castel Branco, enfim, tudo isto para dizer que essas mesmas mãos de sombra, que nos querem tornar em marionettes de outras marionettes, mais uma vez soltaram as feras, e transformaram o momento de desintegração e declínio da Nação numa espécie de novo circo, com imbecis atrás de imbecis, a comentar o Vazio, na impossibilidade de olhar para a vaga gigante que se está a avolumar sobre todos nós.

Olhar para a televisão e ouvir falar dos probleminhas de Passos Coelho é exatamente igual a estar a ver a "Casa dos Segredos" ou as longas horas dos anormais que comentam "Futebol": é a mão da manipulação a manipular, mais uma vez, todos os que pensavam que já não podiam ser manipulados mais, pois podem, e estão.

E, já que entramos na realidade, vamos mais fundo, por que a coisa se resume no modo em como a vou expor. Há um dado, no meu perfil existencial e de maturação intelectual que gosto de fazer sobressair e relembrar: sou dos raros Portugueses, ou talvez nem seja tão dos raros assim, que acha que, de tudo o que Cavaco fez, desde que nasceu até agora, nada se salva nem aproveita, e tudo foi nocivo para a Nação, e apenas aguardo, com o mesma ansiedade com que aguardaram aqueles que, noutro tempo, e noutras gerações, ouviram, um dia, dizer que Salazar tinha caído da cadeirinha, que Cavaco já não está entre nós, depois de 20 anos da mais infecta podridão política, sendo que os melhores anos das nossas vidas foram gangrenados pela mera existência dessa obsolescência política e histórica, que nos fez severamente crer que nunca poderíamos deixar de ser a Cauda da Europa.

Contrariamente ao que atrás disse, a repulsa por Cavaco não é só minha, mas transversal a muitos dos setores do pensamento e da orientação política portuguesa. Cavaco foi o indivíduo para quem a Democracia sempre foi, é e será, insuportável, já que representou uma pausa existencial, na sua ilusão de um salazarismo continuado, ad aeternum, a quem ele um dia estenderia a mão, e do qual seria um severo continuador. A História não o quis assim, e ele vinga-se na História e na História dos Portugueses. O dia da sua morte será um dia de libertação, mas  o dia da sua humilhação, por muito que isto possa parecer estranho aos que me leem é, verdadeiramente, o que subjaz aos devaneios das dívidas de Passos Coelho, que me interessam tanto como os broches feitos ao Clinton pela Lewinsky, pela simples razão que Passos Coelho nunca existiu, mas foi uma mera fachada frouxa, para que se instalassem, na cena portuguesa, os interesses que a Alcoforada de Vilar de Maçada ainda não tinha deixado penetrar.

A nossa questão fronteiriça, a da "raia", voltou a níveis de inquietação e instabilidade medievais, não sabemos quem somos, onde começamos, nem para onde vamos. Apenas sabemos que estamos, e continuamos, a ser empurrados para lá, e aqui entra o segundo monstro deste filme de terror, Pinto Balsemão, o homem cuja morte, como a de Cavaco, finalmente poderá ser o verdadeiro 25 de abril português. Até lá, estamos numa agonia de vinganças proteladas, de facas afiadas e mentiras. Toda esta gente, a de Bilderberg, sabe que é mortal, e não suporta a sua finitude, preferindo arrastar consigo o fim de todas as realidades, entre Nimrod e Palmyra, ou um belo holocausto atómico em Teherão. Não é por acaso que os melanomas inoperáveis das pálpebras de Pinto Balsemão se manifestam agora, e reveem, nas atrocidades dos ISIS, e dos seus vídeos de execução, rodados nos bastidores cinematográficos da Alemanha. Nem Riefenstahl faria melhor, e o filme continua, e vai continuar, até ao descalabro final.

Num momento em que o Napoleão de Goa não está senão preparado para o seu exílio antecipado, em Santa Helena, com a Alcoforado ainda a gritar, de Évora, pelo extermínio de quem a condenou, com os muitos galambas ávidos de decapitações antecipadas, e um eleitorado completamente desinteressado e apavorado com o que possa ser uma disputa entre um governo já morto, e em pura gestão, e um governo nado morto e sem qualquer possível sustentação, nesse momento, estamos a discutir o sexo dos anjos, enfim, está quem a isso se deixou levar.

Como Clinton, Passos Coelho apenas fez aquilo com que todos os Portugueses sonham e sonhavam poder ter feito. Teve apenas azar, por que os tempos mudaram, e ele foi apanhado com as calças na mão. Quanto à história, a história não é essa, é a história dos afiadores de facas longas, entre os quais me incluo, e estranhos são os tempos em que me vejo cercado dos aliados que mais execro, mas unidos num único propósito, o de que Cavaco Silva, essa neoplasia do tecido democrático, não obtenha a última lápide com que sonha, a de que se diga que, durante o seu ranço e a sua tetraplagia física e mental, foi o único período pós 25 de abril em que uma coligação cumpriu, até ao fim, o seu mandato. Como se pode imaginar, só o prazer de poder tirar ao degenerado neurológico esta derradeira, e premeditada, consolação, me põe os olhinhos a brilhar, e digo, vamos a isso, e se a Segurança Social for a coisa que faça cair o Governo, pois que caia, só para ver o desespero da Múmia de Boliqueime, mas isto sou apenas eu, um nefelibata do vazio da contemporaneidade: a realidade é infinitamente mais vasta, e afastada de qualquer laplacianismo sonhado, por que, caído Passos, nada garanta que não volte, e revigorado, ou substituído por aquela indiscritível massa de podridão que rodeou o nado morto António Costa. Como sempre, nem "Podemos", nem "Syrizas", nem coisa nenhuma encontramos para substituir este impasse, atafulhados nos Acidentes Eucarísticos, e na trama da Segunda Escolástica, ou talvez o vejamos, inesperadamente resolvido, com uma coligação imprevista, entre os Pastorinhos, o Cristiano Ronaldo e a Teresa Guilherme, como Ministro de Estado.

Uma coisa é certa: isto vai, como em Nimrod, acabar profundamente mal.



(Quarteto do colapso civilizacional, no "Arrebenta- SOL", no "Democracia em Portugal", no "Klandestino" e em "The Braganza Mothers")

terça-feira, 3 de março de 2015

O Napoleão de Goa em Santa Helena, seguido de metadiálogos avec le genou de Mademoiselle Corinne





Imagem do Kaos


O Napoleão de Goa conseguiu uma coisa espantosa, que foi ir direto da sua Córsega para a Ilha de Santa Helena, sem nunca ter posto os pés em Paris. Cremos, mas apenas como hipótese de trabalho, que este maravilhoso percurso se deveu àquela ratoeira sociológica que se chamou as "Primárias do PS", dando razão a uma amiga minha -- cujo nome aqui não posso pôr, senão passavam a conhecer todas as  minhas fontes -- que jurava que, naquele santo dia em que o PS pôs os patins ao António José Seguro, eram aos milhares as caras da oposição ao PS que se engalfinhavam, para lhe escolher o pior líder da Oposição. A coisa parece perversa, mas, bem observada, também é um sinal de maturidade cívica, já que, quando se quer ver a Oposição perder as  eleições, o melhor é a oposição à Oposição mobilizar-se, fazer um pequeno esforço, e ir lá votar na pessoa que se lhes afigure estar mais a jeito para ser derrotado.

Sendo isto uma mera hipótese, só teremos a certeza, quando chegarmos ao descalabro legislativo deste ano, embora eu tenha uma previsão, da qual nem sequer sei se gosto, até por que nem sei em que estado estaremos, quando lá chegarmos. Disse-me um passarinho que será substancialmente pior do que agora, mas quem são os passarinhos, se o António Costa, de repente, decidir vir dizer que, depois dos quatro anos, estes seis meses ainda conseguiram vir trazer melhores melhorias para o estado de catalepsia em que mergulhamos?

Nos entretantos, o país tornou-se interessante, já que faz lembrar os anúncios da Benetton, de há uma década atrás, cheios de raças, e com algumas dificuldades em encontrarmos uma cara portuguesa, já que emigraram todas, ou quase todas. Há um postulado de Euclides que diz que, entre dois monhés se pode traçar uma e só uma reta de caril, pelo que, tentando ser matemático, coisa nos antípodas da minha iliteracia, olhei para o Napoleão de Goa e para o Zeinal Bava, e comecei a farejar, como uma cadela ciosa, a ver se cheirava a especiarias. A verdade é que o cheiro que vai de António Costa a Zeinal Bava é de tudo, menos de especiarias, ou, mais objetivamente falando, ambos encarnam, quanto mais não seja pelo odor, as tristes epígrafes de fim de regime a que chegámos.

Do primeiro, pouco há a dizer, já que é uma construção diária da sua própria irrelevância. O segundo, porventura mais perverso, passou, de um dia, do saramago das comunicações para a realidade dos calotes. Pouco memória, uma infinita vaidade e um palco ideal, para ser condecorado vagalmente até à quinta casa. Como todos os mitos, passou do autoclismo à retrete, com uma breve passagem pelas medalhas todas do Mundo, incluindo aquela, quase póstuma, do Vacão de Boliqueime, e um honoris causa de uma universidade das berças, que nem ao defunto Solnado lembraria. Cremos que, naquela dolorosa hora da morte, Zeinal Bava poderá sentir que sentiu tudo o que a Natureza tinha para lhe dar a sentir, exceto um valente murraço nos cornos, com que 10 000 000 de Portugueses, menos os acionistas da PT Telecom, sonham pregar-lhe um dia.

Já o Napoleão de Goa é diferente: tal a pescada, antes de o ser já o era, e, como o feto precoce, nunca chegou a existir antes de se parturir. Como atrás, num tempo qualquer, escrevi, o que tornava António Costa extraordinário, no pântano político português, é que, ao contrário do que geralmente acontecia, os interesses que o suportavam não se manifestavam depois, mas já vinham numa espécie de sequioso a priori, pedófilos, ressabiados, ladrões, Lenas, "Elevens", e outros tantos, ávidos de protagonismo e eleições, e prontos, não para trocar de ideias e comportamentos, mas meramente para ocupar lugares esvaziados, e dar continuidade à gangrena das coisas. Acresce-se a isto, que movido por este combustível biológico, com os aditivos de toda a massa anti PS, a dar-lhe corda, para chegar ao poleiro, a coisa só podia entornar, e entornou.

Como já deverão ter percebido, estou-me zenitalmente borrifando para os resultados das Legislativas, já que, contrariamente ao que sucedeu nos países com algumas semelhanças, não conseguimos nem criar quaisquer syrizas, podemos, ou não podemos, ou vozes do contra, já que nós somos mais modestos, e resolvemos pôr o mesmo vinil a rodar da mesma maneira, integrando no PS as auroras douradas do Galamba, os queremos, da Inês de Medeiros, os fizemos mas não assumimos, do Ferro Rodrigues, os gostaríamos, do Rui Tavares, o que bom que foi, do José Miguel Júdice, o juntos continuamos, do Paulo Pedroso, o assim seja, da Ana Gomes, o inocente estavas, do José Sócrates e o gostaria tanto, do Francisco Assis.

Eu sei que isto já parece um presépio, mas não é: é uma realidade política muito próxima, com forte hipótese de resultar num empate técnico entre o Cobridor de Pretas, mais a Zsa Zsa Gabor, e o Napoleão de Goa. Se juntarmos a esta paleta os discursos para chinês ver, a corrupção dos Timorenses, mais o Mário Nunes, o gajo da Base de Beja que foi combater para a Síria, e a Ângela, cuja cona quer ser tratada como uma princesa pelos mangalhos suados e barbudos do ISIS, só ficam de fora os esquimós, ou, como dizem os politicamente corretos, o Povo Inuit, que só não votou nas "Primárias" por que estavam muito longe, e preferem o sol da meia noite, e o arenque fumado, a ver o solzinho dançar, ao cheiro do caril e açafrão.

Se isto não é a Benetton, então, onde é que está a Benetton?...

Acho que já semeei demasiada turbulência, mas ainda falta o melhor: Mademoiselle Corinne -- um pseudónimo, por que os tempos andam de gumes afiados ... -- passou-me uma tonelada de informações frescas, que só o meu amigo Jorge Silva Carvalho poderia revalidar. Como podem imaginar, já que não podemos --- "podemos"... esta palavra tornou-se perigosa, desde que o Maduro a começou a financiar... --, vá lá, não podemos, mas "devemos", escarrapachar com tudo aqui, vão as linhas mais interessantes, sendo que a primeira, que convém, desde já, associar ao belo mês de março que começou a despontar, é a de que Durão Barroso, o "Cherne", podre e corrupto como só alguns raros portugueses alcançaram ser, não tem conta aberta no HSBC, o que faz com que quaisquer associações suas ao escândalo "Swissleaks" sejam mero vender papel de revistas cor de rosa. O "Cherne" sonha mais alto, memória dos tempos em que rastejava ao som do Livrinho Vermelho do Camarada Mao, e sabe que qualquer Grande Marcha acaba sempre numa monumental sarjeta. A segunda, mais pragmática, é que, apesar das cautelas e dos caldos de galinha, tal como uma menina dos "Helth Clubs" do Estoril, já tem motivos e hora marcada para ir fazer companhia ao Vigarista de Vilar de Maçada, que melhor fará em encomendar, à Câncio ou à Fava, um Armani às riscas, por que vai lá ficar dentro por longas eras. Por fim, e por que o contador das horas já começou a contar a decrescência dos dias do último ano que falta para o fim do vergonhoso mandato de Cavaco Silva, é importante comunicar-vos, aqui, um dos carinhos que Mademoiselle Corinne tinha reservado para mim, aliás, para nós: é que, uma vez terminado o seu vergonhoso mandato, Aníbal de Boliqueime já tem emitido um outro mandato, bem mais interessante, obviamente, por que se trata de um mandato de captura.

Foi ela própria que o viu.

É justo: que os dias corram céleres :-)


(Quarteto Benetton, no "Arrebenta-SOL", no "Democracia em Portugal", no "Klandestino" e em "The Braganza Mothers")

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015

Teresa Guilherme como campo subliminar de treino do "Estado" Islâmico





Dedicado a Laura "Bouche", como prenda atrasada do seu Lauragenário, e memória do seu estatuto ímpar de única grande bicha portuguesa que andou à porrada com a Teresa Guilherme por causa de um macho, e perdeu. Fosse hoje em dia, e mais uma vez perderia...




Há um estado larvar da Semiótica que diz que os símbolos de inteligibilidade universal deverão ser de imediato acesso aos próprios iliteratos, o que, naquela dinâmica própria destes fenómenos, implica que aqueles que não conseguirem chegar lá com o intelecto, ou com a sensorialidade dos olhos, deverão, pelo menos, estar permeáveis ao seu impacto subliminar.

Como esgoto, a "cultura" contemporânea portuguesa, estrangulada entre saramagos, joanas vasconcelos, cristianos ronaldos, marizas, gatos fedorentos e juliões sarnentos necessita, pelo princípio do "panem et circenses" de poder alcançar todos os círculos do seu dantesco onanismo, sendo que os patamares mais baixos, por um princípio trismesgístico, deverão obter, na devida proporção, um grau de satisfação idêntico ao dos superiores. Chama-se a isto o socialismo do paupérrimo. Acontece, que na realidade, este postulado é falacioso, posto que a qualidade do engano e a miséria do produto é comensurável, em todos os estratos, acontecendo não ser isso o que move esse texto, pelo que apenas fica na forma de pista.

Teresa Guilherme tem algo de extraordinário, ao ponto de ter conseguido introduzir, no sacrossanto tripé salazarista, do Fado, Futebol e Fátima, uma nova premissa, na forma pleonástica de si mesma, o que, implicando aristotelicamente que duas coisas não podem ocupar simultaneamente o mesmo lugar no espaço, ela imerge numa certa indefinição quântica dos novos "quarks" desta merda, que, caleidoscopicamente, permitem que enunciemos Fátima, Futebol e Teresa Guilherme; Fado, Futebol e Teresa Guilherme, ou ainda Fátima, Teresa Guilherme e Fado. Num tom de piada para físicos, Teresa Guilherme está dotada de um spin próprio, obviamente fracionário, que, à la limite, permite que a declinemos como uma nova trindade, eventualmente a que mais me agrada, já que odeio Fátima, Futebol e o Fado me inspira pouco, como Teresa Guilherme, Teresa Guilherme e Teresa Guilherme, e aqui chegamos à confluência sociológica da coisa, que é o que realmente me levou a delinear esta farpa.

Platonicamente, o discípulo de Sócrates  -- salvo seja... -- pretendia que toda a nossa vivência sensorial não fosse mais do que uma reminiscência das coisas perfeitas, arquetipicamente armazenadas na Caverna. A trilogia, Teresa, Teresa, Teresa e Teresa Guilherme, como uma espécie de fusão sincrética da abjeção fletida por Fátima, Futebol e Fado, conseguiu, e é isso que é extraordinário, já que enformou todo o Cavaquistão, enquanto tempo passado, presente e futuro, e conseguiu que toda a nossa Caverna Platónica confluísse na "Casa dos Segredos", ou seja, tudo o que depois dela vivenciemos nada mais é do uma pálida sombra de todos os esplendores que ali se reúnem, reuniram e reunirão.

Para mim, um cético absoluto, totalmente indiferente às vicissitudes e oscilações do tempo presente, não deixa de ser extraordinário que toda a estrutura milenar, elegantemente geométrica, do "Timeu" e dos seus poliedros axiomáticos tenha sido imprevistamente substituída por uma prateleira de lêndeas, as quais a Demiurga, Teresa Guilherme, conseguiu sucessivamente fazer passar do Informe à Forma, e da Forma ao Sentido, conferindo-lhes um verdadeiro estatuto de Universais, se não, mesmo, de Transcendentais.

Pela lenga lenga teológica cristã, seria pressuposto que a Criação fosse feita à imagem e semelhança do Criador, o que conferiria uma dimensão de excecionalidade ao pequeno palco de marionettes, no qual ela se especializou. Na realidade, a própria estrutura topológica da Teresa Guilherme apresenta algumas particularidades e pontos de estabilidade que a tornam notável. Ao contrário daqueles célebres concursos de misses, que caíram em desuso, por todas as gajas se terem hoje tornado reles e galdérias, e onde imperava a aritmética das medidas do peito, da cintura e da anca -- a centimetragem da mulher-objeto... -- Teresa Guilherme, a Mulher Demiurgo é socialista, ou seja, ela consegue ser igual em todos os seus números e termos. Por outras palavras, syrizou. Para reencontramos tal cânone, teríamos de recuar ao Período Saíta, e aos sacerdotes cubos da XXVI Dinastia, onde a Sabedoria assentava nesse cânone monolítico, de dimensões idênticas.

Tornando a coisa ainda mais epifânica e teológica, a Teresa Guilherme é como a Jerusalém Celeste, igual em comprimento, largura e altura, o que faz dela, para além de uma referência do Dogma, uma potencial referência da Física, que só pecou por ter nascido dois séculos depois de Napoleão.

Na verdade, esta indistinção entre dimensões, com as mamas em fusão topológica com os ombros, as tetas, enquanto cu metafórico, o umbigo semanticamente confuso com os buracos procriativos e as narinas, o colo do fémur a articular simultaneamente com as cervicais e com o cóccix, e o esterno feito numa espécie de garrafa de klein clavicular, entre dobras, pregas, atalhos dérmicos e confusões epidérmicas, enfim, ce bouillon Guilherme, essa sopa de pedra da anatomia disforme, que faz dela um Witkin vivo, ou sonâmbulo, numa peluda, depilada e de cerdas frisadas, na verdade, este ser perfeito do Intelligent Design estaria pronto para representar o metro padrão, muito melhor do que aquela barra de irídio-platina, que pretendia incarnar a décima milionésima parte do quadrante de um meridiano terrestre, coisa pouca, para ela, muito mais habituada a medir o mundo em jardas de picha de Matosinhos, Gaia e Trofa, e outros recantos afins do rebotalho nacional, onde ela se espelha e identifica, e muito mais perto da versão seguinte do mesmo comprimento, desde então, equivalente a 1 metro, percorrido pela luz no vácuo, durante o intervalo de tempo correspondente a 1/299 792 458 segundo, o qual, posteriormente adotado, se posicionou, porventura, muito mais próximo do tempo médio que ela leva a aviar as jardas anteriores,
mas

lá vamos,
posto que ainda estou a perorar aqui sobre a métrica e a quântica, em que ela poderia ser infinitamente mais útil, uma espécie de -- outra vez -- protótipo de irídio-platina de peso equivalente a um litro de água, sendo que para ela, quilograma ou newton são coisas totalmente indistintas, posto que Newton lhe agrada muito mais, por se assemelhar a um daqueles nelsons tatuados que, à falta dos Judocas da Universidade de Braga, ela costuma seriar, para ocupar o antro da sua teia, e aqui vamos começar a falar a sério, por que o grave da coisa não está na sua possibilidade, univolúmica, e indistinta, de poder ser padrão, mas no poder de ter padronizado uma espécie de vazio social, cultural e de relações, que contaminou, distorceu, perverteu e gangrenou todas as possibilidades de uma geração, já de si, fortemente fragilizada, pelas más influências de Cavacos, Lourdes Rodrigues, Cratos, Poiares Maduros, Carrilhos e anomalias afins. Reduzida, pela Crise, aos arredores e subúrbios literais ou figurados do nosso tempo, assim como uma prodigiosa máquina de gestão do Vazio permitiu a confeção de uma fatura nula, como Cristiano Ronaldo, seria necessária toda uma parafrenália de modos de sucesso abaixo, impedindo esta massa bruta de investir diretamente pela brutalidade e transformar as nossas ruas em Donetsks generalizados.

A verdade é que num país inibido, pelas suas próprias insuficiências, de criar Valentinos, Boss ou Armanis, o padrão Teresa Guilherme, do vigorético disforme, tatuado, com um ninho de cuco rapado no alto da cabeça, como forma envolvente do meio neurónio interno, vingou, e os sucedâneos desse novo platonismo alastraram, quer na forma, quer no comportamento, por tudo o que é beco, subúrbio ou vão de ginásio. Tudo isso é irrelevante, uma vez na posse da chave do processo que se deve medir a duas velocidades, a primeiro, como defende Prigogine, que a gaja, num tempo indefinível, os acabará por aviar a todos, e, se não os aviar no ato, os aviará mesmo, nem que seja só em potência; o segundo, de impacto social alargado, que o modelo de vazio fabricado no seu Antro dos Segredos, num outro tempo, acabará por alastrar a todo o desvitalizado tecido social desta ruína nacional, substituindo qualquer diversidade pela uniformidade guilhérmica. O guilhermismo formal, não fosse Marcuse um pulha idêntico ao pulha Carrilho, teria aqui, por fim, uma hipóstase do Homem Unidimensional, ou no vernáculo guilhérmico, o Suburbano Unidimensional. Teresa Guilherme é a autora sinalizada daquele disfarce perfeito com que o fundamentalista de cinto bomba um dia inesperadamente se fará explodir entre nós.

De novo, tudo isto seria irrelevante, se não fosse neste cadinho instável que o chamado "Estado" Islâmico, uma espécie de claque pinto da costista alargada, veio recrutar toda a espécie de facínoras, assassinos e marginais da contemporaneidade, e aqui teremos de relevar de outra métrica, de modo a tornar inteligível o paradigma, em toda a sua mediocridade que envolve as chamadas barbas de três dias.

Na mundividência, na qual me não incluo, dos ginásios, da promiscuidade e da vigorexia crónica, as pelagens do queixo -- tal como as tatuagens passaram a ser as novas epifanias dos triângulos auschwitzianos daqueles que Bilderberg exterminará, na hora de ser pressionado o botão do extermínio -- também, repito, as barbas de três dias passaram a integrar uma semântica elementar do duche, em que o macho mostra que está recetivo, para se tornar no vas indebitum da luxúria do duchado do lado, ou, abandonando o refúgio latino, o macho que ali está a dar músculo à fêmea que transporta dentro de si, está finalmente preparado para soltar a Sombra de Grey de si mesmo, e entregar o seu ponto G ao estímulo do macho de barba de três dias mais perto de si.

Evidentemente, explicar isto à tribo de anormais com que diariamente nos cruzamos, e para quem a Casa dos Segredos se tornou no Arquétipo do Sucesso seria tarefa tão inglória e votada ao fracasso, como tentar discutir Relatividade com a Clara Pinto Correia ou o João Galamba, mas também isto, para vosso descanso, é aqui totalmente irrelevante, já que podemos fazer uma époché sobre o conteúdo, e apenas nos ater aos contornos da forma: acontece que esta tribo, multiplicada por mil, dos retardados de subúrbio, aos quais juntamos a moda das barbas de profeta, de quem sente a insegurança da virilidade a tal ponto que tem de exibir permanentemente uma pintelheira no focinho, se tornou numa espécie de cavalo de tróia dos maiores riscos da contemporaneidade. Na verdade, o hiato epistemológico entre cada um desses trastes, teresa guilhermados, e as fuças dos assassinos do ISIS é tendencialmente nula, o que mostra que o padrão introduzido pela ninfomaníaca da TVI se converteu insidiosamente no modo mais perverso de podermos ter, entre nós, e já permanentemente infiltrados, potenciais terroristas, prontos para perpetrar um qualquer atentado, sendo a sua inversa igualmente verdadeira, ou seja, não ser preciso qualquer arranjo, para os podermos exportar diretamente, em massa, de Mem Martins, da Trofa ou de Caxinas, com a cabeça cheia de carros transformados, pastilhas, repetências, super-dragões e rastejamentos de Fátima, para as montanhas sírias.

A coisa poderia esgotar-se aqui, e ficar pelo humor, mas, uma vez que o Ocidente está em guerra, contra uma das formas mais profundas de barbárie com que nos confrontámos, desde o Nazismo, e como se torna necessário aprender a responder, à maneira israelita do olho por olho, dente por dente -- única linguagem que esse lixo humano compreende -- talvez lhes devêssemos enviar, por cada novo refém decapitado por um suburbano espanhol, português, ou inglês, a imagem da hidra decapitada, a própria Teresa Guilherme, em si mesma, de pescoço cortado pelo Carlos -- o tal que "roça o suor" numa das suínas que por lá anda --, ou, talvez, para ser ainda mais mediático, entregar-lhe o pescoço sapudo à fúria fundamentalista do Fábio Poças.

Há nisto, talvez, um pequeno senão: como já nada a satisfaz, ainda corríamos o risco de que se viesse toda, e em público, como adora, a ser degolada em pleno horário nobre...



(Quarteto da Decadência do Ocidente, no "Arrebenta-SOL", no "Democracia em Portugal", no "Klandestino" e em "The Braganza Mothers")

sexta-feira, 30 de janeiro de 2015

Persona, ou o fim despersonalizado dos Regimes






É consensual a ausência de humor, em Portugal. A mais acabada prova provada desse fracasso cultural é o sucesso que um fragmento presencial de um oligofrénico, Hugo Rosa, atropelador de todos os valores, incluindo o do direito soberano à inteligência, possa agora estar a gozar, no Youtube das últimas semanas. Como hoje se diz, a estupidez tornou-se viral, ou pior do que isso, agarrou-se ao Princípio de Peter e passou a dirigir a própria Televisão.

Para quem conhecesse esses mesmos gajos das "Produções Fictícias" e as suas célebres pielas, mescladas de conas de pretas, nas altas horas das "Docas", em paridade com o inapto Passos Coelho, ainda não Primeiro Ministro da Cauda da Europa, mas já no limiar do coma alcoólico, a coisa seria surpreendente, mas realmente não me surpreende em nada, habituado a um país onde os esgotos correm, não para baixo, mas para cima.

Como dizia o outro, o Humor não é inefável, mas físico e corpóreo, ou seja, exerce-se sempre CONTRA alguém, e Portugal, idiossincraticamente, não suporta que ninguém do seu miserável imaginário possa ser posto em causa: isso perturba o estado das coisas, e syriza a calma podre das almas medíocres. A esta altura estarão a perguntar, por que é que este, com o Mundo no estado em que está, vem aqui  falar de Humor, mas eu não venho falar de Humor, mas sim da Estupidez, que é uma das faces do estrangulamento da coisa humorística, e pode ser o cenário da própria morte, como essa patética encenação de "Charlie", o qual, como o perfil incómodo das Twin Towers, foi arredado, à bruta, do horizonte.

Na verdade, este era um texto de 2014, que foi forçado à lista de espera, pela premência do horror de Paris e da lufada de ar fresco de Atenas, e vem agora, buscando como contra exemplo da crítica que fiz, uma escrita de enorme qualidade, cujo alvo é aquela degenerescência cultural que dá pelo nome de Letizia Ortiz, uma oportunista, que se pendurou, aliás, mais propriamente, que se pilar del riozou na Monarquia Española. O texto é tão bom, naquela sólida veia das cantigas de escárnio e mal dizer, que quase me apetece transcrevê-lo, em vez de o glosar, mas vamos à glosa, para que todos possamos participar.

Começa assim: "Letizia Ortiz Rosacolano é uma anorética que ganhava a vida de "periodista" junto de Urdaci, até que se converteu, pelo matrimónio com o herdeiro da Coroa de España, na Princesa Herdeira Consorte do Reino de España. Fizeram-lhe uma transfusão e passou de pura plebeia de esquerda e "porreta" a ter sangue azul "y a creerse sandiós". Hoje em dia é mais monárquica que Felipe, e isso criou muitos anticorpos".

Evidentemente que só um princípio de isomorfismo poderia encontrar uma operacionalidade entre a cáustica introdução anterior e um casamento contra a natureza, que uniu a hiena Carrilha e a hiena Guimarães, com aquela célebre metamorfose que faz com que, no falecimento do macho, uma das fêmeas desenvolva o pénis, para cumprir a fecundação. Claro que o isomorfismo é flácido, mas também o é o pénis, e nós, cá, somos mais modestos.

Segue o texto: "desde que Letizia se casou com o príncipe, operou-se tanto que se acredita que até consiga bater o recorde de Michael Jackson", embora pensemos que a sua estrutura óssea e a resistência dérmica a tanto não permitam e algum melanoma subitamente lhe interrompa a metamorfose, alheia a Kafka.

O passo seguinte da biografia é um da capo, construído, em espelho, como a Matthaüs Passion, BWV 244, e recorda, "quando nasceu, os médicos pensaram que a sua mãe tinha parido um nariz gigante, para lgo se darem conta do erro, já que atrás vinha uma menina com cara de cavalo...", e chamo a atenção para este episódio comovente, que prova que as cosmogenias têm sempre traços comuns, e esta epifania tanto se podia aplicar a Letizia Ortiz como a Camila Parker-Bowles, o que é uma das provas cartesianas da existência de Deus.

Parece que a este nascimento se sucedeu o desovar de duas outras bucetas, Telma e Érika, sendo que a última "murió a los 31 años de edad por ingestión masiva de un fármaco", dor só com paralelo com a partida para o Aquém de Margarida Marante, na forma da Maragreta Marada da queima cocada.

A parte fulcral vem agora, já que eu não estaria, sequer, a abordar este tema, caso o ex marido não tivesse, depois de um longo silêncio, que eu, um otimista, tenha pensado ser devido à Razão de Estado, mas poder não passar, afinal, de um passo do crescente leiloar de valores, que agora terão atingido os patamares pretendidos por Alonso Guerrero, para publicar as memórias dos 10 anos em que andou a pernoitar na boca da servidão da Consorte de España. Eu sei que os números espantam, não os associados aos direitos de autor dessa década escabrosa, mas sim a que, entre o casamento com o Jumento das Astúrias e a atualidade tenha havido espaço para um matrimónio de uma década. A verdade é que esta Bárbara Guimarães da Meseta Ibérica se enfiou debaixo do Professor de Literatura do Instituto Alfonso II aos 16 anos (!), o que diz muito sobre as perturbações emocionais e as ambições da anorética, Letizia Ortiz. Que a encornada estivesse grávida, e Alonso Guerreo a tenha deixado prenha e de peles descaídas, para montar a futura Reyna de España pouco conta, já que a generosidade dos pais de Leti -- é assim que a tratam -- tenha decidido albergar a pequena puta, o professor Der Blaue Engel mais o par de cornos da abandonada.

Até à próxima publicação do diário de Guerrero, pouco se sabe sobre este idílio de 10 anos, se excetuarmos que se revestiu do típico episódio de posse de drogas, para a constipação, e descambou num típico aborto, o que faz com que as infantas pálidas e goyescas dos Borbón tenham, algures, lá no céu das alminhas pardas, um pequeno morcego, aliás, morcega, aliás murcièlaga, arrancado com agulha de croché, do abençoado ventre de sua mãe, inveterada parideira de fêmeas, e, contornada a Lei Sálica, etérea herdeira, in partibus, do Trono Bicéfalo de España.

Passou, depois, pela sua fase Clara Pinto Correia, quando "se fue a hacer un Máster a Mexico y entre mojitos e tequillas, se lió con el dueño del periódico Siglo XXI", uma espécie de "Expresso" sem "Visão" de aqui ao lado. Foi, nesses entretantos, musa do pintor cubano Waldo Saavedra... e.... e... não, estão enganados, não lhe fotografou os orgasmos, mas "expô-se-a" toda descascada num quadro, escarrapachado na parede de um restaurante duvidoso, até acabar como "imagen promocional de uno de los discos del grupo Maná", e aqui, surpreendam-se, ao contrário da alcoólica da "Lusófona", todo este trajeto "le llevó a no terminar el doctorado", onde se prova que entre abrir as pernas a velhos e concluir doutoramentos não existe, propriamente, um coeficiente de correlação, por muito que tal espante o Carlos Moedas.

Há todavia, semelhanças: enquanto a outra, na forma de um adeus princesa da puta que a pariu, aviava todos os alemães da extinta Base de Beja, já a Letizia marchava para o Crescente Fértil, uma espécie de Florence Nightingale do ovário de eva, que se estendia para "una tórrida aventura con un militar americano destinado por aquellos desérticos parajes".

As carreiras profissionais complementares são, depois, de Lineu, e todas as fizeram na rota horizontal: "a CNN+, um canal privado do Grupo Prisa, no qual se escarrapachou, durante dois anos, retransmitindo as notícias matinais, numa grelha "que empezaba su emisión a las cinco de la mañana, hora mítica que pocos saben si existe". É normal que pouco se saiba disso, exceto que foi aí que Carlos Francino e David Tejera a montaram, bem à justinha, bem antes do noivado com o Garanhão Asturiano.

O resto é Peter puro: já com o noivado em marcha, com Felipe entre o zapping e o fapping (arcaica onomatopeia anglicista para "punheteio"...), galgou para a Televisión Española, no seu "Informe Semanal", galambizando-se para a Segunda Edición do Telediario, e voltando a galambizar-se ainda mais, ao lado de Alfredo Urdaci, naqueles célebres duetos de telejornal da hora de maior audiência. Nada de novo, já que o que pesou nela não foi o "aventalinho", mas a arte de bem abrir as pernas para toda a sela. Poucos se deram conta, aí, de que "la Princesa podría llevar corrector dental para mejorar el aspecto de sus dientes". Nesta fase da sua ascensão meteórica, chamavam-lhe, e bem, "Lecticia, la ficticia".

Aqui é necessário fazer uma pausa, e um ponto da situação, já que sendo "periodista, no estaba preparada para ser reina", muito menos por que "conoció al príncipe Felipe siendo prostituta de lujo [...] com padres divorciados" e ela própria divorciada de um casamento abortado, quer pelo fracasso, quer pelo aborto com que culminara. "Pero ao final, el amor pudo con todo y el Príncipe y la periodista se casaron contra todo pronóstico", e, melhor ainda, "la sentencia de divorcio con el professor de literatura desapareció del registro y se guardó bajo siete llaves y lejos de miradas indiscretas".

Depois de se casar, e como choviam milhões, viciou-se no botox e na cirurgia. "Para disimular la frovolidad dijeron que lo que se hizo fue una intervención de septorrinoplastia con el fin de mejorar sus problemas respiratorios". Não cremos que tal se deva a entupimento de coca, mas, a seu tempo, poderemos consultar o Miguel Sousa Tavares sobre tal temática, já que quem tanto sabe de si, porventura mais dos outros saberá, "pero da risa a pesar que se haya operado con el dinero de sus súbditos y no con el suyo cuando trabajaba de periodista de segunda. Luego le siguió otra de eliminación de bolsas de los ojos, otra de pómulos, aumento de pechos, aparato dental y relleno de ácido hialurónico en cada arruga tres veces al año".

"Si algo bueno se puede sacar de esta unión es que sus genes anulen un poco los genes de los Borbones que hacen que nazcan con cara de retrasados. La primera fue Leonor, luego Sofía de Borbón" e espera-se que mais bucetas se lhe sigam , já que, "actualmente se desahoga con su guardaespaldas, al cual le hace de todo menos la cobra..."

Para extraordinário, nada de mais exemplificativo, sendo que o feito subliminar de tal prosa seja que, desde então, confunda o arquétipo da personagem com a sua satirização: dela, doravante, o que primeiro veremos não será a sua ficção pública, mas o realismo da sua descrição. O mito foi liminarmente trucidado.

Sendo o texto fantástico, e na linhagem da melhor veia do sarcasmo peninsular, cumpre realçar aqui o seu outro intuito, que é uma alegoria do fim dos regimes: assim como as personagens podem ser excelentes, ao ponto de nos fazerem aderir a uma mudança de paradigma, também podem ser tão repugnantes ao ponto de fazerem vacilar o Regime em que medraram. Com Juan Carlos, cheguei, com España, a ser monárquico, para agora me tornar, et pour cause, com Felipe e Letizia, republicano. Já em Portugal, a coisa é ainda mais nauseante, com a fulanização do Regime a poder tornar-se tão atroz através de coisas, como Aníbal Cavaco Silva, a ocuparem a Presidência da República. Mesmo que mais não fosse, por pura higiene, alimárias dessas podem levar-nos a andar às rodas, às rodas, a pensar numa espécie de fuga em frente, para uma qualquer aflição monárquica, mesmo que sem objeto de fixação.

É muito mau, não é?... E é por isto, que, por vezes, nos dá mesmo vontade de syrizar, não dá?...




(Quarteto do fim inglorioso dos regimes, no "Arrebenta-SOL", no "Democracia em Portugal", no "Klandestino" e em "The Braganza Mothers")